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Cerca de um quarto de todas as bolsas de pós-graduação da universidade vêm do conselho; universidade estuda medidas emergenciais

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Divulgação/Antonio Scarpinetti/Unicamp
Unicamp estuda plano emergencial para cortes de bolsas.


A Universidade Estadual de Campinas, Unicamp , iniciou um grupo de trabalho para discutir medidas emergenciais de apoio a pós-graduandos que estão com suas bolsas ameaçadas. Além disso, a Universidade aprovou também uma moção, apresentada aos governos federal e estadual, contra os cortes no financiamento de pesquisas por parte do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico ( CNPq ) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior ( Capes ). 

O Reitor da Unicamp , Professor Marcelo Knobel, explica que esse grupo de trabalho deve procurar soluções apenas para o problemas mais urgentes, que estão relacionados os alunos de pós-graduação que podem ter suas bolsas cortadas. “Minha preocupação é primeiro com as pessoas. São estudantes que estão dedicando sua vida para a pesquisa, para a Academia, e ter a perspectiva de ter a bolsa cortada no meio do processo é muito preocupante”, afirma Knobel. Alunos que recebem bolsa de pesquisa possuem dedicação exclusiva, não podendo ter outros contratos empregatícios.

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As medidas emergenciais devem ser definidas e implantadas em um prazo de 30 dias, e a ideia é oferecer aos alunos afetados acesso à alimentação, bolsa moradia e suporte à saúde mental, além da criação de um fundo de apoio. 

Esse tipo de providência, afirma o Reitor, auxilia de forma emergencial as pessoas afetadas. Mas, partindo para um olhar mais amplo para toda a pesquisa que acontece dentro da Unicamp, o prejuízo no corte das bolsas ainda é muito grande, já que a Universidade não tem recursos para manter, sozinha, as pesquisas que vêm sendo realizadas. “O resultado, sem dúvida alguma, é catastrófico”, destaca Knobel. 

O Professor Marko Monteiro, coordenador do programa de pós-graduação em Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências da Unicamp, que estuda, entre outros assuntos, as dinâmicas da ciência e da tecnologia e as políticas que são desenvolvidas para essas áreas, afirma que, no longo prazo, as Universidades realmente não conseguirão manter suas pesquisas sozinhas. “A Unicamp está trabalhando com déficit, então não tem como ela repor [essas bolsas], não tem outra fonte de financiamento que consiga repor isso. Então, podemos nos articular só para dar o apoio imediato, mas no longo prazo não tem outra fonte de financiamento", explica.

Entendendo o contexto: o que já foi e o que ainda será cortado

Neste ano, duas agências de fomento à pesquisa já anunciaram cortes de bolsas: o CNPq e a Capes. O anúncio mais recente foi da Capes, na última segunda-feira (2), com o congelamento de 5.613 bolsas . Antes disso, o órgão já tinha anunciado outros cortes em maio e em junho. Ao todo, quase 12 mil bolsas foram congeladas no Brasil todo pela Capes, que é vinculada ao Ministério da Educação ( MEC ). Esses cortes não interrompem nenhum ciclo ao meio, já que foram bloqueadas apenas novas bolsas. Isso afeta, sobretudo, os alunos que estavam mudando de nível. Se um bolsista Capes termina seu mestrado, por exemplo, ele não terá bolsa para continuar suas pesquisas no doutorado. Na Unicamp, 135 pessoas foram afetadas - ao todo, a Capes ainda mantém cerca de 2.400 bolsas de mestrado e doutorado na Universidade.  



Já no CNPq, órgão ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações ( MCTIC ), nenhuma bolsa foi cortada por enquanto. Devido a um déficit orçamentário, o CNPq anunciou, em julho, que deixaria de pagar os bolsistas a partir de outubro. É por isso que o Reitor da Unicamp afirma que a Universidade ainda está “em compasso de espera". Caso isso realmente aconteça, 84 mil pesquisadores do país todo serão atingidos. Hoje, a Unicamp é contemplada por 2.861 bolsas do CNPq, e todas elas correm esse risco. São justamente esses bolsistas que serão contemplados pelo plano emergencial da Universidade. 



