Manifestantes carregam faixa onde se lê
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Manifestantes carregam faixa onde se lê "Nem Le Pen, nem Macron"

A maioria dos eleitores do candidato da esquerda radical francesa Jean-Luc Mélenchon pretende se abster ou anular o voto no segundo turno das eleições presidenciais no domingo que vem, entre o atual presidente, Emmanuel Macron, e a candidata de extrema direita, Marine Le Pen, aponta uma consulta interna do partido da Mélenchon, a França Insubmissa.

De acordo com os resultados divulgados neste domingo, entre cerca de 215 mil simpatizantes do partido que participaram da consulta, mais de 66% disseram que vão se abster, deixar a cédula em branco ou estragá-la. Pouco mais de 33% disseram que votarão em Macron. A opção de votar em Le Pen não foi dada aos entrevistados.

"Os resultados não são uma instrução para votar em ninguém. Todos vão concluir a partir disso e votar como acharem melhor", escreveu a equipe de campanha de Mélenchon em seu site. No domingo passado, Mélenchon, que teve cerca de 22% dos votos, pediu a seus apoiadores que não votem em Le Pen, mas não chegou a defender Macron.

Macron, uma centrista pró-União Europeia, chegou à Presidência em 2017 após derrotar Le Pen com facilidade, obtendo 66% dos votos. Na ocasião, os eleitores se uniram a ele no segundo turno para deixar os ultraconservadores fora do poder. Mélenchon também não declarou apoio a nenhum candidato naquela ocasião, e foi mais comedido em suas críticas a Le Pen.

O primeiro turno na semana passada fez com que o segundo turno repita a disputa de 2017. Desta vez, no entanto, Macron enfrenta um desafio muito mais difícil. Seu estilo confrontador e políticas que muitas vezes tenderam para a direita aumentaram a resistência a um voto útil por parte da esquerda.

Pesquisadores estimam a taxa geral de abstenção para a eleição do próximo domingo em cerca de 30%, semelhante ao primeiro turno. Não estão claras quais são as consequências de uma taxa de abstenção alta no geral ou entre os eleitores de Mélenchon.

Tanto Macron quanto Le Pen lutam para alcançar eleitores além de seus próprios campos. Tanto em 2017 quanto em 2002 — quando o pai de Marine, Jean-Marie Le Pen, levou a extrema direita ao segundo turno pela primeira vez na França—, formou-se uma "frente republicana" de eleitores de todos os matizes para manter a extrema direita longe do Eliseu.

No sábado, uma pesquisa IPSOS-Sopra-Steria apontou que cerca de 33% dos eleitores de Mélenchon apoiarão Macron no segundo turno, com 16% apoiando Le Pen. Mas mais de 50% das pessoas questionadas se recusaram a dar sua opinião.

Denúncias de corrupção

Le Pen e seus parentes foram alvo de denúncias de corrupção no sábado, envolvendo o desvio de dinheiro do Parlamento Europeu quando ela foi deputada por lá, entre 2004 e 2017.

Segundo um relatório do Organismo Europeu de Luta Antifraude (Olaf), escrito há um mês revelado pelo site francês Mediapart no sábado, “o impacto financeiro dos fatos apurados chega a pelo menos € 617.379,7”. Os fatos denunciados incluem o uso de verbas europeias para eventos internos do partido e gastos pessoas.

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Segundo o Olav, as denúncias "podem dar origem a processos penais contra os ex-deputados (...) por atos fraudulentos que cometeram em detrimento do Orçamento da União". Entre os possíveis delitos, o escritório cita "fraude", "falsificação ", "quebra de confiança" e "desvio de fundos públicos" para fins políticos ou pessoais.

A candidata do Reunião Nacional (RN) nas eleições presidenciais é acusada de ter desviado € 136.993,99 e do dinheiro comunitário quando era deputada europeia, entre 2004 e 2017. Seu pai, Jean-Marie Le Pen, é suspeito de ter desviado € 303.545,76. O relatório também cita o membro da direção do RN Bruno Gollnisch pelo desvio de € 43.257 euros, o ex-companheiro de Marine Le Pen, Louis Aliot, pelo desvio de € 2.493,22, e o grupo político de extrema direita Europa das Nações e Liberdades (ENL), suspeito de desviar € 131.089.

Um dos advogados de Le Pen, Rodolphe Bosselut, respondeu ao Mediapart que “não sabe de nada” sobre as acusações do relatório”, que “nunca teve acesso a ele” e que o Olaf “não é independente”. O advogado também criticou a "coincidência" da publicação da denúncia com "a campanha ao segundo turno das eleições presidenciais, que está a todo vapor”.

A denúncia prejudica a imagem de honestidade que Le Pen tenta transmitir na campanha.

A candidata tem apelado para setores operários e rurais do eleitorado de Mélenchon, concentrando sua mensagem no custo de vida, no aumento dos preços dos alimentos e nos altos preços da gasolina após a guerra na Ucrânia. Enquanto isso, ela acusa Macron de ser o candidato dos ricos.

Macron, por sua vez, está tentando atrair os segmentos mais educados, de centro-esquerda e urbanos dentre os apoiadores de Mélenchon.

No sábado, ele disse a apoiadores em Marselha, que votaram em peso em Mélenchon, que havia ouvido sua mensagem e concentraria sua nova Presidência em tornar a França livre de combustíveis fósseis. Ele acusou Le Pen de ser uma "cética do clima". A candidata respondeu:

— Não sei em que ele está se baseando, mas nunca fui cética em relação ao clima. Tenho um programa que leva em consideração o meio ambiente e a ecologia — disse Le Pen à emissora de televisão France 3.

As promessas de Macron de fazer mais pelo meio ambiente podem não atingir o alvo para alguns eleitores. O chefe do Partido Verde, Julien Bayou, disse que o presidente não tem credibilidade sobre o assunto.

— Ele tinha cinco anos para agir e não o fez — disse ele à rádio Franceinfo, acrescentando que a convocação dos Verdes para votar em Macron foi puramente para impedir que a extrema direita chegue ao poder.

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