O governador de São Paulo, João Doria, se reuniu na manhã desta terça-feira, no Palácio dos Bandeirantes, com um grupo de representantes do comércio varejista, das farmácias, da indústria de alimentos, dos produtores de medicamentos e das empresas de logística.
A reunião aconteceu pouco antes do anúncio da primeira morte provocada pelo novo Coronavírus em São Paulo e no Brasil.
A intenção de Doria foi a de estimular a adoção de mecanismos que assegurem a normalidade do abastecimento de alimentos , de produtos de higiene e de remédios num momento em que a população — movida pelo receio natural que um episódio como esse gera nas pessoas — procura se antecipar à escassez que pode vir e tenta garantir que os produtos essenciais não faltem nas prateleiras. A iniciativa é válida e correta. Se terá sucesso ou não, são outros quinhentos.
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Antes mesmo que ocorresse a primeira morte, já era possível perceber que os safanões que a tal “mão invisível” insiste em dar no mercado iam muito além do preço extorsivo
que o comércio têm cobrado pelos frascos de álcool em gel.
Na maioria dos casos, os aumentos desse produto ultrapassam a fronteira da oportunidade e caem na vala comum do simples oportunismo — e provam que a tal da “lei de Gerson” está longe de ser revogada no país. Paciência. Assim como o governo, o mercado brasileiro ainda tem muito o que evoluir.
Filas Quilométricas
Os movimentos do mercado , que muitas andam na direção contrária à que o bom senso recomenda, podem dar ao problema uma dimensão maior do que ele já tem. No final da tarde da última segunda-feira, num importante centro atacadista na zona sul de São Paulo, o movimento estava tão incomum que sequer havia carrinhos disponíveis para quem chegava para fazer as compras.
O lugar estava repleto de pessoas interessadas, sobretudo, em estocar produtos de higiene pessoal e limpeza
e as filas — normalmente discretas nas tardes de segunda-feira — estavam quilométricas. É justamente esse tipo de situação o alvo da iniciativa de Doria.
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Todo mundo sabe que, a não ser nas ditaduras, governo algum tem a incumbência de imiscuir-se nos negócios das empresas privadas
a ponto de dizer quando podem e por quanto devem vender seus produtos.
Tudo o que o poder público pode fazer, até para não cair no ridículo como os governos da Venezuela e da Argentina tem caído diante das crises que enfrentam, é orientar os agentes econômicos na tentativa de manter a situação minimamente sob controle.
A intenção do governo de São Paulo foi apenas agir para impedir que a situação fique incontrolável e que o pânico leve as pessoas a transformar uma crise sanitária numa crise de abastecimento — o que agravará ainda mais seu impacto sobre a economia.
O risco de se ultrapassar a linha
Se o governo de São Paulo, dentro de seu poder e de suas atribuições, se mantiver no papel de estimular os agentes econômicos a tomar decisões que evitem a bagunça, ótimo. Ele pode ir um pouco além do pedido e tomar decisões que beneficiem àqueles que colaborarem nesse momento.
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Isso é do jogo.
Avançar um passo além desse ponto, porém, é perigoso. A linha que separa a orientação mais enfática (como a que fez o governador) da intervenção que pessoas desmioladas propõem como solução para o Brasil não pode ser ultrapassada. Em hipótese alguma.
O Brasil ainda guarda lembranças desagradáveis do tempo em que Brasília, por meio da Superintendência Nacional do Abastecimento, Sunab, achava-se no direito de controlar o preço e a oferta de qualquer produto nas prateleiras dos supermercados.
A prática não deu certo naquela época, não dará certo agora e não derá certo nunca. Criada no governo João Goulart e reforçada no tempo dos governos militares, a Sunab é um dos exemplos cabais de burrice encontrados na história recente da gestão pública brasileira.
O órgão jamais foi capaz de fazer o que se propôs — e tudo o que conseguiu com seus tabelamentos foi dificultar a produção
e aumentar os preços das mercadorias no Brasil.
Se antecipar ao problema
O que faz a atitude de Doria se destacar em meio à mesmice que tem tomado conta do poder público do Brasil — onde as autoridades parecem ter medo de tomar decisões que chamem atenção seus atos — é justamente a capacidade de se antecipar ao problema .
