
Em uma época em que ferramentas de inteligência artificial conseguem criar imagens em poucos segundos, parar diante de uma construção, observar seus detalhes e registrá-la manualmente pode parecer um processo de outro tempo.
É justamente nessa relação entre tempo, olhar e evocação, que o artista visual e professor José Augusto Petrillo constrói o livro Entre Traços de Memória. Produzida pela Old Man, a obra propõe um olhar sobre a cidade a partir da contemplação, da lembrança e do desenho manual.
A publicação transforma ruas, fachadas e espaços da cidade em registros feitos à mão livre. O projeto, apoiado pela Lei Aldir Blanc, busca valorizar o patrimônio arquitetônico e estabelecer uma relação afetiva entre os moradores e os lugares que fazem parte de sua história.
Mais do que reproduzir uma construção, Petrillo utiliza o sketch como uma maneira de registrar aquilo que observa no momento em que está diante da cidade. Para ele, existe uma diferença entre o desenho de observação e o sketch arquitetônico.
Os chamados sketches são desenhos rápidos e espontâneos, feitos a partir da observação direta de um lugar ou objeto, geralmente sem a preocupação de reproduzir todos os detalhes com precisão.
O desenho de observação é mais uma coisa mais estática. E o desenho de sketch é um desenho mais espontâneo e mais rápido. Petrillo
Segundo o artista, seus desenhos funcionam como registros rápidos e sintéticos daquilo que está diante de seus olhos. A escolha pelo desenho manual também estabelece uma relação diferente com o espaço: antes de produzir a imagem, é preciso estar ali, observar e decidir o que merece ser registrado.
A discussão ganha outra dimensão diante da presença cada vez maior da inteligência artificial na arquitetura. Segundo o Royal Institute of British Architects (RIBA), 59% dos escritórios pesquisados em 2025 afirmaram utilizar IA, contra 41% em 2024. A tecnologia também vem sendo incorporada principalmente às etapas iniciais dos projetos, quando arquitetos exploram ideias e possibilidades visuais.
O avanço dessas ferramentas não elimina o desenho manual, mas coloca em evidência uma diferença fundamental entre os processos. Enquanto sistemas digitais podem gerar inúmeras imagens a partir de comandos, o sketch de Petrillo nasce da experiência direta com o lugar. O desenho não é apenas uma representação de uma construção: é também o registro de um momento em que artista e cidade estiveram um diante do outro.
A relação com o tempo aparece também na escolha dos lugares retratados. Petrillo decidiu desenhar espaços que conheceu e que fizeram parte de sua própria experiência em Juiz de Fora. O critério fez com que algumas construções que já haviam sido demolidas ficassem de fora do projeto.
Mas houve um lugar que acabou reforçando justamente a importância do registro. Uma fábrica de plásticos que Petrillo havia desenhado foi demolida cerca de dois meses depois. O sketch passou, então, a representar uma paisagem que já não fazia mais parte da cidade.
Então, até eu desenhei a fábrica de plásticos e que, 2 meses depois, ela foi pro chão. E aí foi um registro muito interessante, porque você eterniza um lugar. Petrillo
O episódio ajuda a explicar a proposta central do livro. A cidade é constantemente modificada por demolições, novas construções e transformações urbanas. Nesse processo, o desenho pode funcionar como uma espécie de documento visual, preservando não apenas a arquitetura, mas a maneira como determinado espaço era percebido e vivido.
É nesse ponto que o trabalho de Petrillo se aproxima também do urbanismo. Seus desenhos não isolam completamente os edifícios da paisagem. Pessoas, postes e outros elementos aparecem nos sketches porque fazem parte da cidade real, aquela que é ocupada, atravessada e transformada diariamente.
O objetivo, segundo o artista, não é produzir uma cidade idealizada ou perfeitamente limpa, mas registrar o ambiente urbano como ele existe para quem o habita.
Porque eu acho que a gente tem que mostrar a cidade, a cidade vivida, a cidade que é usada e colocar pessoas, figuras humanas pra que a gente tenha dimensão da cidade. Petrillo
A presença humana é importante porque também ajuda a construir a memória afetiva dos espaços. Uma escola pode ser lembrada por quem estudou nela. Uma rua pode remeter à infância. Uma construção pode fazer parte da rotina de alguém durante décadas. É uma memória que não está necessariamente relacionada à importância histórica ou arquitetônica de um imóvel, mas à experiência de quem vive ao redor dele.
Para Petrillo, essa dimensão afetiva é parte fundamental da proposta de Entre Traços de Memória.
A exposição tem o intuito de registrar a cidade e também um pouco de preservar a memória, mas não somente a memória do patrimônio, mas uma memória afetiva. Petrillo
O artista relaciona essa memória ao sentimento de pertencimento. Ao reconhecer no livro um colégio, uma rua ou uma construção pela qual passou durante a vida, o morador também se reconhece naquele território.
Essa perspectiva amplia o papel do desenho. Ele deixa de ser apenas uma técnica ensinada em cursos de arquitetura, design ou artes visuais e passa a funcionar como ferramenta de documentação e percepção urbana.
O livro também possui uma proposta educativa. Parte da tiragem será distribuída gratuitamente em escolas públicas de Juiz de Fora, com o objetivo de aproximar estudantes do desenho arquitetônico e estimular reflexões sobre patrimônio, memória e preservação urbana.
Entre Traços de Memória propõe olhar com atenção antes de produzir. Cada sketch exige que alguém esteja diante de uma paisagem, escolha um ponto de vista e transforme aquela experiência em linhas. O trabalho de Petrillo parte de outra pergunta: o que acontece quando alguém decide simplesmente parar diante dela e desenhá-la?
Em Entre Traços de Memória, a resposta está nos próprios traços: registrar aquilo que existe hoje para que, mesmo quando a cidade mudar, parte daquela experiência permaneça.




