
Gravações de conversas e áudios de WhatsApp obtidos e divulgados pela revista Piauí nesta quarta-feira (3) mostram Fabiano Zettel, cunhado e apontado como operador financeiro de Daniel Vorcaro, afirmando que o ex-dono do Banco Master teria guardado R$ 20 bilhões no exterior. A declaração foi feita em dezembro do ano passado, após a liquidação do banco e a primeira prisão de Vorcaro, durante conversa com uma mulher identificada como Marina, com a qual Zettel mantinha um relacionamento.
O marido de Natália Zettel Vorcaro também foi preso pela Polícia Federal, no âmbito da Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de fraudes no sistema financeiro envolvendo o Banco Master.
Ele guardou 20 bi no exterior e não consegue ir lá, não consegue gastar, não consegue pegar. Porque se pegar, é preso de novo Fabiano Zettel, em gravação recuperada pela PF
Ainda segundo ele, Vorcaro estava sem acesso aos recursos e enfrentava dificuldades até para pagar advogados. O dono do Master foi preso pela PF na noite de 17 de novembro, quando tentava embarcar para Dubai, em Guarulhos, São Paulo. Doze dias depois, teve a prisão preventiva revogada.
A declaração foi feita nesse período. Em março deste ano, ele voltou para a prisão na mesma operação que também acabou prendendo Zettel.
Master à beira da liquidação
A afirmação sobre os “20 bi” ocorreu semanas depois de Zettel demonstrar preocupação com o futuro do Master.
Em outubro, segundo os relatos registrados nas gravações, ele viajou ao exterior e contou posteriormente a Marina que havia escondido dinheiro por temer o bloqueio de seus bens caso o banco fosse liquidado.
Eu fui lá, escondi um dinheiro, porque se der tudo errado e der uma m* danada e tudo meu for bloqueado, eu tenho que ter um dinheiro pra poder continuar vivendo e mantendo as coisas Fabiano Zettel
Na véspera da liquidação do Master, Zettel estava em um voo de Brasília para São Paulo com Vorcaro e enviou um áudio a Marina dizendo que os dois aguardavam os acontecimentos. “Graças a Deus, a gente achou que ia estourar algo de ruim, mas hoje não estourou nada”, afirmou. No dia seguinte, 18 de novembro, o Banco Central decretou a liquidação do banco.
Vorcaro havia sido preso na noite anterior pela Polícia Federal, enquanto tentava embarcar para Dubai. Horas antes, ele havia se reunido com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para apresentar um plano de venda do Master para a Fictor. Segundo a reportagem, a empresa não tinha capital e patrimônio líquido suficientes para adquirir o banco. Vorcaro também havia informado que parte dos recursos viria de um investidor dos Emirados Árabes e que viajaria a Dubai para negociar o aporte.
Telefone apreendidos e bens bloqueados
Após a prisão do banqueiro, Zettel relatou a Marina que policiais haviam apreendido telefones e equipamentos e que contas e bens haviam sido bloqueados. Ele disse que mantinha um telefone escondido em um compartimento do carro e que estava tomando “todo o cuidado do mundo”. Nos dias seguintes, passou a visitar Vorcaro e acompanhar parte da situação jurídica do cunhado.
As conversas também revelam uma relação marcada por tensão entre os dois. Zettel descrevia Vorcaro como alguém que tomava decisões impulsivas e “esticava demais a corda”, colocando os negócios em risco. Ao mesmo tempo, mantinha-se à disposição para executar pagamentos, organizar documentos e resolver outras demandas do ex-banqueiro.
Segundo as gravações, Zettel dizia que a situação de Vorcaro havia se agravado a ponto de não haver dinheiro sequer para pagar advogados. O cunhado também relatava que bancos haviam cortado o crédito e que contas da família tinham sido encerradas.
Segundo a reportagem da Piauí, até aquele momento, as autoridades haviam localizado cerca de R$ 2 bilhões em imóveis e outros bens ligados a Vorcaro, destinados ao ressarcimento de credores prejudicados pela quebra do Master. Também foi localizado um fundo que não havia sido declarado pelo ex-banqueiro e que, segundo informações citadas, tinha ativos na casa do bilhão.
Pagamentos
As mensagens analisadas mostram ainda a participação de Zettel na operacionalização de pagamentos ligados ao grupo de Vorcaro. Ele recebia cobranças, solicitava recursos ao ex-banqueiro e efetuava pagamentos autorizados por ele. Entre os pagamentos mencionados estavam as parcelas depositadas a pedido de Flavio Bolsonaro (PL), candidato à presidência da República, para o filme Dark Horse, cinebiografia do seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Também há repasses a advogados, auxiliares e outros personagens que aparecem nas investigações sobre o caso Master.
Zettel também aparece relacionado a empresas e fundos utilizados em negócios atualmente investigados. Ele era o único dono do fundo Leal, que controlava o Arleen, usado para adquirir uma participação no resort Tayayá. Também cabia a ele pagar serviços de Luiz Philippi Mourão, conhecido como Sicário, apontado pelos investigadores como integrante de um núcleo de monitoramento, obtenção de informações sigilosas, coação e intimidação, chamado de A Turma.
Depois da prisão de Vorcaro, Zettel passou a tentar se desvincular das atividades do cunhado. Dizia que havia deixado o Banco Master em 2024 e que empresas como a Moriah Investimentos eram negócios próprios. As mensagens, contudo, indicariam que Vorcaro continuava autorizando pagamentos e tomando decisões relacionadas às empresas.
Vorcaro e Zettel permanecem detidos.
Vorcaro tenta negociar um acordo de delação premiada , mas até agora não teria revelado o caminho dos recursos mantidos no exterior.