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Ou seria um mal-entendido científico?

Impressão artística do asteroide interestelar Oumuamua
ESA/Hubble, NASA, ESO, M. Kornmesser
Impressão artística do asteroide interestelar Oumuamua

Na semana passada, muito se falou sobre a visita do asteroide Oumuamua ao nosso Sistema Solar. Até então, era uma interessante discussão científica sobre a origem do objeto, que teria vindo de outra estrela — o primeiro caso registrado na história. No entanto, a conversa tomou novos rumos quando dois cientistas de Harvard apresentaram uma nova hipótese: Oumuamua seria uma nave alienígena enviada à Terra .

Afinal, qual a resposta correta? Asteroide ou civilizações extraterrestres? Poderíamos até mesmo nos perguntar se a tal polêmica é válida do ponto de vista científico.


Entenda o problema


Em outubro de 2017, Karen Meech e Robert Weryk, da Universidade do Havaí, avistaram pela primeira vez o asteroide, batizado então de Oumuamua — algo como explorador , ou visitante , em havaiano. Eles concluíram rapidamente que o objeto deveria vir de outra parte de nossa galáxia, já que sua trajetória não representava uma órbita ao redor do Sol como outros corpos do nosso sistema.

Posteriormente, Marco Micheli e outros membros do mesmo grupo de trabalho notaram que a trajetória de Oumuamua não era apenas guiada pela força da gravidade. Alguma força externa deveria estar agindo para alterar o movimento do asteroide.

Os astrônomos propuseram então uma pequena emissão de matéria, como acontece em cometas. Essa emissão funcionaria como um leve jato, alterando a sua trajetória sutilmente, mas seria tão tênue que não fomos capazes de observá-la.


Solução alienígena


Foi na semana passada, então, que Shmuel Bialy e Abraham Loeb, de Harvard, apresentaram seu estudo. Segundo os autores, a alteração na trajetória de Oumuamua poderia ser resultado da pressão causada pela radiação solar, como se a própria luz do Sol estivesse empurrando o objeto.

Para que isso funcione, seria necessário que a densidade do asteroide fosse muito baixa. Desta maneira, o objeto poderia ser, ao invés de um asteroide, uma vela alienígena, enviada por outra civilização à Terra.

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Controvérsia científica?


A comunidade científica não gostou muito da solução apresentada. Não haveria quaisquer evidências para a solução alienígena, e a própria composição química de Oumuamua é consistente com diversos asteroides encontrados no Sistema Solar.

Aí mora o problema: os astrônomos de Harvard especulam sobre uma hipótese sem testá-la. A ideia da vela alienígena vem no final do artigo publicado, não no começo, e isso é uma inversão da metodologia científica.

Segundo o método científico, um estudo deve testar uma hipótese. Os experimentos devem confirmar ou não a hipótese, aprimorando cada vez mais o modelo que explica o fenômeno em questão.

Oumuamua está se afastando rapidamente de nós, e a ideia de um objeto construído por extraterrestres não poderá ser verificada. Desta forma, a hipótese não vem de ciência, mas de pura especulação.


A percepção pública do trabalho científico


Um das principais argumentos para a origem do objeto vem de astrônomos brasileiros: Felipe Almeida-Fernandes e Helio Jaques Rocha-Pinto, da UFRJ, analisaram o movimento de Oumuamua e concluíram que ele é consistente com a origem ao redor de uma estrela jovem: se por um lado o asteroide  não orbita o Sol, por outro parece orbitar o centro de nossa galáxia, a Via Láctea.

O resultado gerou uma forte reação nas redes sociais. Comentaristas argumentavam que um astrônomo brasileiro não teria capacidade para rebater uma “descoberta" de um cientista de Harvard, mesmo desconhecendo a solidez dos argumentos de cada um.

Nesses casos, vemos claramente a necessidade de uma educação científica: para que o público possa apreciar a ciência, é fundamental entender como ela é feita. Como diz Almeida-Fernandes, "a hipótese de se tratar de um artefato extraterrestre não é (e nunca será) testável, tornando impossível uma conclusão científica que a favoreça". 

Realmente, o cientista de Harvard pode não estar errado, mas não podemos testar sua ideia. Isso tampouco significa que ele está certo. 

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