
Oi, pai. Tô escrevendo pra te contar umas coisas que você não sabe.
No seu velório, enquanto todos estavam em volta de você te olhando, uma das coisas que mais me chamou atenção foi o silêncio mais alto do que o choro.
Talvez fosse por respeito à sua essência: piadista, bem-humorado. E, claro, teve piada. Nem vou contar quem comentou, você vai saber:
“Certeza que ele morreu depois de ver o Palmeiras perder a final da Libertadores…”
Eu sei que você teria aprovado porque você sempre foi assim: simples, prático, zero frescura.
Não foram as nove vezes entre os três primeiros colocados em concursos de contos e poesias que fizeram você ficar conhecido em Atibaia. Lá você era o “Oscarzinho do cartório”. O responsável, também, por ter datilografado, há quarenta anos, as escrituras dos terrenos do hospital onde você ficou internado.
Por isso apareceram pessoas que eu nunca tinha visto pra contar histórias que eu nunca tinha ouvido.
Teve quem me contou que virou advogado por sua causa e teve quem construiu uma casinha com o material que você ajudava a carregar no seu fusquinha azul. Você tinha mesmo essa mania bonita de não negar ajuda.
Uma mulher disse:
“Seu pai foi o melhor patrão que eu tive.”
E eu pensei: Então é um forte candidato ao paraíso. Fiquei orgulhoso!
Sua sobrinha e grande amiga falou que, dias atrás, perguntou onde eu estava e você respondeu:
“Ah… deve estar lá em São Paulo ó…”Fazendo o sinal universal de “tá transando”.
Você quase partiu dessa oito vezes e ainda tava com energia pra tirar sarro. Esse teu jeito foi tão marcante que encantou a ala da UTI do hospital chamando todas as enfermeiras de “Flor”.
Lembra daquele dia em que perderam seu chinelo na ambulância e eu te levei pra comprar outro? Você ficou no carro enquanto eu comprava. A atendente queria me mostrar modelos “melhores”, mas logo na entrada vi um do Palmeiras e pensei: “É esse.” Eu fiquei feliz por ter acertado porque você olhou pra mim com uma alegria quase infantil e disse:
“Poxa… aí sim! Valeu a pena ter perdido aquele outro par.”
O que você não sabe é que eu quase comprei um do Corinthians também só pra sacanear...
Sempre foi muito difícil de dar presente porque você era o tipo de homem que era feliz com pouco. E quem é feliz com pouco raramente reivindica muito da vida.
E foi justamente eu que tive a difícil missão de escolher a sua roupa do velório. Como vestir um homem que nunca ligou pra roupa nenhuma?
Foi pensando na sua simplicidade que eu escolhi um pijama: verde, claro! Uma cor que significa esperança, renovação, equilíbrio e... Palmeiras.
Não sei se você viu, mas eu coloquei seu boné bege também. Eu sei que é inútil no sepultamento, mas foi essencial nos últimos meses, certo? Você usava pra comer, sair e dormir. Eu acho que era o seu escudo, uma maneira que você encontrou de se isolar um pouco a mais do mundo.
Quero te pedir desculpas porque eu menti pra você quando negava que estava cancelando shows e adiando projetos pra ficar do teu lado e cuidar das suas burocracias pessoais. Este ano, meu foco foi você.
Era bom demais chegar pra te dar uma boa notícia:
“Já resolvi o Imposto de Renda, pai”
“Boa, garoto!!!”
Sabe... ironicamente este ano, eu virei seu pai e você virou meu filho. E foi assim que a vida fez pra me ensinar sobre amor: ela trocou os papéis sem eu nem me dar conta.
Foi um ano pesado, né? Hemodiálise, entubação, antibióticos e tantos delírios que um dia, eu cheguei no quarto e você disse:
“Por pouco você não encontra o Chico Xavier. Ele veio conversar comigo.”
Achei estranho porque você nem era espírita, hahahaha!!! Mas não contrariei porque os médicos disseram que poderia gerar ansiedade e piorar. Aí eu perguntei:
“É mesmo, pai? O que você conversou com ele?”
“Com ele quem?”
“Ué, mas você acabou de dizer que o Chico Xavier veio conversar com você!”
“Não falei Chico Xavier... falei Chico Anísio.”
Foi a minha deixa pra brincar:
“Ainda bem que não foi o Chikungunya, né?”
Você riu! E eu fiquei me perguntando: será que ele tá realmente delirando? De qualquer forma, coloquei o Moacir Franco pra tocar no Youtube pra te ajudar a voltar.
Foram nove vezes pra UTI. NOVE. E em todas, parecia que você ia, mas voltava. Perdi a conta de quantas vezes me preparei pro fim… mas a tua teimosia te deixava vivo.
No domingo, quando o hospital ligou, eu acreditei que seria igual. A alta estava prevista pra segunda. Imaginei você pedindo o boné, reclamando da comida pastosa. Mas dessa vez, foi a última surpresa.
Quando cheguei no quarto e me dei conta de que você tinha ido… eu, chorei mais do que você ouvindo o bandolim de "Naquela Mesa" do Nelson Gonçalves naquele dia em que eu coloquei pra você ouvir.
Depois do choro, eu, ateu convicto, rezei. Rezei por você, no seu lugar. Porque naquele momento, a minha crença era irrelevante. A ida e a chegada eram suas.
Eu não rezei pra barganhar. Só quis garantir que você fosse bem acompanhado, como nas nove internações. Rezei pra que encontrasse seu pai e sua mãe, como um filho voltando pra casa.
Pai, eu tô triste, mas tô tranquilo porque você foi em paz com a sensação de missão cumprida como você mesmo me disse dias atrás.
No velório, descobri tantas histórias que parecia que você tinha guardado contos não publicados só pra ganhar mais um prêmio no final. Você deixou um rastro de humanidade que dá vontade de viver melhor.
Existem pessoas assim, que não deixam bens, deixam histórias. E você deixou tantas que, quando eu penso em você, sinto que não se foi de verdade.
Só foi buscar o fusquinha azul pra gente dar uma volta no próximo domingo... só pra me enganar mais uma vez.
Com muito amor e orgulho...
Teu filho!