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Carrie Lam diz que participantes dos protestos de domingo poderão responder a acusações que os deixariam sujeitos a 10 anos de detenção

Manifestantes nas ruas de Hong Kong arrow-options
Reprodução/Twitter
Manifestantes vão às ruas protestar contra a lei da extradição em Hong Kong

A chefe do Executivo de Hong Kong, Carrie Lam , disse nesta segunda-feira que os presos durante a última onda de protestos poderão responder legalmente por participação em "motins". A afirmação de Lam vai na contramão de uma das demandas dos manifestantes, que pedem justamente para que os atos não recebam tal designação, que os deixa sujeitos a penas de até dez anos de prisão.

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O comentário foi realizado durante uma visita ao hospital onde estão três policiais feridos nas manifestações de domingo em Hong Kong , em que dezenas de milhares de pessoas tomaram as ruas e acabaram por invadir um shopping popular entre os chineses. Opositores e policiais entraram em confronto, deixando 28 feridos, incluindo mais de dez policiais. Segundo o chefe de polícia Stephen Lo, mais de 40 pessoas foram presas.

"Nós agradecemos os policiais por manterem a ordem social com lealdade e profissionalismo, mas eles sofreram ataques daqueles manifestantes", disse Lam. "Eles podem ser chamados de desordeiros".

Desde o dia 9 de junho, os cidadãos de Hong Kong têm ido às ruas da cidade em protesto contra uma polêmica lei de extradição  que permitiria o envio de pessoas para serem julgadas em países com os quais não haja um acordo prévio de extradição, como a China e Taiwan. Segundo os organizadores, dois dos cinco grande protestos que aconteceram em pouco mais de um mês reuniram mais de um milhão de pessoas. Os atos atingiram seu ápice há cerca de duas semanas, quando os manifestantes invadiram o prédio do Parlamento da cidade.

Esta é a crise mais grave enfrentada por Hong Kong desde que seu território foi devolvido à China pelos britânicos, em 1997. Apesar de responder a Pequim, a Lei Básica do território garante autonomia política, administrativa e judicial — modelo conhecido como "um país, dois sistemas" — liberdades que os manifestantes consideram ser ameaçadas pelo projeto de lei.

Carrie Lam  anunciou a suspensão da medida há um mês, após violentos protestos no dia 12 de junho deixarem 72 feridos, e garantiu que a lei está"morta" e não voltará a ser discutida durante seu mandato. Os manifestantes, contudo, temem que a legislação seja ressuscitada e pedem seu cancelamento por completo, além de uma série de novas demandas, acrescentadas conforme o movimento foi ganhando força.

Além de pedirem o fim da lei de extradição e que os protestos não sejam designados como "motins", os manifestantes defendem uma investigação independente sobre os abusos policiais na dispersão das manifestações, a libertação dos detidos durante os atos, uma reforma política que garanta o sufrágio universal e a demissão de Lam.

No domingo, o jornal britânico Financial Times disse que a chefe do Executivo teria oferecido sua renúncia em diversas ocasiões nas últimas semanas, mas o governo chinês se recusou a aceitá-la. Duas fontes próximas a Pequim ouvidas pelo jornal afirmaram que Lam deverá continuar no cargo "para limpar a bagunça que criou".

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Oficialmente, o governo chinês continua a apoiar Lam, mas nos bastidores, Pequim dá sinais de insatisfação com a crise em seu território. O sucesso do autogoverno é importante para a imagem internacional da China e seu fracasso seria um golpe para Xi Jinping, cuja política linha-dura já é vista por muitos cidadãos de  Hong Kong  como uma tentativa de limitar as autonomias do território.