
Caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, o El Niño é um fenômeno climático natural que ocorre de forma periódica e provoca alterações nos padrões de temperatura e chuva em diferentes partes do mundo. Em um cenário de mudanças climáticas, esses efeitos podem se agravar e aumentar os riscos para a produção agrícola.
No Brasil, as consequências não são iguais em todo o território. Enquanto algumas áreas podem enfrentar chuvas acima da média, outras estão sujeitas a maiores períodos de estiagem. Para o campo, essas alterações podem dificultar o plantio, comprometer o desenvolvimento das culturas e até mesmo reduzir a produtividade.
O impacto consegue ir além das propriedades rurais. Uma eventual queda na oferta de determinados produtos pode pressionar os preços e chegar ao consumidor. Contudo, a relação entre clima e inflação dos alimentos não depende apenas da intensidade do fenômeno, mas também da cultura afetada, da região e de outros fatores que influenciam a economia.
Realidade regional difere
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) produziu uma Nota Técnica com 163 medidas que podem ser adotadas para reduzir os riscos causados pelas mudanças climáticas. No documento, são especificadas as consequências que diferentes regiões e culturas podem sofrer com fenômenos como o El Niño.
“Na região Norte e Nordeste, espera-se ter uma seca mais intensa, um calor e chuvas abaixo da média”, explica Frederico Lisita, especialista da Embrapa, em entrevista ao iG. “Na Amazônia, o fenômeno também pode provocar redução do nível dos rios, afetando comunidades que dependem deles para transporte, pesca e outras atividades”.
No Centro-Oeste, região que concentra parte importante da produção de grãos do país, a Embrapa aponta maior probabilidade de atraso das chuvas, períodos prolongados de déficit hídrico e temperaturas acima da média. Soja, milho e algodão estão entre as culturas que podem ser afetadas.
No Sudeste, os impactos são mais heterogêneos. A região funciona como uma área de transição entre os padrões observados no Centro-Oeste e no Sul, fazendo com que os efeitos variem de acordo com a localização.

“Sudeste e Centro-Oeste ficam nessa transição. Pode ter calor mais intenso também e chuvas irregulares. A região que tem mais influência do Sul pode ter uma chuva maior, enquanto aquela que fica mais próxima da Amazônia pode ter diminuição de chuva e aumento de calor”, explica Lisita.
Para a agricultura, a irregularidade das chuvas pode afetar diferentes culturas. Soja e milho ficam expostos ao atraso das precipitações e aos períodos de estiagem durante o ciclo. Café e cana-de-açúcar também podem sofrer com o estresse hídrico e térmico. No caso do café, por exemplo, a irregularidade das chuvas pode provocar floradas desuniformes e comprometer a qualidade da produção.
Se no Norte, Nordeste e em parte do Centro-Oeste o principal problema é a falta de chuva, no Sul o cenário é diferente. A região pode registrar aumento da disponibilidade hídrica, chuvas acima da média e maior ocorrência de tempestades, com granizo e ventos fortes. “O R io Grande do Sul está entre os estados mais expostos a esse cenário e já podemos observar essas mudanças”, afirma Lisita.
Apesar de a maior disponibilidade de água favorecer algumas culturas, o excesso de chuva também pode causar prejuízos. Na soja, por exemplo, as precipitações podem favorecer o desenvolvimento da planta, mas, quando persistentes, provocam saturação do solo, lixiviação de nutrientes, aumento de doenças e dificuldades para a colheita.
No arroz, o excesso de chuva pode reduzir a produtividade devido à menor incidência de radiação solar, além de provocar atrasos na semeadura e alagamentos. Já culturas de inverno, como o trigo, são mais vulneráveis à umidade excessiva, que pode aumentar a ocorrência de doenças e comprometer a qualidade dos grãos.
Lisita explica também que essa diferença de impacto vai além da questão geográfica. Segundo ele, agricultores familiares podem sofrer mais com os impactos climáticos em função da diferença de estrutura quando comparados aos grandes produtores.
O agricultor empresarial tem máquinas à sua disposição para preparar o solo no momento correto, enquanto que o agricultor familiar tem mais dificuldades, já que ele não vai ter o maquinário que precisa para plantar novamente em caso de alguma perda. Além disso, a quebra de safra para o agricultor familiar pode representar até mesmo um risco alimentar para a sua família, enquanto que para o grande produtor é um prejuízo financeiro Frederico Lisita, Embrapa
Rio Grande do Sul é um caso separado
O Rio Grande do Sul tem características peculiares, já que a tendência é registrar chuvas acima da média durante episódios de El Niño. Segundo Paula Hofmeister, engenheira ambiental e coordenadora de Desenvolvimento Sustentável da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), essa característica pode ser positiva para a agricultura gaúcha.
