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Em longo texto, ex-presidente do Peru, que se matou antes de ser preso, insistiu que acusações de corrupção são fruto de perseguição política

Alan García, ex-presidente do Peru
Alexandre Moreira/Brazil Photo Press/Agencia O Globo
Alan García deixou carta de despedida onde nega subornos e diz que cumpriu sua missão

Antes de se matar  na manhã da última quarta-feira (17), o  ex-presidente do Peru Alan García (1985-1990 e 2006-2011) escreveu uma carta para sua família na qual afirma que “não houve nem haverá contas, nem subornos, nem riqueza. A História tem mais valor do que qualquer riqueza familiar”. O texto foi lido nesta sexta-feira (19) por uma de suas filhas, Luciana García Nores, em Lima.

As suspeitas sobre o envolvimento de García no esquema de subornos implementado pela Odebrecht no Peru ainda estão sendo investigadas pela Justiça do país. Segundo informações entregues ao Ministério Público peruano dias antes da morte do ex-presidente, um amigo e ex-secretário do ex-chefe de Estado recebeu US$ 4 milhões da empreiteira brasileira, que estão depositados numa conta em Andorra, na Espanha. Alan García trancou-se num quarto e deu um tiro na cabeça quando um promotor e seis policiais chegaram à sua casa com uma ordem de prisão preliminar.

“Cumprido meu dever na política e com as obras em favor do povo realizadas, alcançadas as metas que outros países ou governos não conseguiram, não tenho por que aceitar humilhações. Vi presidentes desfilarem algemados, mostrando sua miserável existência, mas Alan García não tem por que sofrer injustiças e circos. Por isso, deixo a meus filhos a dignidade de minhas decisões. A meus companheiros um sinal de orgulho e meu cadáver, como mostra de meu desprezo em relação a meus adversários. Porque já cumpri a missão que me impus”, escreveu o ex-presidente.

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García enfatizou, ainda, que “outros se vendem, não eu”. Insistindo na acusação de perseguição política, agora sustentada por seus familiares e pelos dirigentes e militantes da Aliança Popular Revolucionária Americana (Apra), partido que liderou a partir do começo da década de 1980, o ex-chefe de Estado assegura na carta que “nossos adversários optaram pela estratégia de criminalizar-me durante mais de 30 anos”. E continua: “Mas jamais encontraram nada e eu os derrotei novamente. Nunca encontrarão mais do que suas especulações e frustrações”.

A morte de García causou comoção  no Peru. A expectativa da Justiça agora está centrada no depoimento de Jorge Barata, ex-representante da Odebrecht no Peru, previsto para a próxima semana. Barata deverá confirmar, ou não, o pagamento de subornos ao ex-presidente e seus colaboradores relacionados à construção do metrô de Lima, maior obra de infraestrutura realizada no segundo mandato de García pela empreiteira brasileira.

Segundo informações em mãos dos promotores peruanos, os subornos pagos ao ex-presidente e alguns de seus colaboradores atingiriam cerca de US$ 24 milhões. Com García no poder, a Odebrecht obteve concessões no valor de cerca de US$ 1 bilhão no Peru.

A empresa também financiou campanhas eleitorais, entre elas a da ex-candidata Keiko Fujimori, atualmente sob regime de prisão preventiva. O ex-presidente Pedro Pablo Kuczynski (PPK) também enfrenta acusações de recebimento de subornos da parte da empresa que levaram a sua destituição, em março do ano passado. Com prisão provisória de dez dias decretada semana passada, Kuczynski foi operado do coração esta semana e continua internado, com sua situação judicial ainda incerta. Outros dois ex-presidentes,

Além de Alan García , Alejandro Toledo (2001-2006) e Ollanta Humala (2011-2016), também estão envolvidos no escândalo de suborno da Odebrecht. Toledo fugiu para os EUA, onde o Departamento de Justiça analisa o pedido de extradição feito pelo Peru. Humala foi preso em 2017 e posteriormente solto, mas continua sob investigação.