Estudantes
Leandro Ferreira/Fotoarena/Agência O Globo
Assim como a prova da Fuvest, ocorrida no último final de semana, exame do Enem será realizado com regras de distanciamento social

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) , marcado para começar no próximo domingo, acontecerá presencialmente, em meio a um novo pico da Covid-19 no Brasil, apesar da pressão de infectologistas, associações científicas e estudantes por um novo adiamento da prova, que ocorreria em novembro passado.

Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira ( Inep ) não pretende mudar as datas dos exames — que acontecem presencialmente nos dois próximos domingos, e virtualmente nos dois domingos seguintes —, mesmo após perder um diretor para a doença.

Morreu ontem, aos 59 anos, em Curitiba, Carlos Roberto Pinto de Souza, diretor de Avaliação da Educação Básica, responsável pela realização do Enem . O Globo confirmou com fontes ligadas ao diretor que ele morreu após contrair o coronavírus . O Inep não informou a causa.

Na avaliação do médico Ricardo Schnekenberg, pesquisador da Universidade de Oxford que fez parte do grupo de resposta do Imperial College analisando dados do Brasil no ano passado, a manutenção da data é um “absurdo do ponto de vista sanitário”.

"Quem vai realizar uma prova tão importante , vai acordar com tosse seca e cansada e não vai fazer o exame ? Fora o risco dos assintomáticos. E como isolar os grupos de risco em casa se os filhos e netos estão indo fazer o Enem ?", afirmou, em entrevista ao Globo, na semana passada.

Esse dilema vai tirar Victória Raposo Gallo, 19 anos, da prova. A moradora de Teresópolis vive com a mãe, hipertensa de 52 anos, e não fará o exame caso ele não seja adiado: "mais vale entrar numa universidade mais tarde do que arriscar a vida da minha mãe".

O vestibular da Fuvest , realizado anteontem, comprovou que este é um ano atípico. A taxa de abstenção na prova, principal meio de ingresso na Universidade de São Paulo ( USP ), foi de 13,2%, contra 7,9% do ano passado. As medidas de segurança eram similares às do Enem, como obrigatoriedade de máscaras e distanciamento social.

Daniela Santiago, de 47 anos, tem dois filhos inscritos no Enem. Ela também teme que os estudantes se contaminem e levem a doença para casa: "é óbvio que deveria ser adiado. Estamos de quarentena há quase um ano e agora eles têm que ir se expor num momento perigoso".

Na última semana, a Defensoria Pública da União fez um pedido à Justiça para que o Enem não ocorra em janeiro . "Quem disse que não tem segurança sanitária para a aplicação da prova são as autoridades científicas", afirma João Paulo Dorini, defensor público federal autor da ação.

Também defenderam o adiamento, na última sexta-feira, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Educação e a Associação Brasileira de Saúde Coletiva, com outras 44 entidades científicas, em uma carta aberta endereçada ao ministro da Educação, Milton Ribeiro.

Segundo o grupo, é quase “unânime a previsão de que haverá um salto ( de casos ) nas próximas semanas como resultado da grande exposição recente”, no fim de ano.

Segundo Leonardo Weissmann, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia, o Enem , com 5,7 milhões de inscritos, tem potencial de se tornar um evento de supercontaminação da Covid-19:  "O exame mobilizará milhões de pessoas, com a possibilidade de aglomerações, além de deixar os candidatos fechados dentro de uma sala durante horas. É impossível garantir segurança total, mesmo com todas as medidas propostas. O ideal seria suspender momentaneamente a prova ".

Em nota, o Inep afirma que foram estabelecidas regras específicas para reduzir aglomerações , que R$ 64 milhões estão sendo destinados às medidas de prevenção, como compra de álcool em gel, e que a ocupação das salas será de 50%, para manter o distanciamento entre candidatos.

Adaptações

Países como Índia, China, França, Reino Unido e Estados Unidos cancelaram avaliações nacionais de ingresso no ensino superior por conta da Covid-19 . Nos EUA, universidades importantes como Harvard e Columbia estão alterando seus modelos de seleção por conta da pandemia. A nota do SAT (prova similar ao Enem, mas aplicada sete vezes ao ano) não é mais requisitada. Por outro lado, aspectos como entrevista e cartas de recomendação passaram a ser mais valorizados.

No Brasil, Solón Caldas, diretor da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior, afirma que um novo adiamento do Enem vai causar “consequências terríveis”.

"Segundo uma pesquisa da associação, 70% dos alunos que pretendem ingressar no primeiro semestre vão aguardar o resultado do Sisu ( ou seja, se entraram em uma universidade pública ) para tomar a decisão de se matricular ou não em uma privada. Isso significa que nós não vamos ter ingressantes no primeiro semestre"afirma Caldas.

Já a Associação Nacional de Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior afirmou que não se manifesta sobre a data do Enem, mas que é preciso garantir “condições de biossegurança dos candidatos e profissionais envolvidos”.

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