Desmond Tutu morreu no último domingo (26) em uma casa de repouso
REPRODUÇÃO/ TUTU FOUDATION
Desmond Tutu morreu no último domingo (26) em uma casa de repouso

Sob um céu cinzento e uma garoa fina, familiares, amigos e muitos religiosos se despediram pela última vez de Desmond Tutu, que morreu em uma casa de repouso no último domingo (26), aos 90 anos. A cerimônia deste sábado (1º), na catedral anglicana da Cidade do Cabo, encerra uma semana de adeus ao arcebispo, que pregou incansavelmente contra o regime racista do apartheid.

"Papai diria que o amor que todos demonstraram (esta semana) é reconfortante", disse sua filha Mpho aos participantes.

"Agradecemos por vocês o terem amado tanto", completou.

Após o hino nacional, o presidente Cyril Ramaphosa fez o elogio fúnebre e entregou à viúva de Tutu, "Mama Leah", como os sul-africanos a chamam afetuosamente, uma bandeira nacional.

"Madiba (como Nelson Mandela é conhecido) foi o pai de nossa democracia, e o arcebispo Tutu, seu pai espiritual", disse o chefe de Estado.

O caixão em que o corpo de Tutu permaneceu na Catedral de São Jorge durante dois dias, para que milhares de pessoas pudessem homenagear sua memória, foi feito de pinho claro. Ele havia pedido "o mais barato possível", em um país onde os funerais costumam ser uma demonstração de opulência. Sem alças de ouro, tem simples pedaços de corda para carregá-lo, lembrando o cinto dos frades franciscanos, com um buquê de cravos brancos em cima.

Um amigo próximo, o ex-bispo Michael Nuttall, foi escolhido pelo falecido para fazer o sermão. Quando Tutu era arcebispo, Nuttall era seu "número dois".

"Nosso relacionamento, sem dúvida, tocou uma veia sensível no coração e na mente de muitos: um dinâmico líder negro e seu adjunto branco nos últimos anos de apartheid não era pouca coisa. Fomos um exemplo do que poderia ser nosso país dividido", lembrou no altar.

Nuttall também lembrou que Nelson Mandela descreveu Tutu como "a voz dos que não têm voz".

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"Uma voz às vezes estridente, muitas vezes terna, nunca assustada e raramente desprovida de humor".

Estiveram presentes amigos íntimos, como a ex-presidente irlandesa Mary Robinson e a viúva de Nelson Mandela, Graça Machel, Letsie III, o rei do vizinho Lesoto, além de Ngodup Dorjee, um representante do Dalai Lama, que não não pôde comparecer devido à sua idade avançada e às restrições da Covid-19.

"A amizade deles era única. Sempre que se encontravam, riam. A única explicação é uma conexão cármica no passado", disse Dorjee à AFP.

A semana foi marcada por homenagens ao arcebispo em todo o país e no exterior. Tutu foi nomeado arcebispo em 1986, tornando-se o primeiro negro no posto na Cidade do Cabo. Sua posição como líder religioso impediu que fosse preso, ao contrário de boa parte dos líderes da luta contra o apartheid. Na cerimônia, a viúva de Mandela falou da "coragem indescritível" necessária para enfrentar o regime.

Tutu nunca deixou de criticar o governo sul-africano, incluindo o Congresso Nacional Africano (ANC, na sigla em inglês), o principal movimento que lutou contra o regime racista do apartheid e que está no poder desde 1994.

Durante as manifestações, "era um escudo para nós", lembrou Panyaza Lesufi, hoje um alto funcionário do ANC.

Simples, o arcebispo frequentemente descia do púlpito para abraçar e interagir com os paroquianos, por vezes dançando entre eles. 

"Eles [do apartheid] o queriam morto, mas por algum motivo que não podemos explicar, nunca aconteceu. Ele entrava na igreja, rezava a missa e ia embora", disse à AFP Mathabo Dlwathi, de 47 anos. 

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