Havaiana Armada
Oscar Filho por IA
Havaiana Armada

Fiz um vídeo comentando o caso das Havaianas com a Fernanda Torres onde a direita ficou irada  com a campanha. No meio do vídeo, eu usei a seguinte frase: “Um trocadilho que nem ficou claro se foi de propósito.”


A reação foi imediata. Para muita gente, só havia duas possibilidades: ou eu era burro e inocente, ou comprado e cínico.

Cínico eu fui mesmo. Era um vídeo de humor, caramba! Mas a reação foi tão automática que resolvi sair do registro irônico e fazer uma análise mais séria.

Entre o pé direito e o pé inteiro

Vamos partir, então, do ponto que a maioria da direita partiu: foi de propósito. O texto do comercial diz:

“Desculpa, mas eu não quero que você comece 2026 com o pé direito. Não é nada contra a sorte, mas vamos combinar. Sorte não depende de você, né? Depende de sorte. O que eu desejo é que você comece o ano novo com os dois pés. Os dois pés na porta, os dois pés na estrada, os dois pés na jaca. Os dois pés onde você quiser. Vai com tudo. De corpo e alma, da cabeça aos pés.”

Se foi de propósito, a pergunta não é essa.

A pergunta é: o que esse texto diz, objetivamente?

Ele poderia atacar o simbolismo do “pé direito”. Ou ironizar a associação entre direita e virtude. Ou poderia até ter sido um manifesto explícito.

Mas não faz nada disso. Ele diz algo simples: comece inteiro, equilibrado. Nem só um, nem só outro. Os dois!

A semiótica explica a confusão

Esse tipo de leitura não é algo novo. A semiótica já mostrou como signos cotidianos podem ser carregados de política e identidade.

Umberto Eco descreveu como os signos mudam de sentido conforme o contexto. É útil para entender como “pé direito” funciona como símbolo cultural antes de ser político.

Por isso, a campanha não foi lida como metáfora porque o público já não consegue separar linguagem de ideologia.

E também mostra porque minha frase “não ficou claro se foi de propósito” foi lida como ingenuidade. Não era sobre o texto. Era sobre o campo simbólico em que ele caiu.

A linguagem abaixo da identidade

O episódio revela menos sobre a Havaianas ou sobre a Fernanda Torres e mais sobre o momento em que vivemos: símbolos valem mais do que frases e identidade pesa mais do que intenção.

Direita e esquerda deixaram de ser ideias para virar gatilhos emocionais.

A ideia implícita ali foi: vamos nos equilibrar no próximo ano.

Sendo assim, desejo que nós todos comecemos 2026 com os dois pés no chão. A gente vai precisar.

Afinal, é um ano de eleições e é a nossa chance de arrumar a casa. E arrumar a casa também significa reaprender a ouvir palavras sem transformá-las em bandeiras.

Leia  o outro texto que eu fiz sobre o tema.


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