Presidente Xi Jinping
Agência Brasil
Presidente Xi Jinping

*Por Denise Bonfim e Carlos Eduardo Vasconcellos

No segundo semestre deste ano, o 20º Congresso do Partido Comunista Chinês (PCC)  deve sacramentar o terceiro mandato de Xi Jinping como presidente do país. Em um momento marcado pela invasão russa à Ucrânia, há um  temor de que, a exemplo do país presidido por Putin, a China inicie uma ofensiva contra Taiwan — já que a ilha é considerada por Pequim parte inalienável de seu território e, conforme tudo indica, o congresso do PCC pretende referendar a intenção chinesa de se reunificar com a ilha.

No início deste mês, o presidente taiwanês, Tsai Ing-wen, acusou a China de ameaçar a ilha de modo semelhante ao que fez a Rússia contra a Ucrânia. Segundo Tsai, "os países democráticos" não podem "fechar os olhos para a agressão militar".

O conflito entre China e Taiwan é uma herança da Guerra Civil Chinesa, quando nacionalistas e comunistas disputaram o poder da China. O desfecho do combate aconteceu em 1949, com a vitória dos comunistas. Com o revés, os nacionalistas fugiram e fundaram Taiwan. 

O iG conversou com dois especialistas que avaliaram a hipótese de uma ofensiva militar chinesa contra sua antiga província.

Segundo explica  Bruno Hendler , professor de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), a tensão atual entre a China e Taiwan se dá porque o Democratic Progressiv Party, que está no poder em Taiwan, é independentista e não reconhece o consenso de 1992, que, entre outros termos, reconhecia que, em algum momento, haveria uma resolução pacífica que unificaria novamente os dois países. A chance de um conflito bélico, porém, é praticamente descartada pelo especialista.

"A relação oscila muito mais por conta das alternâncias políticas em Taiwan do que a alternância política na China. Eu não vejo que o terceiro mandato do Xi Jinping vá alterar demais a instância de Pequim em relação a Taiwan. Não vai mudar. A China comunista mantém sua estabilidade na sua postura de que, em algum momento, Taiwan precisa necessariamente voltar a fazer parte da China. Pequim vê Taiwan como uma província rebelde, não um país independente", explica.

Para o professor, a proposta de longo prazo de Pequim é incorporar Taiwan por vias não militares, mas por meio da construção de uma "interdependência econômica assimétrica", isto é, fazendo com que Taiwan dependa mais da China do que vice-versa.

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"Como fazer isso? Através de um acordo comercial que já foi celebrado, de acordos setoriais, facilitando a legislação em termos de tributação de empresas no setor da aviação, finanças, transportes, logísticas, serviços, além de criar uma padronização de classes de trabalho. Cria-se essa conexão entre as pessoas. Os dois lados têm uma figura de herói nacional em comum, que é o Sun Yat-sen, fundador da República da China, o responsável por acabar com a China imperial. Então, você tem discursos em comum. Quando Kuomitang estava no poder, entre 2008 e 2016 e antes de 2000, havia um discurso muito mais afável, de moderação, de conciliação. Esse discurso oscila conforme a dinâmica política em Taiwan. Você tem o núcleo do conflito, que é a tentativa de soberania de Taiwan e, ao redor desse conflito, que é sensível, a China vem comendo pelas beiradas para construir relações mais amistosas e evitar uma invasão direta."

Ao contrário do que declarou o líder taiwanês, Bruno Hendler afirma que a invasão russa à Ucrânia, na verdade, afasta a hipótese de uma ofensiva chinesa à ilha. Segundo o professor, as sanções econômicas e de imagem sofridas pela Rússia desencorajaria a China a ter uma estratégia semelhante à de Putin.

"Essa articulação não só econômica, mas de soft power que a mídia está fazendo, ao construir uma 'vilanização' de Putin, dá sinais para a China de que é um mau negócio usar a força. A China tem um leque muito maior de como aplicar essas ferramentas de política externa para incorporar Taiwan sem precisar recorrer às Forças Armadas."

Lucas Ribeiro, mestrando em Ciência Política e especialista em China, também descarta um conflito bélico. Primeiro, porque, para Pequim, é mais importante se consolidar como potência econômica a fim de liderar o mundo multipolar. Uma ofensiva militar, explica Ribeiro, "colocaria todo esse acúmulo de desenvolvimento a perder".

"O que a China vai querer, nesse processo de reunificação com Taiwan, vai se dar com Pequim se consolidando como uma grande potência econômica e seduzindo Taiwan do ponto de vista econômico. Mostrando que é viável uma grande aliança, um grande pacto. E a China já mostrou que, ideologicamente, é bem maleável e pode se adaptar a vários sistemas, como aconteceu com Hong Kong e Macau, por exemplo. Acredito que a China criará condições pacíficas, ainda que utilize de uma retórica militar. Vai depender do governo taiwanês de não cair em uma “armadilha”, que eu acho que o governo da Ucrânia acabou caindo um pouco, que é foi a de se deixar ser conduzido pelas vontades do Ocidente. Mas não é o que temos visto até agora e acho pouco provável que isso aconteça", explica.

Ribeiro ainda se atenta ao fato de que a cisão entre os países é recente. Então, está muito viva na memória de filhos e netos que vivenciaram a guerra civil.

"A gente está falando do mesmo povo, de uma mesma etnia majoritária — que são os Hans. O que a China não quer é causar um clima de Guerra Fria, vamos dizer assim, de muito arrefecimento. Então, há um certo cuidado na diplomacia chinesa com Taiwan, mas, ao mesmo tempo, ela não abre mão de forma nenhuma de advogar essa autoridade sobre a ilha. O Congresso do partido basicamente vai referendar essa posição, mas vejo baixa hipótese de invasão", finaliza.

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