Uma dessas bolsas do CNPq é a de Hítalo Rodrigues Mendes, que está fazendo Doutorado em Física - faltam dois anos e meio para ele defender sua tese. A pesquisa é na área de Radiologia, sobretudo em Pediatria, e visa diminuir a dose de radiação em crianças na hora de produzir imagens com Raio-X. Ele explica que, quando em doses elevadas, a radiação pode acarretar efeitos negativos como o câncer, e é esse tipo de dano que a linha de pesquisa na qual ele está inserido visa minimizar. 

Caso as bolsas do CNPq sejam realmente cortadas a partir de outubro, Hítalo também perde sua bolsa. Além de interromper a pesquisa, isso afeta diretamente em sua vida pessoal. “Toda a minha fonte de renda seria cortada do nada. Como eu tenho a bolsa, eu não posso trabalhar, então eu iria de receber uma bolsa para não receber nada, e sem nenhum tipo de expectativa de quando eu poderia receber de novo”, afirma. 

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Além desta, muitas outras pesquisas podem ser afetadas pelos cortes de bolsas. Cláudia Morelli, Professora coordenadora de pós-graduação da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, afirma que muitas pesquisas na área da saúde podem ser impactadas. “Visto que todos os programas com cotas de bolsas terão contingenciamentos, equivale dizer que teremos impacto em pesquisas que têm por objetivo investigar e buscar tratamentos para o câncer, doenças crônicas, infecciosas, metabólicas, hematológicas, neurológicas, hereditárias, que visam a saúde da mulher, saúde da criança e adolescente, saúde mental, só para citar alguns exemplos de áreas que deverão ser atingidas”, aponta Cláudia. 

Desde que o CNPq anunciou esses cortes, o MCTIC vem fazendo promessas de tentar ajustar o orçamento para honrar os compromissos pelo menos até o final do ano, mas isso ainda não aconteceu. Em um anúncio na manhã da última sexta-feira (06), o Ministro Marcos Pontes afirmou que, mesmo se houver os cortes, assim que o orçamento for normalizado,  todas as bolsas voltarão a ser oferecidas. 

Apesar de estar preparando medidas emergenciais para os cortes, Knobel diz ter expectativas em relação à continuidade de pagamento das bolsas até o final deste ano. “Eu confio que o próprio Ministro e as pessoas envolvidas no Ministério da Economia saibam entender a importância das pesquisas científicas nos momentos de crise. Cada país que optou pela ciência, pela tecnologia e pela educação, fez a opção de futuro, e é o que deve acontecer no Brasil também”, afirma o Reitor. 

O que os cortes representam para o país

Além dos problemas mais urgentes, sobretudo em relação aos bolsistas, o Professor Monteiro e o Reitor Knobel apontam para diversos problemas mais amplos que podem surgir com os cortes nas bolsas de pesquisa. Knobel explica que a estrutura de pesquisa que o Brasil tem hoje é um sistema que foi consolidado ao longo dos últimos 60 anos, e que parar de financiá-lo agora representaria um retrocesso. “A gente tem uma comunidade de ciência e tecnologia muito bem consolidada, e seria realmente um desperdício a gente perder isso. Teríamos um retrocesso de muito, muito tempo para recuperar”, pontua o Reitor. 

Monteiro explica que a estrutura de pesquisa pública brasileira é toda pautada sobre alunos de pós-graduação e, consequentemente, depende diretamente das bolsas que vêm das agências de fomento à pesquisa. “As bolsas são o recurso que banca a ciência. São esses alunos que fazem toda a pesquisa do Brasil”, afirma. 

Com o contexto atual, o Professor aponta que uma das maiores dificuldades é o planejamento das pesquisas. “Com tanta incerteza, você não consegue planejar. A perspectiva de futuro é que a pós-graduação seja inviabilizada, e a gente tem dificuldade de planejar por conta disso”. 

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 Outro ponto levantado por Monteiro é o desperdício de todo o dinheiro que já foi investido em pesquisa ao longo das últimas décadas. “A ciência é um empreendimento de longo prazo. Umas das coisas mais críticas que está acontecendo agora é que, com a interrupção de financiamento, além de perder a pesquisa que está sendo feita agora, você perde todo o investimento de décadas que possibilitaram as pesquisas chegarem até aqui”. 

