Nuno Vasconcellos
Daniel Castro Branco/Agência O Dia
Nuno Vasconcellos

Numa comparação ligeira, e sem discutir detalhes dos perfis dos 51 vereadores eleitos , é possível esperar que a qualidade da Câmara Municipal que emergiu das urnas no domingo passado seja melhor do que a da escolhida em 2016. Não vai, aqui, nenhuma crítica direta aos 17 parlamentares que não foram reeleitos — número que significa a renovação de um terço das cadeiras. Não há, da mesma forma, qualquer intenção de elogio aos que chegarão para substitui-los. O aumento da qualidade, ao que tudo indica, não está nos nomes dos que tomarão posse no próximo dia 1º de janeiro, mas nos critérios que parecem ter marcado as escolhas feitas este ano. 

O eleitor — a despeito do cansaço que tem demonstrado em relação à ineficiência crônica do Estado — parece ter dedicado mais atenção à escolha de seus representantes. A taxa de abstenção foi expressiva, de quase 33% dos 4,8 milhões de eleitores. Os que se deram ao trabalho de sair de casa para votar, porém, parecem ter pensado duas vezes antes de apertar a tecla "Confirma" na urna eletrônica.

Entre os vereadores eleitos, há de se destacar a permanência de César Maia (DEM) e a chegada de Chico Alencar (PSOL) à Câmara Municipal. São dois expoentes da política brasileira, que disputaram e perderam a vaga para o Senado em 2018. Ambos são experientes, preparados e com currículos destacados em seus campos de atuação. A presença dessa dupla em plenário significará, no mínimo, a garantia de um debate elevado em torno das questões fundamentais para a vida da cidade. E o que não falta no Rio de Janeiro, convenhamos, são questões fundamentais a serem resolvidas. 

ESCOLHA DEFINITIVA — O passo importante que foi a eleição dos vereadores se completará no próximo domingo com a escolha em segundo turno do prefeito que governará a capital e outros quatro municípios do estado. Primeiro entre os grandes veículos de imprensa do Brasil a dedicar atenção às eleições municipais deste ano, O DIA deu início, quando havia pouca gente atenta ao pleito, a uma série de lives com todos os pré-candidatos à Prefeitura do Rio e de alguns dos principais municípios do estado. 

Atento, sobretudo, aos 25 municípios onde mantém equipes próprias de jornalismo, o jornal continuará, ao longo desta semana, levando a seus leitores informações sobre as ações e as propostas dos que passaram no teste do primeiro turno e, agora, ouvirão a palavra definitiva do eleitor. No caso específico da capital, para onde se voltam os olhos não apenas do estado, mas de todo país, e eleitor terá a oportunidade de comparar não apenas as promessas e o currículo de cada candidato, mas, também, o que cada um deles já fez pela cidade e por seus moradores. 

Eduardo Paes , o mais votado, tomou posse pela primeira vez no dia 1º de janeiro de 2009 e foi prefeito até a posse de Marcelo Crivella , que administra o Rio desde 1º de janeiro de 2017 e chegou em segundo desta vez. Como os mandatos de ambos ainda são atuais, o eleitor tem elementos para fazer uma comparação do trabalho de cada um à frente da prefeitura. E, então, decidir se chama Paes de volta ou se dá a Crivella mais quatro anos para prosseguir o seu trabalho. Ou seja: qualquer tentativa de “desconstrução” do adversário feita nesta hora esbarrará em fatos concretos que denunciarão qualquer mentira que um lance sobre o outro. 

A escolha do eleitor se baseara nas obras, no estilo, no temperamento e até mesmo nas condições em que cada um deles executou o seu trabalho. Na percepção de quem se beneficiou com as escolhas que a autoridade fez na hora de investir os recursos disponíveis. Ninguém quer saber se o administrador público tem muito ou pouco para gastar. O que conta é onde ele investiu o dinheiro disponível e o zelo na hora de aplica-lo. 

AMOR PELO RIO — A diversidade e a pluralidade fazem do Rio o maior desafio que um administrador público brasileiro pode ter nas mãos. O contraste está por toda parte e se manifesta não apenas entre os que vivem nos bairros nobres da Zona Sul e os moradores das comunidades. Ou entre os diferentes grupos que compõem o vasto universo cultural, social e religioso de uma cidade que precisa, antes de mais nada, recuperar o ânimo e encontrar o rumo que perdeu nos últimos anos. 

O próximo prefeito terá que corrigir as deficiências expostas pela pandemia no sistema de Saúde. Terá que cuidar da Educação e do transporte. Terá que olhar com atenção para as construções em áreas de risco e agir antes que novos deslizamentos voltem a tirar vidas inocentes. Terá que levar o poder público para áreas hoje dominadas pelo crime organizado. Cada um desses pontos, sozinho, já significa trabalho suficiente para os próximos quatro anos. Todos somados então, demonstram a dificuldade da tarefa que o próximo prefeito terá pela frente.

Antes que alguém diga que muitas dessas exigências não são de competência do prefeito, repito o que tenho dito neste espaço desde que comecei a ocupá-lo: o cidadão não quer saber se o seu problema é de responsabilidade federal, estadual ou municipal. O que ele quer é vê-lo solucionado. O prefeito, além de saber administrar, precisa se articular com as outras esferas de poder e mobilizar os recursos possíveis — estejam eles em Brasília, no governo estadual, na iniciativa privada ou na própria prefeitura — para colocar em prática políticas que beneficiem a toda população.

O prefeito precisa, acima de qualquer outra qualidade, ter e demonstrar amor pelo Rio . E por toda riqueza humana que esta cidade acumulou em seus 455 anos de vida.

(Siga os comentários de Nuno Vasconcellos no Twitter e no Instagram: @nuno_vccls).

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