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Líder do PSL no Senado diz que anúncio do presidente "gera especulação"; senadores da base aliada e da oposição concordam com falta de 'timing'

Sérgio Moro e Jair Bolsonaro
Marcos Corrêa/PR - 10.5.19
Sérgio Moro e Jair Bolsonaro: presidente confirmou que indicará o ministro para o STF

O líder do PSL no Senado, Major Olímpio (SP), disse considerar que o presidente Jair Bolsonaro se antecipou ao anunciar que pretende indicar o ministro da Justiça, Sérgio Moro , para a próxima vaga que será aberta no Supremo Tribunal Federal (STF). Major Olímpio afirma que o anúncio foi uma “queimada na largada” que criou uma especulação desnecessária. Ele não acredita, porém, que isso possa atrapalhar Moro.

"Acho que foi uma queimada na largada", disse o parlamentar em relação ao anúncio de Bolsonaro . "Não precisaria ter feito essa indicação ou ter antecipado esse compromisso. Não creio que isso possa ter consequêncas maiores, mas acabou gerando uma especulação."

O líder do PSL destacou que alguns parlamentares já articulam uma possível retaliação a Moro , como a aprovação de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que passe de 75 para 80 anos a idade de aposentadoria compulsória dos ministros, o que impediria Bolsonaro de fazer indicações durante seu mandato. Entretanto, ele disse não ver chances de a iniciativa prosperar e elogiou o preparo de Moro.

"Algumas pessoas ficam falando em reativar uma PEC para o presidente Bolsonaro não indicar nenhum ministro. Acho que criou uma discussão desnecessária no momento. Mas, já que houve, ficou clara a transparência. Tem alguém tecnicamente mais capaz? Pode ter igual, mas mais capaz, não tem."

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O líder do PSB, senador Jorge Kajuru (GO), conta já ter sido procurado por outros líderes no Senado pedindo apoio para apresentarem um projeto na mesma linha de aumentar a idade de aposentadoria dos ministros.

"Mudar as regras a essa altura do campeonato, por causa de alguém que merece estar no Supremo? Eu não vou entrar nessa, até porque sou apoiador de Moro", declarou.

Kajuru admite que o anúncio do acordo por Bolsonaro fragiliza o ministro no Congresso.

"No Senado, a reação foi péssima. Conversei com os colegas. Vão para cima dele. Entendo que ele deveria terminar o mandato como ministro. Ele vai cumprir aquilo o que prometeu ao Brasil sobre segurança e corrupção? Não vai conseguir cumprir o que prometeu. Vai ficar caracterizado que ele entrou no governo por essa vaga", completou.

Para Kajuru, se Moro terminasse seu mandato como ministro, seria "fortíssimo candidato à Presidência da República". Essa reação é compartilhada, reservadamente, por outros parlamentares, que consideram que, com o anúncio, o ministro fica exposto no Congresso.

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O líder do PDT, Weverton Rocha (MA), diz que a confirmação de Bolsonaro sobre o acordo com Moro "é desgastante para a imagem do ministro", considerando que "ninguém conhece exatamente os termos do acordo".

"Em tudo o que ele fizer, sempre pairará a dúvida: é o que ele considera correto ou é parte do acordo?", disse Rocha, acrescentando que "ainda mais considerando que ele foi o juiz que prendeu o candidato (Lula) que poderia ter derrotado o atual presidente nas eleições".

Por outro lado, o líder do PSDB, Roberto Rocha (MA), diz que a indicação não muda nada na relação do ministro com o Congresso.

"Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Quem tem o mínimo de percepção política sabia dessa possibilidade. O presidente tem nele uma pessoa de confiança. Se altera em algo (na tramitação de projetos de Moro, como o pacote anticrime), é no sentido de empoderá-lo", disse.

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Líder do MDB na Casa, Eduardo Braga (AM) é econômico. Disse que viu a indicação com "naturalidade". "Da minha parte, não muda nada (na discussão de pautas de Moro no Congresso). Apenas no futuro ele precisará da aprovação do Senado (para se tornar ministro do Supremo)", afirmou.

O PT já alinhou o discurso sobre o tema: o "compromisso" de Bolsonaro contamina a pauta de Moro no Ministério da Justiça.

"Essa confissão do presidente da República mostra que há um projeto político e pessoal, e não um projeto público, no comando do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Ou seja, tudo ali tem uma finalidade negociada ainda no calor das eleições: um assento no STF", comentou o líder do partido no Senado, Humberto Costa (PE).

Para o petista, "isso, sem dúvida, contamina qualquer projeto que saia de lá". "Se já tínhamos sérias restrições técnicas e jurídicas a esse midiático pacote anticrime, agora fica ainda mais evidente que ele não pode ter o apoio do Congresso porque não tem viés social. Mas pessoal."