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Reunião foi a primeira desde a divulgação do relatório sobre a interferência da Rússia nas eleições de 2016 nos Estados Unidos

Trump e Putin se encarando
CARLOS BARRIA/TRUMP
Donald Trump e Vladimir Putin conversaram em meio a cúpula do G-20 no Japão

Por mais de dois anos, aliados e opositores vêm pedindo para que Donald Trumpdiga para Vladimir Putin não interferir nas eleições americanas. Em um encontro bilateral durante a reunião do G-20, o primeiro em um ano, o líder americano, de maneira bastante característica, finalmente abordou o assunto.

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O tópico só veio à tona quando um jornalista perguntou se Trump pretendia dizer para seu par russo não interferir nas votações do ano que vem. Com um sorriso de canto de rosto, tom jocoso e balançando o dedo indicador na direção de Putin, Trump disse: "Não se meta nas eleições, presidente".

Em seguida, o líder americano se virou para um funcionário russo que acompanhava o encontro e repetiu: "Não se meta nas eleições".

Esta foi a primeira vez que Trump e Putin se encontraram após a conclusão do relatório sobre uma possível interferência russa no pleito de 2016, que levou Trump à Casa Branca. A investigação, conduzida pelo procurador especial Robert Muller, concluiu que Rússia realizou uma operação "radical e sistemática" favorável à eleição do republicano.

Por mais que o documento estabeleça que não houve nenhuma conspiração criminal entre a campanha de Trump e a Rússia, há evidências de diversos contatos entre os dois lados. Quando o relatório foi apresentado, o presidente americano comemorou o resultado como uma vitória, dizendo que "não houve conluio". Recentemente, contudo, ele declarou não ver problemas em aceitar informações estrangeiras que incriminem adversários.
Putin nega veementemente qualquer intermédio nas eleições americanas, dizendo que houve uma "interferência mítica":

"A Rússia foi e, por mais estranho que isso pareça, continua a ser acusada de uma interferência mítica nas eleições americanas", disse Putin ao Financial Times , em entrevista publicada na quinta-feira. "Na verdade, o que aconteceu foi que Trump observou a atitude de seus oponentes, viu mudanças na sociedade americana e tirou vantagem disso".

O líder russo é regularmente acusado de apoiar, financeiramente e em redes sociais, movimentos populistas pelo mundo, incluindo o referendo que decidiu pela saída do Reino Unido da União Europeia e as eleições para o Parlamento Europeu.

Tom amigável

Durante a reunião, os dois presidentes mantiveram um tom amigável, sorrindo, conversando e fazendo piada sobre os jornalistas que entraram na sala por um breve período.

"É uma grande honra estar com o presidente Putin", disse Trump. "Nós temos uma relação muito, muito boa e esperamos ter outros bons momentos juntos. Muitas coisas positivas irão se originar deste relacionamento".

Os comentários de Putin foram mais contidos, afirmando que os dois países irão discutir questões como o comércio e o desarmamento: "Tudo isso será construído com base em um relacionamento muito bom que nós temos", disse. "Eu acho que os resultados dessas reuniões serão excelentes".

Um comunicado da Casa Branca disse, sem maiores detalhes, que os líderes conversaram sobre o Irã, a Síria, a Venezuela e a Ucrânia. A nota da Casa Branca não mencionou os dois cidadãos americanos presos em Moscou sob acusações consideradas polêmicas ou a investigação internacional que indicou a participação de três cidadãos russos no abate do voo MH17 da Malaysian Airlines, em 2014.

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Durante a reunião, Trump também tentou negociar um acordo entre Rússia, Estados Unidos e China para limitar a produção de armas atômicas. No ano passado, os EUA saíram do Tratado das Forças Nucleares de Alcance Intermediário, uma peça-chave nas redução dos arsenais atômicos americanos e russos na fase final da Guerra Fria. Putin não rejeitou um acordo, mas sinalizou que a China tem apenas uma fração das armas nucleares de ambos os países.

Mesmo em Osaka, a cabeça de Trump estava há milhares de quilômetros de distância, na Flórida, onde acontecia a segunda noite de debates entre os pré-candidatos do Partido Democrata à presidência dos Estados Unidos. Ele comentou sobre o assunto durante uma reunião com a chanceler alemã Angela Merkel, que manteve uma expressão neutra.
"Eles definitivamente têm muitos candidatos, e é isso", disse Trump, segundo o site The Hill , a Merkel. "Eu estou ansioso para me encontrar com você ao invés de assistir a isso".

Putin: 'liberalismo é obsoleto'

Em uma entrevista concedida ao jornal britânico Financial Times nas vésperas do G-20, Putin elogiou a política imigratória linha-dura de Trump , chamando o liberalismo de "obsoleto":

"Essa ideia liberal pressupõe que nada precisa ser feito. Que os migrantes podem matar, roubar e estuprar sem impunidade por que seus direitos como imigrantes devem ser garantidos", disse Putin. "Todo crime deve ser punido. Esse liberalismo se tornou obsoleto e entrou em conflito com os interesses de uma grande maioria da população".

Sua crítica ao liberalismo, ideologia dominante no ocidente desde o fim da Segunda Guerra Mundial o alinha a figuras da extrema-direita mundial, como o presidente húngaro Viktor Orban, o vice-premier italiano Matteo Salvini e o próprio líder americano.

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"Eles (os liberais) não podem simplesmente ditar nada para ninguém, como eles têm feito nas últimas décadas", disse o presidente, que também chamou a decisão da chanceler alemã Angela Merkel de abrir as portas da Alemanha para mais de um milhão de refugiados sírios de "erro cardinal".