Sobre essa importância a longo prazo, o Professor usa o agronegócio como exemplo. “O agronegócio, que tem uma influência muito grande, não existiria da maneira que existe sem a Embrapa, que é uma empresa pública, um investimento público. Imagina o Brasil sem agronegócio”, pontua Monteiro. “Tudo o que a gente aproveita de desenvolvimento vem da pesquisa pública em grande parte”. 

Sem ciência, sem tecnologia, sem Universidade pública, o país não tem futuro.


Knobel explica que o prejuízo pode, ainda, ser grande em todas as áreas de conhecimento. “Seja em pesquisa médica, em pesquisa de energia, em pesquisa na agricultura, o país é o que é graças à ciência a à tecnologia, então a gente teria muito o que perder. Sem ciência, sem tecnologia, sem Universidade pública, o país não tem futuro”, enfatiza o Reitor. 

A Professora Cláudia aponta que os cortes podem também causar um desestímulo em jovens com potencial. “Minha maior preocupação e pergunta é: diante de tamanho desestímulo na ciência nacional, como atrair e manter na Universidade os jovens com potencial para a pesquisa e desenvolvimento tecnológico?”, questiona.

Para ela, um dos maiores desafios dos pesquisadores, docentes e alunos é conseguir mobilizar a sociedade, informando sobre a importância da ciência. “Somos formados para divulgar nossos resultados em artigos científicos e temos pouca formação para dar essas mesmas informações à sociedade. No Brasil, grande parte da sociedade não tem clareza sobre o que é realizado dentro das Universidades. É hora de direcionarmos parte das nossas ações nesse sentido. Não tenho dúvidas que nossas pesquisas beneficiam a sociedade como um todo. Mas quantos sabem disso? É nosso papel informamos. Uma sociedade que compreende ser ela mesma a maior beneficiária dos conhecimentos e soluções gerados dentro de uma Universidade, certamente se posicionará de forma contrária a propostas que causem achatamento da ciência no país”, opina Cláudia. 

Além da reitoria, alunos da Unicamp também se mobilizam

Além das medidas emergenciais que a reitoria da Unicamp pretende tomar, os alunos de pós-graduação da Universidade também estão se mobilizando. Carlos Alberto Stefano Filho, doutorando em Física, conta que, no seu instituto, os pós graduandos se reuniram para pensar em algumas soluções emergenciais, sobretudo para alunos estrangeiros. “Tentamos pensar em ações que a gente, enquanto alunos, de forma extraoficial, poderia fazer como rede de apoio para os estudantes, principalmente os estrangeiros. Tentar promover ações para arrecadar dinheiro, para tentar pagar uma conta ou outra, ver se o instituto se disponibilizaria a pagar uma passagem que um ou outro precisasse para voltar para casa. Porque muitos ficam sem bolsa e, como o visto deles é de estudante, também não daria para eles trabalharem”, explica. 

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Mas, além de mobilizações pontuais como essa, pós-graduandos da Unicamp toda estão se unindo em uma Comissão Pró Associação de Pós-graduandos Central. Mayara Gregoracci, mestranda na Faculdade de Educação, e Flávio Franco, doutorando do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, são membros dessa comissão e contam que os alunos planejam se mobilizar tanto localmente quanto de modo nacional, seja participando de manifestações por Campinas ou até realizando uma caravana para se manifestarem em Brasília

Sobre a importância dos investimentos, Franco diz que “sem ciência, não há futuro para o país, e sem investimento não conseguimos produzir o que a pós-graduação em universidades públicas dá em termos de contribuição científica no Brasil". Mayara olha também para o impacto que os cortes têm na vida dos próprios pós-graduandos, e deixa claro que, embora eles sejam denominados estudantes, esse é o ofício principal da grande maioria deles. “A pós-graduação também é um trabalho, embora não oficialmente qualificada como tal, pois produz conhecimento, tecnologia e desenvolvimento para o país”, afirma. 

Sobre as medidas emergenciais que a  Unicamp pretende tomar, a Comissão se posiciona integralmente a favor. Perguntado se reitoria e estudantes devem se mobilizar juntos, o Reitor afirma: “Sem dúvida. Nós estamos todos unidos aqui pela educação, pela ciência e tecnologia. Isso é uma ação para o país, mais do que para qualquer universidade".