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pessoal, mas jamais poderá ser acusado de se omitir ou de negligenciar a gravidade do problema. Em tempo: projetar a imagem do governante é uma decorrência natural do exercício do poder público. Se omitir ou negligenciar o problema é um defeito.
Seja como for, o governo de São Paulo tem, desde o início da crise, procurado se antecipar aos problemas e suas ações, de certa forma, têm sido cruciais para que a população não entre em desespero.
O infectologista David Uip , coordenador do Comitê de Contingência criado pelo governo paulista ainda em fevereiro passado, quando muitos ainda desdenhavam a ameaça trazida pelo Coronavírus, tem dito desde o início que os casos de infeção evoluiriam de acordo com o ciclo natural em pandemias desse tipo.
Agindo desde o primeiro momento em sintonia com o Ministério da Saúde, Uip tem dito que o desespero só servirá para tornar a adversidade mais grave . É preciso ter tranquilidade — o que é muito diferente de dar de ombro e tratar o problema com desdém.
Na terça-feira, ele apelou para que as pessoas doem sangue para evitar que os estoques, suficientes para uma semana, acabem de uma hora para outra. É melhor fazer isso agora do que esperar que a situação se torne crítica.
Progressão geométrica
Se forem tomadas as medidas preventivas possíveis, é de se esperar que o período mais agudo da pandemia , que ainda está longe de acontecer, seja abreviado. O problema está apenas no início.
O papel das medidas preventivas, como os cuidados com a higiene pessoal e a privação do contato com outras pessoas, é apenas o de reduzir o ritmo do contágio e diminuir o problema — sem ter o poder de eliminá-lo.
Com ou sem suspensão das aulas na rede pública, como ou sem a redução do fluxo de passageiros no sistema de transporte coletivo, com ou sem as mãos limpas com álcool em gel, o número de casos crescerá
em progressão geométrica e outras mortes, inevitavelmente, acontecerão.
No final, porém, o problema passará e tudo que restará será a lembrança de como as autoridades lidaram com a pandemia. A crise está apenas começando e, no rescaldo, um de seus saldos será o de mostrar à população como os homens públicos lidam com os problemas reais.
Nesse cenário, e diante da gravidade da situação, é inevitável comparar a atitude do governador de São Paulo com a do presidente da República .
Enquanto Doria tomou iniciativas para minimizar o problema , Jair Bolsonaro agiu como se a situação não exigisse cuidados especiais. E, num cenário em que as medidas para reduzir o nível do contágio incluem a abstinência de contatos com grandes grupos, compareceu à manifestação inoportuna que seus apoiadores realizaram no último dia 15.
Independente do que possa acontecer com a saúde do presidente, a atitude não ajudou em nada a melhorar a imagem de seu governo. Muito antes pelo contrário.
“Nós contra eles”
Embora possa ter agradado a seus apoiadores mais exaltados e menos racionais, a repercussão foi a pior possível.
Sobretudo entre aqueles que não se alinham nem com a extrema direita , capaz de aplaudir qualquer gesto do presidente, nem com a extrema esquerda, que o criticaria mesmo se ele passasse a despachar de dentro de uma bolha.
Tanto assim que, depois dela, o governo federal anunciou a criação de um grupo executivo para monitorar, além das atribuições do Ministério da Saúde, a evolução da pandemia.
O grupo, instalado muito depois que outros países onde o problema é menos grave do que o Brasil tomaram medidas semelhantes, será coordenado pelo chefe da Casa Civil , general Walter Braga Neto e terá a incumbência de orientar a política em relação às fronteiras e a de tomar medidas que reduzam o impacto da pandemia sobre o mercado.
Foi como se o treinador fizesse uma substituição num time que está perdendo a decisão do campeonato para tentar virar um jogo que, até ali, estava perdendo. Num momento em que a discussão política no Brasil tinha caído na mesmice e que tudo parecia ser resolvido na base do joguinho do “nós contra eles” surge uma crise real para mostrar que existe um jeito certo e um jeito errado de se fazer política.