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Reservadamente, delegados têm classificado o presidente como “traidor” da categoria por conta da reforma da Previdência e de sua interferência

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Marcos Corrêa/PR - 22.8.19
Declarações de Bolsonaro provocaram mal-estar e reação da PF

As recentes declarações do presidente Jair Bolsonaro (PSL) sobre a possibilidade de trocar o comando da Polícia Federal provocaram mal-estar e reação dentro da categoria durante evento organizado pela Associação dos Delegados da Polícia Federal (ADPF), nesta quinta-feira (22), em Salvador.

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Os delegados têm afirmado que as declarações de Bolsonaro reforçam a necessidade de autonomia da PF e um mandato fixo para o diretor-geral da instituição, o que blindaria o comando de interferências políticas. Reservadamente, delegados têm classificado o presidente como “traidor” da categoria, primeiro por conta da reforma da Previdência, que não atendeu a seus pleitos, e agora por causa da tentativa de interferência na nomeação do Superintendente da PF no Rio.

A insatisfação foi verbalizada no evento pelo presidente da ADPF, o delegado Edvandir Paiva. "É fundamental que o nosso diretor-geral tenha mandato, seja escolhido por critérios técnicos e republicanos, que tenha a capacidade de formar a sua equipe sem interferência de nenhum posto político do governo", disse Paiva na abertura do evento, cujo tema é o combate à corrupção.

"Porque a Polícia Federal é uma polícia de Estado. Nós respeitamos a autoridade que o povo conferiu ao presidente da República, entretanto o trabalho da Polícia Federal é um trabalho de Estado, permanente, independente de qualquer governo", acrescentou.

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Presente no evento, o diretor-geral da PF Maurício Valeixo discursou sobre o tema da corrupção, mas não comentou possíveis tentativas de interferência na PF.

"A corrupção é sim um crime grave, porque significativos recursos públicos são desviados, não permitindo que atinjam seu objetivo", ponderou Valeixo.

A situação deve reacender as articulações da PF pela aprovação de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), atualmente parada na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, que estabelece autonomia para a PF, inclusive de elaborar e aprovar seu próprio Orçamento. Apresentada em 2009, a PEC nunca chegou a avançar.

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Paiva defende que haja um “debate intenso” com a sociedade sobre a PEC, para criar mecanismos de contrapeso e controle de outras instituições em relação ao Orçamento e à atuação da PF . "Hoje nós não conseguimos sequer fazer um planejamento de reposição dos nossos quadros. Nós temos 4.500 cargos vagos na PF", afirmou o presidente da ADPF.

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