
A BR-393, conhecida como Rodovia Lúcio Meira ou Rodovia do Aço, volta a apresentar graves problemas estruturais no trecho entre Três Rios e Volta Redonda, no interior do Rio de Janeiro. Desde o fim da concessão à iniciativa privada, em junho de 2025, motoristas relatam piora acelerada das condições de tráfego, com buracos, falhas na sinalização, mato alto e ausência de serviços de apoio, como guinchos e atendimento emergencial.
Motoristas afirmam que, na prática, a interrupção da gestão privada trouxe alívio no custo da viagem, mas devolveu à rodovia problemas que até então eram considerados superados durante o período de concessão.
Após a decretação do fim do contrato da União com a concessionária K-Infra, a rodovia passou a ser administrada pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), sem cobrança de pedágio, enquanto se discute um novo modelo de concessão.
Onde fica e qual a importância da BR-393
A estrada é uma das principais ligações logísticas do Sul Fluminense e conecta polos industriais, áreas agrícolas e cidades históricas do interior do Sudeste brasileiro.

Inaugurada na década de 1950, a BR-393 foi construída para integrar o interior do Rio de Janeiro a Minas Gerais e ao Espírito Santo. Com cerca de 200 quilômetros de extensão, a estrada liga Cachoeiro de Itapemirim, no interior capixaba, a Volta Redonda, cidade fluminense, passando por outras cidades do interior do Rio de Janeiro, como Sapucaia, Três Rios, Paraíba do Sul, Vassouras e Barra do Piraí, além de se conectar às rodovias BR-040 e BR-116, duas das mais importantes do país.
Ao longo das décadas, virou rota alternativa para quem busca evitar o tráfego intenso da Região Metropolitana do Rio de Janeiro e também caminho para escoar a produção industrial e agrícola do Sul Fluminense. O aumento do fluxo de veículos, no entanto, sempre exigiu manutenção constante, o que nem sempre ocorreu de forma regular.
Mudanças após a privatização
Antes da concessão iniciada em 2018, a BR-393 acumulava histórico de acidentes, pavimento deteriorado e infraestrutura precária. A privatização trouxe obras de recuperação e maior presença de equipes de conservação, o que reduziu as críticas dos motoristas por um período. Esse cenário começou a mudar com os questionamentos sobre o cumprimento do contrato.

Fim da concessão e retorno dos problemas
A concessão à empresa K-Infra passou a ser alvo de processos da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), que apontaram falhas como buracos recorrentes, trincas no pavimento, problemas de drenagem e atrasos em obras previstas. Em junho de 2025, o Governo Federal decretou o fim do contrato e retomou a gestão da rodovia.
Desde então, motoristas afirmam que a deterioração do asfalto se intensificou, especialmente no trecho entre Três Rios e Volta Redonda. Buracos reapareceram em áreas antes recuperadas, a vegetação avançou sobre acostamentos e placas de sinalização ficaram danificadas ou encobertas.
“Depois que acabou o pedágio, a rodovia ficou sem manutenção adequada. Hoje é desviar de buraco o tempo todo, sem qualquer tipo de apoio”, relatou um caminhoneiro que trafega diariamente pela via.

