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Responsável por 'retomada da consciência' francesa, movimento começou questionando alta no preço do combustível e hoje hasteia bandeiras difusas

Manifestantes dos coletes amarelos em Paris
Reprodução/Twitter
Protestos dos chamados coletes amarelos reúnem milhares de pessoas em Paris e no resto da França

Nesta semana, completaram-se cinco meses de manifestações dos chamados “coletes amarelos” na França. Apesar de darem sinais de enfraquecimento, os protestos que ocorrem por toda o país europeus ainda incomodam os governantes e alteraram a maneira como o país, que é famoso por seu histórico de movimentos sociais, lida com seus manifestantes.

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O movimento dos coletes amarelos nasceu oficialmente no dia 17 de novembro de 2018, quando, segundo o Ministério do Interior da França, 288 mil pessoas foram às ruas de Paris e de diversas outras cidades francesas para protestar contra o aumento da taxa sobre o combustível, que havia sido anunciada pelo governo nacional. Hoje, esse movimento já é o mais longo da França desde a Segunda Guerra Mundial.

Desde novembro, todo sábado um novo protesto acontece tanto em Paris, onde eles ganham mais notoriedade, quanto em cidades do interior da França . No vocabulário dos manifestantes e da imprensa francesa, as manifestações são chamadas de “atos”, como no teatro, e vêm sempre acompanhadas de um número romano, indicando há quantas semanas eles já ocorrem. No próximo sábado, por exemplo, deve acontecer o “Ato XXIII”.

O nome do movimento vem de seu objetivo inicial. Os coletes amarelos são usados como equipamento de segurança pelos motoristas em caso de acidente ou pane no veículo, e são peça obrigatória em todo carro francês. O coletes amarelos foram apropriados pelos condutores que questionavam os novos preços e usados como símbolo do movimento.

O aumento da taxa indignou pessoas que já vinham acumulando insatisfações. A medida era justificada pelo governo como uma transição para uma alternativa menos poluente. Seria uma forma de incentivar as pessoas a trocarem os carros tradicionais por elétricos ou a deixarem os veículos em casa, passando a usar mais o transporte público. A população, no entanto, questiona a falta de políticas públicas que incentivem a mudança, uma vez os carros elétricos custam caro e quem mora em zonas mais afastadas dos grandes centros têm acesso limitado – ou não têm acesso nenhum – a transporte público.

Priscillia Ludovsky participa de protesto em Paris
Reprodução/redes sociais
Priscillia Ludovsky participa de protesto em Paris

Para Priscillia Ludovsky, uma das mais célebres manifestantes dos coletes amarelos, é preciso que o governo pense políticas mais completas e transparentes. “As taxas não vão realmente financiar a transição ecológica, uma vez que não há medidas para poder promover um ambiente mais são, uma vez que nós não proibimos os pesticidas, não desenvolvemos projetos de biocombustíveis”, ressalva.

Revoltada com as ações do governo, Priscillia Ludovsky criou, em maio de 2018, uma petição online contra o aumento dos combustíveis e questionando uma série de informações sobre a transição ecológica. Ela conta que, até setembro, a petição não tinha sido tão divulgada, mas após a volta às aulas, ela mesma começou a compartilhar em inúmeros grupos em redes sociais e a petição então ganhou enormes proporções.

Priscillia começou a ser procurada pelas mídias locais e ganhou grande projeção quando foi entrevistada pelo jornal Le Parisien . Ela não imaginava que a repercussão seria tão grande, mas começou também a ser procurada por cidadãos que também estavam revoltados com a situação. “Eu fui inundada de e-mails de pessoas que tinham reivindicações e diziam 'chega, é suficiente. É hora de dizer basta a tudo. Tudo o que não convém'", conta.

Com a notoriedade, ela foi procurada também por outro expoente dos coletes amarelos, Eric Drouet, que pediu ajuda para divulgar um protesto que ele havia marcado para o dia 17 de novembro.

Quem são os coletes amarelos?

Os coletes amarelos são uma grande mistura de pessoas com diversas linhas de pensamento. Da extrema direita à extrema esquerda, passando por liberais e ambientalistas, todos estão ou já estiveram lado a lado nas ruas.

Em um país onde protestos fazem parte da rotina diária dos cidadãos, o movimento dos coletes amarelos se destaca por não estar ligado a nenhuma das lideranças tradicionais. Os manifestantes reafirmam que não há lideranças ou inclinações partidárias. Priscillia, por exemplo, recusa o rótulo de porta-voz. Ela afirma que apenas ganhou notoriedade por conta das inúmeras entrevistas que concedeu, mas continua sendo uma manifestante como todos os outros.

O professor de geopolítica  Antônio Gelis Filho, da Fundação Getúlio Vargas (FGV) de São Paulo, explica que as lideranças francesas tradicionais não têm mais a mesma força. Segundo ele, os países europeus estão perdendo trabalho industrial, o que faz com que os sindicatos tenham cada vez menos poder de barganha. “Os mecanismos habituais para negociação de insatisfações sociais não dão mais conta”, diz.

Além da composição diversa, os coletes amarelos têm diversas características que os aproximam dos manifestantes das jornadas de junho fr 2013 no Brasil. O caráter apartidário, a falta de lideranças, a participação de setores da sociedade que não estão habituados a se manifestar e a pauta difusa são alguns dos pontos em comum.

Gelis Filho explica que, apesar de os protestos terem muita coisa em comum, há que se ter cautela ao fazer a comparação, por causa dos contextos contrastantes de cada país.

Em que pé está o movimento agora?

