Nuno Vasconcellos
Foto: Daniel Castelo Branco / Agência O Dia
Nuno Vasconcellos

Não é preciso esperar pelos peritos da Polícia Federal para conhecer a causa do incêndio, que ocorreu na manhã da última terça-feira, e que já resultou em cinco mortos e interrompeu o funcionamento o Hospital Federal de Bonsucesso.

Tragédias como essa nunca são obras do acaso. A primeira hipótese é que sejam resultado de algum ato criminoso praticado por quem tem a ganhar com a situação. A segunda, e mais provável, é que nasçam da irresponsabilidade de quem que não fez o que estava a seu alcance para evitar o perigo.

Independentemente do estopim que deu início ao fogaréu, o fato é que ele expõe a precariedade do sistema de Saúde do município num momento em que a crise sanitária em torno da pandemia da Covid-19 exige dele um funcionamento perfeito.



Em meio a toda essa tristeza é preciso insistir num ponto que não serve de consolo nem alivia o sofrimento dos pacientes que tiveram que ser removidos às pressas para outras unidades de Saúde.

Pelo contrário, ele apenas amplia a gravidade do problema. Desta vez, a culpa não pode ser debitada na conta das autoridades estaduais e municipais. A responsabilidade, agora, foi do governo federal.

Crime lesa a pátria

A unidade que pegou fogo em Bonsucesso é um dos seis hospitais que o governo federal mantém no Rio. Nenhum outro município brasileiro tem à disposição de sua população uma rede de Saúde tão ampla, bem equipada e que, além de tudo, não consome um centavo dos orçamentos locais: tudo o que é gasto ali vem do dinheiro recolhido dos contribuintes de norte a sul do país.

Aí é que está o problema. Nem que fosse por respeito às pessoas e empresas que se esforçam para manter seus tributos em dia durante uma crise econômica persistente, os responsáveis por esses equipamentos deveriam demonstrar mais zelo pela propriedade do povo brasileiro.

Existem no cenário outros ingredientes capazes de acrescentar um pouco mais de pimenta ao debate. O incêndio aconteceu justamente no instante em que Brasília tinha dado início à discussão de uma provável privatização do Sistema Único de Saúde, o SUS.

Trata-se, sem dúvida, de um tema delicado — que não deveria ser sido trazido para a discussão no meio de uma crise sanitária grave como a que atravessamos.

Da mesma forma, ele não deve ser tratado como se a simples menção à privatização, por si só, já configurasse um crime lesa pátria.
É preciso discutir o sistema de Saúde ponto por ponto.

Colocar tudo em pratos limpos, redefinir as responsabilidades e, quem sabe, no futuro, até mesmo transferir parte das unidades de atendimento, que hoje são públicas, para a responsabilidade de empresas que atuem sob a fiscalização do Estado e ofereçam o que é fundamental: cuidados de Saúde para a população. Ponto final.

Atendimento ampliado 

Uma pessoa que necessita de cuidados médicos não quer saber se será tratada numa estrutura pública ou privada. Ela também não quer saber, caso seja atendida por uma estrutura pública, se receberá atenção municipal, estadual ou federal. Tudo o que ela deseja é um tratamento ágil, eficiente e respeitoso, capaz de livrá-la no menor tempo possível da doença e da aflição.

Em meio a problemas que se tornam mais evidentes a cada dia, é triste constatar que, ao longo de uma década, o Rio de Janeiro, em matéria de atendimento primário e de acompanhamento, saiu de uma situação incômoda, evoluiu de forma consistente e depois voltou a despencar para uma posição desconfortável.

No início de 2010, para falarmos de datas arredondadas, pouco mais de 3% da população do Rio de Janeiro tinha acesso a um programa estruturado de medicina preventiva — que cuidasse de sua saúde de forma integral e, assim, reduzisse a demanda por serviços de emergência e internações.

Um trabalho organizado pela prefeitura implantou uma série de Clínicas da Família em locais de fácil acesso e em posições estratégicas nas Zonas Norte e Oeste da cidade. Bairros como Bangu, Realengo, Paciência, Madureira e Maré passaram a contar com unidades que ofereciam atendimento de qualidade e evitavam que as pessoas fossem até a região central em busca de solução para os problemas mais básicos.

A iniciativa incluía, ainda, a implantação de um sistema informatizado que arquivava em nuvem todas as informações sobre a saúde de um determinado cidadão e permitia que ele fosse atendido em qualquer parte da cidade sem precisar passar por uma nova triagem.

Isso ampliou de forma acelerada o acesso ao atendimento básico e aos cuidados preventivos. Da mesma forma, desafogou os hospitais — que não precisavam mais cuidar de casos simples de gripe e puderam se concentrar no atendimento de urgência e das cirurgias mais complexas. Por volta de 2015, o percentual da população atendido pelo sistema alcançou 40%.

Nos anos seguintes, chegou a 70% — percentual que a OMS reconheceu como o marco para um serviço de Saúde universalizado e até premiou o Rio por isso. A pergunta é: se já foi assim, por que regrediu tanto quanto nos últimos anos?

Dizer que o sistema não teve continuidade por falta de recursos é desrespeitoso não só à inteligência como à própria vida do cidadão. A Saúde do Rio tem jeito. Desde que fique sob responsabilidade de gestores que coloquem as necessidades da população à frente de seus próprios interesses. 

(Siga os comentários de Nuno Vasconcellos no twitter e no instagram: @nuno_vccls).

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