
Um novo estudo publicado nesta quarta-feira (23), concluiu que o uso de paracetamol, princípio ativo do Tylenol, durante a gravidez não causa autismo ou transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) nas crianças.
A discussão ganhou força em setembro de 2025, depois que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump , afirmou que o medicamento poderia estar ligado a um risco maior de autismo.
Neste novo estudo, os pesquisadores afirmam que a possível relação entre o uso de paracetamol durante a gravidez e autismo ou TDAH pode ter sido superestimada em pesquisas anteriores devido a problemas nos métodos utilizados.
Uma questão tão debatida merece mais do que manchetes — merece evidências sólidas. Nossos resultados mostram que a aparente associação entre a exposição ao paracetamol durante a gravidez e o autismo ou TDAH diminui à medida que a qualidade dos métodos utilizados nas pesquisas melhora. Isso coloca em dúvida a interpretação de que existe uma relação de causa e efeito e reforça a importância de decisões baseadas em evidências durante a gravidez. Hoda Tayebi Hillali, autora do estudo e mestre pela Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha.
Nas maiores análises revisadas pelo trabalho, até 222.096 crianças foram avaliadas em relação ao autismo e 2.668.689 em relação ao TDAH.
Quando os pesquisadores reuniram todos os estudos, sem considerar a qualidade dos métodos usados, encontraram pequenas associações entre o uso de paracetamol durante a gravidez e os dois transtornos. Porém, quando os estudos são mais rigorosos, a associação do medicamento e os transtornos diminuem. Em alguns casos, os resultados chegaram a ficar próximos de zero.
Na avaliação dos pesquisadores, os resultados mostram que parte da conexão vista anteriormente pode estar relacionada à forma como os estudos foram feitos, e não necessariamente a um efeito do medicamento sobre o desenvolvimento das crianças.
O paracetamol é usado durante a gravidez para tratar situações como dor e febre, que podem estar relacionadas a infecções e outras doenças. Essas condições podem influenciar o desenvolvimento da criança, segundo a pesquisa.
Os autores ressaltam, no entanto, que novas pesquisas ainda são necessárias para entender melhor fatores como a fase da gravidez em que o medicamento foi utilizado, a quantidade tomada, por quanto tempo e o motivo do uso.
Polêmica de Trump
A possível relação entre o uso de paracetamol durante a gravidez e o desenvolvimento do cérebro das crianças é investigada há pelo menos duas décadas.
Em 2021, um documento assinado por 91 pesquisadores e profissionais de saúde defendeu o uso cuidadoso do paracetamol durante a gravidez. O texto afirmou que a exposição ao medicamento poderia estar relacionada a alguns problemas no desenvolvimento.
As conclusões foram contestadas por organizações médicas especializadas e pesquisadores, que mencionaram limitações em parte dos estudos usados para sustentar essa preocupação.
O assunto voltou a ganhar destaque em 2025, após declarações do presidente dos Estados Unidos sobre o uso de paracetamol durante a gravidez e uma possível relação com o autismo. Na mesma ocasião, a Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora estadunidense, iniciou um processo relacionado às informações presentes nas embalagens do medicamento.
No dia seguinte, a Agência Europeia de Medicamentos afirmou que o paracetamol continuava sendo uma opção importante para o tratamento de dor e febre durante a gravidez. A agência também informou que sua avaliação das pesquisas científicas não havia encontrado evidências que sustentassem a afirmação de que o medicamento causaria autismo.