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Brexit deveria ter sido concretizado no dia 29 de março, mas saída foi adiada duas vezes; novela do Brexit já dura três anos e futuro ainda é incerto

Bandeira da União Europeia sendo carregada por manifestante em frente ao Parlamento britânico
Andy Rain/Agência Lusa/EPA/Direitos Reservados
Brexit tem se arrastado há quase três anos e confunde britânicos e estrangeiros

O processo de saída do Reino Unido da União Europeia já teve tantas idas e vindas que vem sendo chamado de “novela do Brexit”. Desde 2016, quando um referendo popular aprovou que os britânicos deixassem o bloco, até agora, três acordos foram rejeitados e a data final para a saída foi alterada duas vezes.

Uma troca de primeiro-ministro, uma eleição e inúmeros protestos também aconteceram nos últimos quase três anos. Brexit virou até verbo e meme . Entenda todo o vai e vem do divórcio do Reino Unido com a União Europeia:

Surpreendendo expectativas, referendo é aprovado por pouca diferença

A ideia de deixar a União Europeia já existia há muito tempo, defendida principalmente pelo partido de extrema-direita nacionalista Ukip. Em 2015, o então primeiro-ministro britânico David Cameron apoiou que se realizasse no ano seguinte uma consulta à população britânica sobre a possibilidade de saída do Reino Unido . Ele, que sempre foi contra a saída, acreditava que a população não apoiaria a ideia de separação.

Os contrários à proposta a acusavam de xenofobia pois estaria sendo movida pela vontade dos conservadores de impedir a entrada de imigrantes e refugiados. Na época, a Europa recebia um enorme contingente de estrangeiros, em geral do Oriente Médio e da África, que sofriam as consequências de crises humanitárias em seus países de origem, neste contexto destaca-se a guerra na Síria, por exemplo.

No dia 23 de junho de 2016, os britânicos foram às urnas na Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte para decidir sobre o futuro da integração regional. Em uma votação apertada, a opção “sair” ganhou o referendo com 51,9% dos votos e o que ficou conhecido como “Brexit”, junção das palavras “Britain” (Grã-Bretanha) e “Exit” (saída) entrou de vez no dia a dia dos britânicos.

A abstenção foi grande e o resultado das urnas foi imediatamente questionado. Opositores saíram às ruas para pedir um novo referendo, alegando que a pouca adesão à primeira votação a tornava ilegítima. O pedido, no entanto, nunca se realizou.

Manifestação contra Brexit em Londres
Facebook/ North East for Europe
Desde 2016, população se manifesta contra a saída do Reino Unido da União Europeia


Primeiro-ministro renuncia por discordar de Brexit

David Cameron, se opôs à saída do Reino Unido e declarou que, caso o referendo fosse aprovado, ele renunciaria ao cargo. O que surpreende é que Cameron é do Partido Conservador, cujos membros em geral apoiavam o Brexit.

No dia 24 de junho, apenas um dia após o “sim” vencer o referendo, David Cameron concretizou a promessa e saiu do cargo de primeiro-ministro. Uma eleição indireta entre os parlamentares escolhei Theresa May para substitui-lo.

No Reino Unido, o primeiro-ministro é escolhido entre os deputados eleitos do partido que obteve maioria nas eleições legislativas. Theresa May e David Cameron são, portanto, da mesma legenda.

Logo após assumir, May convocou novas eleições legislativas com o objetivo de aumentar sua maioria na Câmara dos Comuns. Dessa forma, ela imaginava que teria mais facilidade para aprovar suas propostas, inclusive um acordo para o Brexit.

Propostas de acordo são sucessivamente rejeitadas

Como membro da União Europeia , o Reino Unido goza de diversas benefícios comerciais e sociais em relação aos outros países do bloco, mas com a saída isso se perderia. Para evitar prejuízos nos dois âmbitos, combinou-se que os britânicos teriam um prazo de pouco mais de dois anos para sair definitivamente.

O governo britânico então começou a trabalhar em um acordo que deve ser assinado com os europeus. No dia 15 de janeiro, Theresa May apresentou ao Parlamento sua primeira proposta de acordo. O acordo de May foi rejeitado pelos parlamentares por 432 votos a 202, o que foi considerado uma derrota histórica do governo.

A primeira-ministra apresentou uma segunda versão do acordo no dia 12 de março. Esta também foi rejeitada, desta vez por 391 votos a 242. Parlamentares alegaram que May não havia feito mudanças significativas na proposta e que alterações apontadas por eles haviam sido ignoradas.

Theresa May discursa no Parlamento britânico
Reprodução/ UK Parliament
Theresa May já apresentou três propostas de acordo ao Parlamento britânico e todas foram rejeitadas

Com o fim do prazo para a saída se aproximando – a data limite era 29 de março –, Theresa May solicitou à União Europeia uma extensão no prazo. Para ela, o ideal seria que a nova data fosse dia 30 de junho, mas o Conselho Europeu determinou que os britânicos teriam até 12 de abril para apresentar uma proposta de acordo.

Os europeus queriam algo concreto para analisar até esta data e, caso isso fosse cumprido, poderiam aumentar o prazo de saída até 22 de maio. Se com duas semanas extras o Reino Unido não aprovasse nenhuma proposta de acordo, sairia do bloco sem acordo, ou seja, teria uma separação abrupta, o que se tentava evitar até então.

Com a popularidade em baixa, Theresa May viu sua  terceira sugestão de acordo ser rejeitada no dia 29 de março, desta vez por 344 votos a 286. Quase concomitantemente, o Parlamento  aumentou os próprios poderes e proibiu o Reino Unido de deixar a União Europeia sem acordo . Ainda na mesma semana, os próprios parlamentares apresentaram eles mesmos 16 propostas, e todas as que foram levadas para votação foram rejeitadas.

Incapaz de aprovar um acordo em duas semanas, May foi obrigada a pedir por outro adiamento. Ela inclusive foi à Alemanha e à França para se encontrar com Angela Merkel e Emmanuel Marcon, respectivamente, e pedir apoio.

No último dia 10, o Conselho Europeu aprovou uma nova extensão de prazo para 31 de outubro deste ano. Theresa May, no entanto, tenta evitar que a saída se prolongue para depois de 30 de junho para que os representantes do Reino Unido não tenham que iniciar seus mandatos no Parlamento Europeu.

A impaciência do povo britânico se repete no ambiente externo. O presidente francês, Emmanuel Macron, por exemplo, foi contra o último pedido de extensão de prazo e afirmou que não há garantias de que um acordo será firmado em breve. Angela Merkel, por sua vez, defende que a saída só aconteça com um acordo, com o que concorda Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu.

Com novo fôlego, o futuro do Brexit continua incerto. Theresa May vem sendo criticada tanto por parlamentares de oposição quanto pelos de sua base aliada e gasta todo seu capital político sem sucesso nas negociações da saída. Muitos pedem a saída da primeira-ministra, que disse que renunciará após a aprovação de um acordo . Nas ruas, a população pede o fim da novela, seja com um  novo referendo ou uma saída abrupta, e aguarda insatisfeita as cenas dos próximos capítulos.