
Reeleito neste domingo (25) para seu quatro mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem pela frente o desafio de governar um país dividido e construir uma base parlamentar capaz de sustentar seu quarto mandato. Com uma oposição fortalecida no Congresso Nacional e a necessidade de negociar com partidos de centro e centro-direita, o petista precisará conciliar a tentativa de pacificação política com a formação de uma coalizão que garanta a aprovação de suas propostas a partir de 2027.
Para a cientista política Soraia Vieira, da Universidade Federal Fluminense (UFF), as eleições de 2026 evidenciaram a divisão da sociedade brasileira entre os grupos que apoiaram Lula e aqueles que votaram no senador Flávio Bolsonaro (PL). Ainda na avaliação da pesquisadora, a disputa de narrativas nas redes sociais deve continuar no próximo mandato, tornando a busca pela união nacional um dos principais desafios do presidente.
“Um desafio é tentar fazer um governo de união nacional, tentando a pacificação dos grupos contrários”, afirma ela.
A dificuldade de construir pontes entre os diferentes grupos políticos também terá reflexos no Congresso. De acordo com Soraia, os deputados eleitos na onda de apoio a Flávio Bolsonaro deverão manter um discurso de oposição para responder às expectativas de seu eleitorado, o que exigirá do governo maior capacidade de articulação política.
Peso do Centrão para garantir maioria
A composição da Câmara dos Deputados exigirá que o presidente amplie suas alianças para além dos partidos mais próximos ideologicamente do PT. Ainda segundo aponta Soraia, essas legendas somam 124 deputados, número insuficiente para formar maioria na Casa, que tem 513 cadeiras.
A federação formada por PT, PCdoB e PV e os partidos PSB, PDT e PSOL-Rede constituem o núcleo mais alinhado ao governo.
Mesmo com esse grupo, Lula precisará buscar apoio entre siglas de centro e centro-direita, cujas bancadas podem ser decisivas para a aprovação de projetos.
Entre os partidos que poderão entrar nas negociações, na avaliação da pesquisadora, estão MDB, PSD, Podemos, União Brasil, Republicanos e PP. Essas legendas reúnem bancadas expressivas e têm potencial para garantir os votos necessários à aprovação de propostas do Executivo, desde que haja acordo político.
“O presidente terá que negociar com partidos do centro, que tem uma quantidade suficiente de deputados para garantir que se aprove medidas vindas do Congresso. Mas esse apoio não é certo e pode custar caro para o presidente”, ressalva Soraia.
Fragmentação partidária menor
A cientista política enfatiza ainda que apesar das dificuldades, a Câmara eleita apresenta uma redução no número de partidos, movimento associado às mudanças nas regras eleitorais promovidas pela Emenda Constitucional 97, de 2017. A alteração, que estabeleceu regras de desempenho partidário e restringiu o acesso ao fundo partidário e ao tempo de propaganda para legendas que não atingem determinados resultados eleitorais, contribuiu para reduzir a fragmentação política.
Ainda na avaliação de Soraia, a concentração de cadeiras em menos partidos pode alterar a dinâmica das negociações, mas não elimina a necessidade de construir uma maioria. Mesmo com bancadas maiores, as siglas de centro e centro-direita não têm compromisso automático com o governo, e o apoio a cada proposta dependerá das negociações políticas.
Nesse cenário, a capacidade de Lula de negociar com diferentes forças políticas será determinante para transformar promessas de campanha em políticas públicas.
Propostas de campanha podem ficar pelo caminho
A dificuldade de formar uma coalizão também representa um risco para o programa de governo. Questionada sobre qual proposta da campanha teria maior possibilidade de não sair do papel, Soraia afirma que o problema pode atingir o conjunto das iniciativas, caso o presidente não consiga reunir apoio suficiente no Legislativo.
“Caso não consiga uma base, uma coalizão, o governo corre o risco de não avançar em nenhuma de suas propostas, a menos que haja algum tipo de pressão vinda da sociedade por alguma delas”, conclui a cientista política Soraia Vieira.