A falta de serviços de socorro agrava a situação. Em caso de pane mecânica ou acidente, motoristas ficam parados à margem da pista, muitas vezes sem acostamento.
Cenário crítico também em Minas Gerais
Em Minas Gerais, onde a BR-393 corta municípios da Zona da Mata, como Além Paraíba, Volta Grande, Estrela Dalva e Pirapetinga, crateras profundas, falta de acostamento e mato alto obrigam motoristas a invadir a contramão para escapar dos buracos.
Segundo relatos, a fiscalização acaba sendo realizada por policiais militares das cidades próximas.
“Todas as noites fazemos uma patrulha”, afirmou o sargento José Maçal, comandante do destacamento de Volta Grande. De acordo com ele, a baixa velocidade imposta pelas condições da pista já foi explorada por criminosos para a prática de assaltos.
Respostas e manutenção emergencial
A ANTT informou que, em conjunto com o Ministério dos Transportes, trabalha para que o projeto da Rodovia do Aço (BR-393/RJ) seja incluído na lista de concessões rodoviárias de 2026. Segundo o órgão, quando houver avanços no processo, as informações serão divulgadas à imprensa.
O DNIT confirmou que é o responsável atual pela administração da BR-393 e destacou que a retomada da rodovia ocorreu em caráter emergencial, conforme previsto na na lei, após o abandono progressivo das atividades de manutenção por parte da concessionária. De acordo com a autarquia, essa interrupção comprometeu diretamente a trafegabilidade, a limpeza da pista e a segurança viária.
Ainda segundo o DNIT, há contrato de manutenção no trecho entre os quilômetros 105 e 185 da rodovia. Além disso, a expectativa é que ainda neste mês seja assinado um novo contrato para os trechos que abrangem cidades como Volta Redonda e Três Rios. Nesse caso, a licitação encontra-se atualmente na fase de recursos.
A Polícia Rodoviária Federal informa que, considerando o longo período analisado e a ausência de parâmetros objetivos de comparação, houve momentos pontuais de aumento no número de acidentes globais no trecho da BR-393 entre Três Rios e Volta Redonda após junho de 2025.
Atualmente, os índices estão estabilizados em patamares semelhantes aos registrados antes da saída da concessionária. No entanto, foi constatado um acréscimo significativo no tempo de acionamento, resposta e finalização das ocorrências, uma vez que serviços como ronda, atendimento médico, guincho, limpeza, desobstrução de pista e sinalização, anteriormente prestados pela concessionária, deixaram de existir.
Essa situação representou um retrocesso na dinâmica dos atendimentos e na celeridade da prestação do serviço à sociedade.
Quanto aos pontos mais críticos da rodovia, a PRF aponta os trechos compreendidos entre os quilômetros 210 e 240, no município de Vassouras, e entre os quilômetros 240 e 270, em Barra do Piraí, onde se concentram os maiores índices de sinistralidade no segmento entre Três Rios e Volta Redonda.
A corporação destaca que a precariedade na manutenção do pavimento e as deficiências na sinalização contribuem para o aumento da insegurança dos usuários da via, embora ressalte que a causa preponderante de cada ocorrência deve ser analisada individualmente.
As atuais condições da BR-393 exigem atenção redobrada dos condutores, tanto na condução do próprio veículo quanto na adoção de direção defensiva.
A falta de manutenção da vegetação lindeira, aliada à sinalização deficiente, compromete a visibilidade e a segurança.
Além disso, a elevada deterioração do pavimento, com buracos e irregularidades, pode levar a desvios repentinos, ocasionando colisões frontais ou traseiras, saídas de pista e danos materiais, situações já registradas em diversas ocorrências.
A PRF informa ainda que já notificou os órgãos responsáveis sobre as condições da rodovia.
As tratativas tiveram início junto ao DNIT no Rio de Janeiro e avançaram para o DNIT em Brasília.
Diante da morosidade para superação dos entraves, o caso foi encaminhado aos Ministérios Públicos Federais com atribuição sobre os respectivos trechos.
Atualmente, o DNIT dividiu a BR-393 em dois blocos para melhor gerenciamento da manutenção. O primeiro, entre a divisa com Minas Gerais e Paraíba do Sul, já está em funcionamento e apresenta melhorias consideráveis.
O segundo bloco, que segue até o fim do trecho, teve a licitação finalizada recentemente e aguarda as últimas providências para início das intervenções, sem que a PRF tenha sido oficialmente notificada até o momento.
A reportagem tentou contato com a K-Infra por telefone e por e-mail, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.
Em um comunicado publicado no portal oficial, em julho de 2025, a empresa informou que deixou de exercer responsabilidade operacional sobre o trecho da BR-393 no Rio de Janeiro, entre os quilômetros 101 e 286, desde o dia 9 daquele mês, por determinação do DNIT.
Segundo a concessionária, a ordem incluiu o afastamento imediato das equipes das praças de pedágio, bases operacionais e outras instalações. A empresa afirma que isso impediu a prestação de serviços como socorro mecânico, atendimento hospitalar e fornecimento de informações.
A K-Infra afirma que uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) garantiria o retorno à gestão da rodovia, e que levou o caso à Justiça.
Impactos econômicos e futuro indefinido
A precariedade da BR-393 afeta diretamente a logística regional. Empresários do transporte relatam aumento no tempo de viagem, elevação dos custos operacionais e perdas de mercadorias. Para os municípios do Sul Fluminense, a situação representa um entrave ao desenvolvimento econômico.
Em outubro de 2025, prefeitos, empresários e representantes do comércio se reuniram em Barra do Piraí para discutir soluções emergenciais para a rodovia e pressionar o Governo Federal por investimentos.
A previsão oficial é que uma nova concessão seja lançada a partir de 2027, com contrato válido até 2050. O projeto, no entanto, prevê investimentos menores e apenas seis quilômetros de duplicação, o que gera preocupação entre lideranças regionais.
Enquanto governo, órgãos reguladores e empresas discutem responsabilidades e indenizações, quem depende da BR-393 diariamente vive sob risco constante.