Tamanho do texto

China alertou que os protestos, que adentram sua décima semana, têm 'sinais de terrorismo' e afirma que irá combatê-los com 'punho de ferro'

protesto arrow-options
Reprodução/Twitter/StephenMcDonell
Manifestantes protestam no aeroporto, alertando os turistas sobre a situação na ilha

Todos os voos que decolariam de Hong Kong , o terceiro com maior fluxo do mundo, foram cancelados nesta segunda-feira (12) após cerca de 5 mil manifestantes pró-democracia e antigoverno ocuparem o aeroporto da cidade em retaliação a mais um final de semana de confrontos com a polícia. Em resposta à escalada de hostilidades, a China alertou que os protestos têm "sinais de terrorismo", reiterando que as forças de segurança locais devem combatê-los com "punho de ferro".

Leia também: Polícia dispara gás lacrimogêneo contra manifestantes em Hong Kong

Os manifestantes tomaram o saguão, impedindo que passageiros fizessem check-in ou despachassem suas malas. Aviões que pousariam em Hong Kong mas ainda não haviam decolado de seus destinos de origem também não puderam iniciar viagem. Segundo a empresa responsável pelas atividades do aeroporto, os voos começarão a ser remarcados a partir da manhã de terça-feira (13).

Apesar de, em outras ocasiões, protestos terem alterado as atividades do aeroporto , o cancelamento de mais de 100 voos é sem precedentes desde que as manifestações começaram, há dez semanas. Continuação de uma ocupação pacífica que teve início há três dias, o protesto foi motivado por uma escalada de violência no sábado (10) e no domingo (11), quando as forças de segurança utilizaram balas de borracha e gás de efeito lacrimogêneo para dispersar manifestantes dentro de estações de metrô, ferindo uma mulher no olho.

Policiais e opositores entraram em confronto em pelo menos quatro pontos da cidade e manifestantes voltaram a adotar uma estratégia de flash-mob, se retirando quando pressionados apenas para ressurgirem em outro lugar, sem descanso, defendendo-se com tijolos e coqueteis molotov.

Leia também: Um país, dois sistemas: entenda as motivações para os protestos em Hong Kong

'Sinais de terrorismo'

Em resposta aos episódios de violência do final de semana, o porta-voz do Escritório de Assuntos sobre Macau e Hong Kong do governo chinês, Yang Guang, leu um comunicado nesta segunda, afirmando que a cidade havia chegado a um "momento crítico" e prometendo reprimir a violência com "punho de ferro". 

"Nos últimos dias, os manifestantes radicais de Hong Kong atacaram repetidamente a polícia com ferramentas muito perigosas, constituindo graves crimes violentos que começaram a mostrar sinais de terrorismo", disse Yang. "Este tipo de atividade violenta criminal deve ser combatida de acordo com a lei, sem hesitação ou piedade."

Apesar de fazer parte da China, Hong Kong tem autonomia política, administrativa e judicial, um modelo conhecido como " um país, dois sistemas ", garantido pela Lei Básica , semi-constituição elaborada quando o território foi devolvido pelos britânicos em 1997.

Se, no início dos protestos, Pequim vinha se mantendo em relativo silêncio sobre a situação, a retórica tem mudado desde que manifestantes cercaram o prédio da representação chinesa em Hong Kong, pichando frases anti-China, no dia 21 de junho. Na ocasião, o porta-voz do Ministério da Defesa advertiu que o governo central não tolerariainiciativas de manifestantes que ameacem a autoridade de Pequim e sugeriu que poderia mobilizar tropas do Exército Popular de Libertação para conter os protestos no território. 

Negócios sofrem

protestos arrow-options
Reprodução/ irish time
Os protestos em Hong Kong ganharam o apoio de funcionários públicos e famílias

Na sexta-feira (9), Pequim proibiu que a Cathay Pacific Airways , principal companhia aérea de Hong Kong, não escalasse funcionários que tivessem participado de protestos antigoverno para quaisquer voos que atravessem o território chinês. Durante o final de semana, a companhia demitiu dois funcionários que teriam feito parte do movimento de oposição por "má conduta".

Um comandante da empresa que está entre as 44 pessoas presas há duas semanas sob acusações de rebelião — ficando sujeitas, segundo a lei de Hong Kong, a até 10 anos de prisão — também foi suspenso por tempo indeterminado. Ainda assim, estatais chineses orientaram seus funcionários para não utilizá-la em suas viagens, segundo a Bloomberg. Nesta segunda-feira, as ações da companhia aérea caíram quase 4,5%.

As perdas Cathay não são exclusivas: dezenas de empresas do território vêm se queixando de uma queda em seus resultados, e autoridades locais dizem temer uma recessão. Marcas de ramos que vão da computação à produção de bubble tea, popular bebida a base de chá com flocos de tapioca, estão sob pressão para não atrair a ira dos manifestantes e, ao mesmo tempo, não irritar Pequim e perder  seus consumidores chineses.

Leia também: 'Não brinquem com fogo', diz China a ativistas de Hong Kong

Neste final de semana, alguns dos maiores empresários imobiliários da cidade assinaram um manifesto público publicado nos principais jornais locais em oposição aos protestos e declarando apoio à chefe do Executivo da cidade, Carrie Lam.

Eleita indiretamente por uma comissão de 1.200 pessoas com maioria favorável aos interesses da China , Lam está no centro da crise política que começou com protestos em oposição à lei de extradição que seu governo tentava aprovar.

A medida permitiria extradições para a China continental, sendo mal vista por manifestantes que temiam sua utilização para fins políticos. Desde então, mesmo após Lam declarar que a legislação estava "morta", o movimento registrou uma escalada de violência ganhou as demandas pró-democracia e antigoverno que desafiam a soberania chinesa sobre o território de Hong Kong