José Augusto Petrillo fazendo sketch
Arquivo Pessoal
José Augusto Petrillo fazendo sketch

Em uma época em que ferramentas de inteligência artificial conseguem criar imagens em poucos segundos, parar diante de uma construção, observar seus detalhes e registrá-la manualmente pode parecer um processo de outro tempo.

É justamente nessa relação entre tempo, olhar e evocação, que o artista visual e professor José Augusto Petrillo constrói o livro Entre Traços de Memória. Produzida pela Old Man, a obra propõe um olhar sobre a cidade a partir da contemplação, da lembrança e do desenho manual. 

A publicação transforma ruas, fachadas e espaços da cidade em registros feitos à mão livre. O projeto, apoiado pela Lei Aldir Blanc, busca valorizar o patrimônio arquitetônico e estabelecer uma relação afetiva entre os moradores e os lugares que fazem parte de sua história.

Mais do que reproduzir uma construção, Petrillo utiliza o sketch como uma maneira de registrar aquilo que observa no momento em que está diante da cidade. Para ele, existe uma diferença entre o desenho de observação e o sketch arquitetônico.

Artista Petrillo desenhando cidade de Juiz de Fora . Foto: Petrillo
Artista Petrillo desenhando cidade de Juiz de Fora . Foto: Petrillo
Artista José Petrillo desenhando cidade. Foto: Petrillo
Artista José Petrillo desenhando cidade. Foto: Petrillo
Artista José Petrillo desenhando cidade. Foto: Petrillo


Os chamados sketches são desenhos rápidos e espontâneos, feitos a partir da observação direta de um lugar ou objeto, geralmente sem a preocupação de reproduzir todos os detalhes com precisão. 

@portal_ig O desenho à mão parte da observação direta e transforma a relação com a arquitetura em registro. No projeto Entre Traços de Memória, José Augusto Petrillo utiliza o sketch para retratar diferentes espaços de Juiz de Fora. 🔗 Veja as notícias do iG e acesse o canal do WhatsApp no link da bio 📲 📹 iG #iG ♬ som original - iG


O desenho de observação é mais uma coisa mais estática. E o desenho de sketch é um desenho mais espontâneo e mais rápido. Petrillo


Segundo o artista, seus desenhos funcionam como registros rápidos e sintéticos daquilo que está diante de seus olhos. A escolha pelo desenho manual também estabelece uma relação diferente com o espaço: antes de produzir a imagem, é preciso estar ali, observar e decidir o que merece ser registrado.

A discussão ganha outra dimensão diante da presença cada vez maior da inteligência artificial na arquitetura. Segundo o Royal Institute of British Architects (RIBA), 59% dos escritórios pesquisados em 2025 afirmaram utilizar IA, contra 41% em 2024. A tecnologia também vem sendo incorporada principalmente às etapas iniciais dos projetos, quando arquitetos exploram ideias e possibilidades visuais.

O avanço dessas ferramentas não elimina o desenho manual, mas coloca em evidência uma diferença fundamental entre os processos. Enquanto sistemas digitais podem gerar inúmeras imagens a partir de comandos, o sketch de Petrillo nasce da experiência direta com o lugar. O desenho não é apenas uma representação de uma construção: é também o registro de um momento em que artista e cidade estiveram um diante do outro.

A relação com o tempo aparece também na escolha dos lugares retratados. Petrillo decidiu desenhar espaços que conheceu e que fizeram parte de sua própria experiência em Juiz de Fora. O critério fez com que algumas construções que já haviam sido demolidas ficassem de fora do projeto.

Mas houve um lugar que acabou reforçando justamente a importância do registro. Uma fábrica de plásticos que Petrillo havia desenhado foi demolida cerca de dois meses depois. O sketch passou, então, a representar uma paisagem que já não fazia mais parte da cidade.

Então, até eu desenhei a fábrica de plásticos e que, 2 meses depois, ela foi pro chão. E aí foi um registro muito interessante, porque você eterniza um lugar. Petrillo


O episódio ajuda a explicar a proposta central do livro. A cidade é constantemente modificada por demolições, novas construções e transformações urbanas. Nesse processo, o desenho pode funcionar como uma espécie de documento visual, preservando não apenas a arquitetura, mas a maneira como determinado espaço era percebido e vivido.

É nesse ponto que o trabalho de Petrillo se aproxima também do urbanismo. Seus desenhos não isolam completamente os edifícios da paisagem. Pessoas, postes e outros elementos aparecem nos sketches porque fazem parte da cidade real, aquela que é ocupada, atravessada e transformada diariamente.

O objetivo, segundo o artista, não é produzir uma cidade idealizada ou perfeitamente limpa, mas registrar o ambiente urbano como ele existe para quem o habita.

@portal_ig Um dos desenhos de José Augusto Petrillo ganhou um significado diferente após a demolição da construção retratada. O registro passou a preservar a imagem de um espaço que já não faz mais parte da paisagem de Juiz de Fora. 🔗 Veja as notícias do iG e acesse o canal do WhatsApp no link da bio 📲 📹 iG #iG ♬ som original iG


Porque eu acho que a gente tem que mostrar a cidade, a cidade vivida, a cidade que é usada e colocar pessoas, figuras humanas pra que a gente tenha dimensão da cidade. Petrillo



A presença humana é importante porque também ajuda a construir a memória afetiva dos espaços. Uma escola pode ser lembrada por quem estudou nela. Uma rua pode remeter à infância. Uma construção pode fazer parte da rotina de alguém durante décadas. É uma memória que não está necessariamente relacionada à importância histórica ou arquitetônica de um imóvel, mas à experiência de quem vive ao redor dele.

Para Petrillo, essa dimensão afetiva é parte fundamental da proposta de Entre Traços de Memória.

A exposição tem o intuito de registrar a cidade e também um pouco de preservar a memória, mas não somente a memória do patrimônio, mas uma memória afetiva. Petrillo


O artista relaciona essa memória ao sentimento de pertencimento. Ao reconhecer no livro um colégio, uma rua ou uma construção pela qual passou durante a vida, o morador também se reconhece naquele território.

Essa perspectiva amplia o papel do desenho. Ele deixa de ser apenas uma técnica ensinada em cursos de arquitetura, design ou artes visuais e passa a funcionar como ferramenta de documentação e percepção urbana. 

O livro também possui uma proposta educativa. Parte da tiragem será distribuída gratuitamente em escolas públicas de Juiz de Fora, com o objetivo de aproximar estudantes do desenho arquitetônico e estimular reflexões sobre patrimônio, memória e preservação urbana.

Entre Traços de Memória propõe  olhar com atenção antes de produzir. Cada sketch exige que alguém esteja diante de uma paisagem, escolha um ponto de vista e transforme aquela experiência em linhas. O trabalho de Petrillo parte de outra pergunta: o que acontece quando alguém decide simplesmente parar diante dela e desenhá-la?

Em Entre Traços de Memória, a resposta está nos próprios traços: registrar aquilo que existe hoje para que, mesmo quando a cidade mudar, parte daquela experiência permaneça.

@portal_ig Exposição reúne sketches de José Augusto Petrillo que registram a arquitetura e a memória urbana de Juiz de Fora. 🔗 Veja as notícias do iG e acesse o canal do WhatsApp no link da bio 📲 📹 iG #iG ♬ som original iG


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