Soldados russos em frente a tanques de guerra
Reprodução - 04.03.2022
Soldados russos em frente a tanques de guerra

Não houve quase nada de novo no front na terça-feira, o 27° dia da guerra. Na sitiada Mariupol, no Sudeste, onde não há mais jornalistas em atividade, o Conselho Municipal informou que “duas enormes bombas” explodiram, contribuindo para que a cidade se torne “uma terra morta". Não há informações sobre vítimas. Nos arredores de Kryvyi Rih, foguetes múltiplos atingiram prédios residenciais, segundo autoridades. Em Jitomir, no Norte, bombardeios russos destruíram três casas e danificaram dez. Em seu conjunto, no entanto, o Exército russo praticamente parou de avançar.

Essa lentidão, segundo estudiosos que publicam análises da guerra, indica uma mudança estrutural em andamento no conflito . As forças russas, frente a uma resistência ucraniana inesperada e a problemas de logística e de estratégia, chegaram a um ponto de extenuação das capacidades mobilizadas, sem conseguir alcançar seus objetivos políticos. No momento, freiam seus movimentos para reagrupar suas forças e repensar o que pretendem e podem obter na guerra.

“A Ucrânia lutou contra as forças da Rússia até deixá-las estagnadas em muitas frentes. Isso não significa que estão derrotados ou não podem lutar. As batalhas locais continuarão. Mas a campanha inicial acabou”, disse Jennifer Cafarella, pesquisadora do Instituto de Estudos da Guerra (ISW), de Washington, ressaltando que o conflito “está longe de terminar”. “Isso não significa o fim da matança. A estagnação pode ser ainda mais violenta do que as fases anteriores.”

No Norte, as forças russas não conseguiram cercar a capital Kiev, parando longe da conquista de seu principal objetivo. Nos últimos dias, a Ucrânia tem feito contra-ataques em seus subúrbios, para isolar unidades russas. No Sul, após as tropas russas ficarem presas em batalhas a Leste, o desembarque de tropas perto de Odessa, pré-anunciado há semanas, saiu dos planos. Resta a frente da região de Donbass, próxima à fronteira com a própria Rússia e onde separatistas pró-Moscou atuam desde 2015. Ali, a tropa russa obtém avanços graduais, que podem se expandir — como se, por exemplo, Mariupol for enfim conquistada.

"A área a ser observada na próxima semana é a tentativa russa de cercar as forças da Ucrânia no Leste. Há um movimento de pinça progredindo lentamente do Norte e do Sul. É aqui que as forças da Ucrânia podem estar em uma posição precária”, disse Michael Kofman, analista militar do CNA, outro centro de pesquisa de Washington. “A guerra se dividiu no que pode ser chamado de três frentes imperfeitas, e os avanços russos estagnaram em duas delas.”

Situação militar na Ucrânia, dia 27

ara alguns estudiosos, a Rússia alcançou o que a teoria militar chama de ponto culminante de ataque. O conceito, formulado pelo general e estrategista prussiano Carl von Clausewitz (1780-1831), refere-se ao momento em que o lado agressor alcança o limite de sua capacidade de ataque. A força deve então “considerar a reversão a uma postura defensiva ou à tentativa de uma pausa operacional”, segundo define a doutrina militar americana vigente sobre essas situações.

“Mas esse não é o fim da guerra, apenas uma pausa”, disse o general aposentado australiano Mick Ryan, hoje ligado ao Instituto da Guerra Moderna da Academia de West Point. Essa interrupção, segundo ele, pode servir a vários propósitos, desde reabastecer a tropa e corrigir erros até repensar o objetivo. Segundo Ryan, até uma das frentes russas pode ser fechada. “Isso lhes permitiria consertar seu sistema de logística operacional e tático em colapso”, acrescentou.

Essa interrupção da ofensiva por exaustão das forças também pode significar a oportunidade de contra-ataques para a Ucrânia. Nesta terça-feira, o Estado-Maior Geral das Forças Armadas da Ucrânia informou que “a bandeira ucraniana foi hasteada sobre a cidade de Makariv” , um subúrbio a 60 quilômetros a Oeste de Kiev. Há relatos não confirmados de que a Rússia também sofreu perdas em outros subúrbios, como Hostomel, Bucha e Irpin.

Uma discussão que permanece em aberto entre os estudiosos de assuntos militares é se é possível dizer que a Ucrânia saiu vitoriosa da primeira fase da guerra. Os indícios são de que, em sua autoproclamada “operação militar especial”, a Rússia pretendia conduzir um ataque limitado para substituir o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, por um fantoche. O plano rapidamente se viu frustrado.

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Quase quatro semanas depois, a Rússia controla poucas cidades ucranianas e perdeu uma enorme quantidade de material e de soldados. Nesta terça-feira, autoridades do Pentágono disseram que o “poder de combate” russo caiu para menos de 90% de sua força original. Na semana passada, a Inteligência americana ofereceu uma estimativa, considerada conservadora, de que 7 mil soldados russos morreram no conflito, uma quantidade superior ao número de americanos mortos no Iraque e no Afeganistão (4.431 e 2.401, respectivamente).

O historiador militar Eliot Cohen publicou um artigo na The Atlantic nesta terça-feira no qual afirma que “as evidências de que a Ucrânia está ganhando esta guerra são abundantes”, e incluem "a ausência de progressos russos na linha de frente”, o "fracasso de quase todos os ataques aéreos da Rússia” e “a paralisia de semanas” da coluna de veículos militares a Noroeste de Kiev.

Por outro lado, Franz-Stefan Gady, analista militar do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS), de Londres, diz que o fato de as perdas do lado ucraniano serem desconhecidas — ao contrário do lado russo, há menos informes de Inteligência a esse respeito — dificulta saber qual lado teve maior prejuízo.

“Pode ser verdade que a Ucrânia ‘ganhou’ a fase inicial dessa guerra simplesmente por não perder. Mas gostaria de ter uma compreensão mais clara das perdas ucranianas, da capacidade de suprimentos de armas ocidentais para substituir equipamentos ucranianos perdidos e do impacto da campanha russa prolongada de desgaste, antes de tirar conclusões”, disse Gady.

Para Jennifer Cafarella, a Ucrânia obteve “uma grande vitória” nessa primeira fase. Para ela, após o período de interrupção, “as forças russas provavelmente se reagruparão e tentarão lançar uma nova campanha”. Seus objetivos estratégicos, no entanto, serão mais modestos do que os da invasão inicial. Em vez de espalhar-se em muitas frentes, se concentrarão só em alguns alvos. “Agora a Rússia sabe que não pode chegar à sua vitória estratégica em um salto, como Putin esperava”, ela afirmou.

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