Dezenas de pessoas reunidas para manifestação dos coletes amarelos em Paris
Reprodução/redes sociais
Manifestantes protestam semanalmente em Paris e em outras cidades da França

Como no Brasil de 2013, a pauta específica inicial foi apenas o ponto de partida para um movimento que tomou enormes proporções e ainda não pode ser completamente compreendido. Para Priscillia, o motivo inicial foi apenas uma faísca.

O professor da FGV explica que, mesmo no começo, a pauta não era tão delimitada. Atualmente, ele divide os manifestantes em três grandes grupos. O primeiro se pauta em uma reclamação de ordem econômica, questionando aumentos de impostos, diminuição de postos de trabalho, entre outros. O segundo grupo, por sua vez, se apoia em uma insatisfação mais generalizada com o Estado, que vem da ideia de abandono de regiões periféricas e rurais. Neste grupo, há quem peça a renúncia de Macron . Já o terceiro bloco é composto de pessoas que protestam com base em reclamações de ordem comportamental, o que pode significar questionamentos sobre o que se ensina nas escolas ou críticas a relações racistas, entre outros tantos assuntos.

Mesmo depois de conseguir o congelamento do valor da taxa sobre o combustível e a promessa de aumento do salário mínimo, os coletes amarelos continuam indo para a rua. O cenário de insatisfação generalizada levou os protestos a um lugar onde é difícil encontrar coerência. Assim como em junho de 2013, não está claro pelo que lutam os franceses agora.

Para o professor de geopolítica, até agora, a “maior vitória é o fato de que eles realmente assustaram as instituições francesas”.

Priscillia, por sua vez, avalia que nos últimos cinco meses os protestos ganharam mais profundidade. Se antes o movimento se baseava exclusivamente em demonstrações públicas, desde o começo deste ano os manifestantes começaram a se reunir também para debates e formações.

Como o governo francês reage a isso?

Emmanuel Macron discursando
European Union 2018 – European Parliament
Emmanuel Macron propôs o "Grand Débat" em uma tentativa de resposta às manifestações

Priscillia e Antônio concordam que o governo não está sendo capaz de responder às demandas da população. Para ele, “o que nós temos é insatisfação e falta de mecanismos institucionais convencionais para absorver essas insatisfações e respondê-las”. A francesa afirma que “não há respostas políticas sendo dadas”. “A única resposta que nós temos é a resposta da repressão policial e judicial ”, diz Priscillia.

Inúmeros bancos, lojas e outros símbolos capitalistas já foram vandalizados e a resposta da polícia francesa também é violenta. Manifestantes se queixam muito da truculência empregada pelos agentes da força. Segundo Priscillia, 23 pessoas já perderam um olho em função da ação da polícia. Ela também conta que algumas pessoas que se intoxicam pelo gás lacrimogêneo lançado para conter os protestos chegam a sofrer seus efeitos por até três semanas.

fumaça se espalha nas ruas durante manifestação dos coletes amarelos
Reprodução/Twitter
Manifestantes questionam excesso de violência na ação da polícia francesa

Na tentativa de acalmar os anseios dos manifestantes, o presidente Emmanuel Macron lançou o que ele chamou de “Grand Débat” (Grande Debate, em tradução livre), que é um espaço de consulta aos cidadãos. Segundo Macron, a ideia era proporcionar a participação direta dos franceses insatisfeitos com as políticas governamentais.

Priscillia, no entanto, afirma desconfiar da iniciativa, à qual faz duras críticas. Para ela, o Grand Débat é apenas um questionário que não permite a participação efetiva, uma vez que consiste em perguntas fechadas e orientadas. Ela acredita também que o conteúdo está muito direcionado para preservar os interesses políticos de Macron.

Gelis explica que Macron é hoje um líder enfraquecido e tem pouco espaço para promover sua agenda pessoal de desenvolvimento na França e na Europa. Além disso, ele está acostumado a utilizar estratégias de marketing político que funcionam em outros contextos, não para responder grandes manifestações sociais.

Frente à incapacidade dos políticos de sanar os anseios populares, os coletes amarelos resolveram então lançar o “Vrai Débat” (Debate Verdadeiro, em tradução livre), que consiste em um espaço de participação onde é possível escrever quaisquer sugestões livremente, sem questionário.

Qual é o futuro dos coletes amarelos?

Os últimos cinco meses colocaram a França em um lugar de transformação. O movimento é definido unanimemente como uma “tomada de consciência”, uma vez que uma de suas principais características é a participação de pessoas que não costumavam se manifestar politicamente.

O jornal inglês The Guardian já chegou a definir os coletes amarelos como mais do que um movimento social, mas sim um clube. De fato, Priscillia diz já ter sido procurada por pessoas que afirmam terem encontrado um lugar de acolhimento nas manifestações e nas assembleias. Isso, para o professor da FGV, é mais uma expressão da incapacidade das instituições tradicionais de absorverem as demandas.

“Eles se sentiam menos sós quando iam a uma roda de conversa, porque encontravam pessoas e saíam de seu isolamento. Muitas pessoas disseram que estavam muito isolados e, graças a isso, puderam sair e ver que não estavam sós na sua situação”, conta Priscillia.

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Mas, se é difícil compreender o presente, mais complicado ainda é prever o futuro dos coletes amarelos . Antônio Gelis arrisca um palpite do que está por vir: “Eu acho que eles vão desaparecer aos poucos sem sumir completamente. Daqui a um, dois ou três anos na França ou outro país da Europa Ocidental, um outro movimento semelhante aparece. Porque são sintomas localizados de uma doença maior que é a diminuição da importância econômica dos países ocidentais na economia mundial”.

Por enquanto, tudo indica que a França verá mais um sábado de manifestação.