Manifestação pelo Dia da Libertação em Milão
Reprodução/Ansa - 25.04.2022
Manifestação pelo Dia da Libertação em Milão

O primeiro Dia da Libertação na Itália sem restrições sanitárias desde o início da pandemia de Covid-19 foi marcado por controvérsias e protestos relativos à invasão da Rússia à Ucrânia .

Tradicionalmente, essa data é a principal ocasião do ano para festejar a derrota do nazifascismo na Itália, com grandes passeatas promovidas por organizações de partisans e movidas pelas notas da canção de resistência "Bella Ciao".
Neste ano, as manifestações serviram para homenagear a luta dos ucranianos contra a invasão russa, mas também para protestar contra a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e a decisão italiana de fornecer armas para Kiev.

"Chega de guerras. Contra Putin e contra a Otan", dizia uma faixa levada pelo partido Refundação Comunista à passeata promovida pela Associação Nacional dos Partisans Italianos (Anpi) em Roma. Além disso, outra faixa representava a morte, simbolizada por uma foice e um manto negro, sobre a bandeira dos Estados Unidos.

"Não aprovo essas bandeiras, são inoportunas. Somos gratos aos aliados e aos milhares de jovens americanos que morreram pela libertação da Itália [do nazifascismo]", disse o presidente da Anpi em Roma, Fabrizio De Sanctis.
Segundo ele, a associação "sempre condenou a ocupação de um Estado soberano", mas prega sobretudo a "paz". "Nós somos contra o envio de armas e contra o rearmamento da Europa", acrescentou.

Já em Milão, o ex-premiê Enrico Letta, líder do Partido Democrático (PD), maior força de centro-esquerda na Itália, foi vaiado e acusado por manifestantes de ser um "servo da Otan".

"Essa é a democracia. Respeito aquilo que dizem, mas estamos convencidos de que estamos fazendo a coisa certa", declarou o ex-primeiro-ministro - o PD integra o governo de Mario Draghi e aprova o fornecimento de armas para a Ucrânia.

Durante a passeata em Milão, o presidente nacional da Anpi, Gianfranco Pagliarulo, chamou de "inoportuna" a presença de bandeiras da Otan e dos Estados Unidos, levadas sobretudo por partidos de centro, mas disse que isso não pode ser motivo para divergências. "Ninguém vai morrer por causa disso, é preciso evitar que haja tensão e incidentes. O 25 de abril é uma manifestação inclusiva", afirmou.

De acordo com ele, a Ucrânia tem o "direito moral e jurídico de se defender" contra a "agressão" promovida pela Rússia. "No dia da memória da Libertação, não gostaríamos de um 25 de abril com essa guerra. O primeiro pensamento vai para as vítimas, os feridos, os refugiados e para um povo inteiro que vive uma catástrofe", acrescentou.

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Já Maurizio Landini, secretário da Confederação-Geral Italiana do Trabalho (Cgil), maior sindicato do país, discursou contra o aumento das despesas militares e foi aplaudido por parte dos manifestantes, mas vaiado por aqueles que carregavam bandeiras ucranianas. "Estamos diante do risco de uma guerra nuclear", alertou.

Bucha - A manifestação em Milão também contou com a participação de uma vereadora de Bucha, cidade dos arredores de Kiev onde as autoridades ucranianas encontraram corpos jogados nas ruas, cadáveres com sinais de tortura e valas comuns com dezenas de mortos após a retirada russa, no fim de março.

"Estou aqui como partisan com minhas armas e meu discurso", disse Iryna Yarmolenko, acrescentando que as forças ucranianas "precisam de instrumentos para proteger suas fronteiras". "Minha cidade e Irpin estão 76% destruídas. Pedimos ajuda", afirmou Yarmolenko, que conseguiu fugir para a Itália com sua mãe e seu filho de cinco anos pouco antes da chegada dos russos.

Autoridades - O presidente italiano, Sergio Mattarella, depositou uma coroa de flores no Altar da Pátria, em Roma, e depois participou de uma cerimônia pelo 77º aniversário da Libertação em Acerra, na província de Nápoles.

Em seu discurso, lembrou a invasão russa na Ucrânia e cobrou determinação para interromper a guerra. "Nas primeiras horas de 24 de fevereiro, todos recebemos a notícia de que as Forças Armadas russas haviam invadido a Ucrânia. Como todos, senti um pesado senso de alarme, de tristeza, de indignação. A isso se somou o pensamento pelos ucranianos acordados pelas bombas. E, pensando neles, me vieram na mente essas palavras: 'Questa mattina, mi sono svegliato e ho trovato l'invasor' ['Eu me levantei nesta manhã e encontrei o invasor']", disse Mattarella, citando o início da música "Bella Ciao".

"Precisamos parar imediatamente, com determinação, essa deriva de guerra antes que ela possa desarticular ainda mais a convivência internacional", acrescentou. Já o premiê Mario Draghi, que está de quarentena com Covid-19, divulgou uma mensagem afirmando que 25 de abril é "o dia da gratidão em relação a quem lutou pela paz e liberdade da Itália".

"A generosidade, a coragem e o patriotismo dos partisans e de toda a Resistência são valores vivos, fortes e atuais. Hoje celebramos a memória da luta e dos ideais da Resistência sobre os quais nossa paz foi construída", ressaltou.

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