Cerca de duas semanas atrás, o governo de São Paulo decidiu destinar R$ 30 milhões a medidas de contenção da doença que assusta o mundo, ficou decidido que quase metade do dinheiro, R$ 14 milhões, seria destinada a ações de comunicação. O valor, confirmado ao iG, na época, pelo coordenador do Centro de Contingência para o Coronavírus , David Uip , naquele momento parecia mais do que suficiente para orientar a população paulista sobre as medidas necessárias para evitar que a contaminação se alastrasse de forma mais acelerada. Na época, apenas um caso de infecção por coronavírus, que debilita o sistema respiratório das pessoas, havia sido diagnosticado em São Paulo . E a quantidade de pessoas sob observação, era de pouco mais de uma centena.

Escadas rolantes da estação Pinheiros do Metrô, em horário de pico
Ricardo Galuppo
Estação Pinheiros: para quem precisa do metrô, é quase impossível tomar providências para evitar aglomerações, medida recomendada para evitar a propagação do Coronavírus

Um dos mais experientes e respeitados infectologistas do mundo, Uip já sabia, na época, que aquilo era apenas o começo — e que a doença logo alcançaria números mais alarmantes. E alertava para o fato de que, pela forma de propagação, aquela era uma doença muito mais difícil de se controlar do que, por exemplo, a Zika e a Chikungunya — que assustaram o Brasil nos anos anteriores. Enquanto o vírus dessas doenças é transmitido por um agente externo, o mosquito Aedes aegypti, o coronavírus é passado de pessoa para pessoa por meio das gotículas de saliva ou de muco espalhadas por uma das funções mais vitais do organismo: a respiração.

CAMPANHA DE ESCLARECIMENTO

Nunca é demais insistir no fato de que os sintomas, como as pessoas mais bem informadas já sabem, são parecidos com os da gripe — e a tosse e os espirros, por expelirem mais gotículas, potencializam o risco de transmissão. Se para combater a Zika é preciso eliminar o mosquito, para conter o coronavírus são exigidos cuidados adicionais de higiene e medidas de restrição de contato.

Em resumo: pelo que se viu até agora, será necessário uma campanha de esclarecimento sobre as formas de contágio e medidas de prevenção muito maior do que aquela bancada pelos R$ 14 milhões já liberados pelo governo. Por uma razão simples: para conter a doença será necessário alterar a rotina, mudar hábitos e adotar medidas de proteção que, para muita gente, podem parecer exageradas. Apenas o esclarecimento permanente e a decisão de bater sempre na mesma tecla mostrarão que, embora não haja razão para desespero, também não é hora de dar de ombros e fingir que nada está acontecendo.

Alguns aspectos tornam o risco de contágio potencialmente mais grave numa cidade como São Paulo, onde as pessoas se locomovem de trem, de metrô e de ônibus que ficam abarrotados nos horários de pico. Isso torna quase impossível seguir uma das recomendações para a prevenção do contágio , que é a de evitar aglomerações .

MEDIDAS DE CONTENÇÃO

É possível tomar medias nesse sentido. Uma delas, por exemplo, foi o cancelamento das inoportunas manifestações contra o Congresso Nacional e o STF previstas para o próximo dia 15. Fazer isso fácil e só exige bom senso. Difícil, porém, é evitar que as pessoas se aglomerem nas estações de trem e de metrô nos horários de pico. Uma medida que pode ser tomada para reduzir, mas não eliminar o problema é recomendar que as empresas que não podem permitir que os funcionários trabalhem de casa durante o período mais agudo de contágio (que deve se estender pelos próximos dois meses) adotem horários diferentes umas das outras para seus expedientes.

Ao invés de todas começarem a funcionar mais ou menos no mesmo horário, como acontece atualmente, umas começariam às 7, outras às 8h, outras às 9h e assim por diante. O fato das pessoas poderem ir para o trabalho em horários diferentes, somado à redução do tempo entre um trem e outro, diluiria o fluxo de gente nas estações mais movimentadas como Sé, Luz e Pinheiros. É uma sugestão que precisa ser discutida, inclusive, sob a ótica de sua eficácia. Será que isso dá certo? Mas ela ou qualquer outra só terá efeito positivo de for precedida de uma intensa campanha de esclarecimento, que informe sobre os riscos oferecidos por essa epidemia.

Mesmo correndo o risco de ser repetitivo e de dizer aqui o mesmo que as autoridades de saúde e os outros meios de comunicação estão dizendo, é necessário manter as pessoas informadas sobre o problema — mas parece que nada mudou da semana passada para cá.

Reconhecida como uma pandemia pela Organização Mundial da Saúde , a doença causada pelo coronavírus e suas formas de contágio parecem ainda não ter metido medo nas pessoas. Embora o ritmo da evolução esteja dentro do esperado pelos infectologistas, os números assustam. De acordo com as previsões do Centro de Contingência, o número de casos em São Paulo, que era de apenas 1 no dia 25 de fevereiro e saltou para 44 no último dia 12 (no Brasil inteiro, eram 77 casos). Pelas previsões, o número de infectados apenas no estado de São Paulo pode alcançar perto de meio milhão de pessoas nos próximos quatro meses.

COLAPSO DO ATENDIMENTO

Se esses números forem confirmados, é grande o risco de levar a rede pública de saúde ao colapso. Não existe em São Paulo nem em qualquer outro lugar do país uma estrutura hospitalar suficiente para os casos que exigirão internação. Também não há leitos de UTI, equipados com respiradores artificiais que permitam a entubação pulmonar do paciente, como os exigidos pela doença.

O coronavírus se espalha com facilidade — e o caso do secretário de comunicação Fábio Wajngarten, está aí para nos mostrar que ela não poupa ninguém. São Paulo, por ser o estado mais populoso e pelas conexões que tem com o mundo, será o mais afetado pela doença — e, por isso mesmo, aquele que mais exige uma campanha permanente e esclarecedora, que mantenha a população informada sobre o que deve ser feito para que o problema não se torne maior do que precisa ser.  

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