“O Rio Grande do Sul é bastante afetado, mas historicamente os anos de El Niño são positivos para as safras do Rio Grande do Sul, visto que temos chuvas acima da média e não sofremos com escassez hídrica. Por outro lado, este ano temos um El Niño acentuado, que vai gerar impacto para os produtores principalmente pela diminuição das janelas de aplicação, plantio e manejo na lavoura”, explicou ao iG.
Alguns dos efeitos já foram observados no estado. “Na floricultura, já tivemos algumas perdas com a questão das chuvas de granizo, assim como nas culturas de inverno que estavam no momento da colheita. Tivemos algumas regiões do estado que tiveram chuvas de pedra e ventania que danificaram as lavouras que estavam prontas para colher”, afirmou.
De acordo com a especialista, a expectativa da Farsul é de uma safra dentro da normalidade, desde que os produtores ajustem o manejo e se adaptem às condições climáticas.
O produtor precisa estar atento às mudanças no clima, como as mudanças nos ciclos das chuvas, principalmente para os próximos meses Paula Hofmeister, Farsul
Preparação pode reduzir os riscos
Diante de eventos climáticos cada vez mais capazes de afetar a produção agrícola, a adaptação é uma das estratégias para reduzir os riscos no campo. Na nota técnica que reúne 163 medidas para a gestão de riscos climáticos, a Embrapa define adaptação como o processo de ajuste dos sistemas humanos ou naturais em resposta aos impactos do clima observado ou esperado.
Na agricultura, esse processo envolve medidas capazes de reduzir danos físicos, econômicos e ambientais e, em alguns casos, aproveitar condições que possam ser favoráveis à produção. A nota reforça também que esse processo não parte somente dos produtores e precisa envolver uma série de políticas públicas e estruturas que ampliem a capacidade de adaptação no campo.
Entre as ações recomendadas estão o monitoramento das condições climáticas, a e laboração de planos de contingência, a utilização de dados meteorológicos locais e o a companhamento das previsões sobre o El Niño.
A Embrapa também recomenda que os produtores utilizem as informações do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) para definir períodos de plantio e ciclos das culturas. O Zarc conta com um aplicativo que permite ao produtor acessar informações sobre as condições climáticas e se orientar sobre quais culturas plantar e em quais localidades e períodos do ano.
Já para reduzir o impacto financeiro de uma eventual perda, o documento também recomenda a criação de reservas financeiras e a utilização de mecanismos de transferência de risco, como o Seguro Rural e o Proagro.
E o que isso significa para o produtor e consumidor?
Os efeitos do clima podem ultrapassar a produtividade e afetar a qualidade dos produtos, o valor recebido pelos produtores e, em determinadas situações, os preços dos alimentos. O R elatório de Inflação do Banco Central, referente a setembro de 2026, aponta que episódios de El Niño estão associados a quedas de produtividade em culturas importantes, como milho, algodão e arroz.
No milho, os efeitos negativos aparecem tanto na primeira quanto na segunda safra, com maior intensidade na segunda. O algodão também apresenta impactos negativos na maior parte das regiões analisadas. Já no arroz, os efeitos são predominantemente negativos, inclusive no Rio Grande do Sul, responsável por mais da metade da área plantada do país.
Os impactos sobre a soja, por outro lado, variam conforme a região. Enquanto o El Niño está associado a ganhos de produtividade no Rio Grande do Sul, devido ao aumento das chuvas, há efeitos negativos em áreas no Piauí e no Maranhão. Para cana-de-açúcar e café, o Banco Central não identificou efeitos expressivos sobre a produtividade.
O relatório considera ainda as projeções de um El Niño intenso até o segundo trimestre de 2027.
A Embrapa destaca que os efeitos também podem aparecer na qualidade e no valor comercial dos alimentos. No leite, por exemplo, o estresse térmico pode reduzir os teores de gordura e proteína e, consequentemente, o preço pago ao produtor. No trigo, o excesso de chuva pode comprometer a qualidade dos grãos e direcioná-los para a produção de ração. Já o granizo pode danificar frutas e reduzir seu valor comercial.
Apesar desses impactos, uma eventual intensificação do El Niño não significa necessariamente uma alta generalizada dos preços dos alimentos. Segundo a Embrapa, o efeito sobre o consumidor depende de fatores como estoques, produção em outras regiões, possibilidade de substituição, custos de produção, câmbio, preços internacionais, transporte e demanda.