Pesca colaborativa entre botos e pescadores é passada de geração em geração há anos na região
Ignácio Moreno/Projeto Botos da Barra/Ceclimar/UFRGS/Divulgação
Pesca colaborativa entre botos e pescadores é passada de geração em geração há anos na região

Um boto foi gravado enquanto perseguia uma tainha nas águas das praias de Garopaba, Litoral Sul de Santa Catarina. A cena ocorreu próxima de barco de pescador e chamou atenção pelo comportamento, à primeira vista, inusitado, mas a relação entre os animais e os pescadores é tradicional na região.

As imagens de drone mostram o animal perseguindo, bloqueando e redirecionando o peixe em direção ao barco do pescador. Assista abaixo:


Apesar de parecer mais um flagrante raro da natureza, a pesca colaborativa entre botos e pescadores foi registrada como patrimônio imaterial no Brasil, em uma prática coordenada para captura das tainhas.

Garopaba (SC), apesar de próxima, não faz parte do território onde o bem cultural foi delimitado e reconhecido pelo  Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).


“Pesca com Botos no Sul do Brasil”

O termo nomeia a prática colaborativa reconhecida como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Iphan entre os litorais Sul de Santa Catarina e o Norte do Rio Grande do Sul, sobretudo em Laguna (SC), Araranguá (SC) e Tramandaí (RS).

No dia 11 de março deste ano, o Iphan reconheceu a prática tradicional entre os pescadores artesanais e os botos. A dinâmica é a seguinte: os botos conduzem cardumes de peixes e, conforme alguns movimentos e aproximações, os pescadores lançam as tarrafas (redes).

Em troca, o animal consegue capturar os peixes vulneráveis, que se dispersam do cardume e escapam da rede.

Segundo o Projeto Botos da Barra, iniciativa de pesquisa e extensão com apoio do Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ceclimar/UFRGS), a prática é um conhecimento cultural passado de geração em geração, tanto entre os botos quanto entre as famílias de pescadores.

Em Tramandaí (RS), a espécie é botos-de-Lahille (Tursiops gephyreus). Conforme o estudo “A dinâmica da pesca de tarrafa e a influência do boto-de lahille tursiops gephyreus lahille, 1908 na barra do rio Tramandaí”, a coordenação com os animais trouxe maior eficiência à pesca, tanto em tamanho das tainhas quanto em quantidade.

Os botos aumentaram efetivamente a eficiência da pesca, com a redução do esforço de pesca e um aumento no número de capturas de pescado em ambos os municípios    Kevin Stacke Christmann, autor da monografia pela UFRGS


Ou seja, é um fenômeno raro, regionalizado, que surge de uma interação cooperativa entre gerações de botos e famílias de pescadores entre os litorais do RS e de SC.

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