Pesquisa sobre bullying foi feita com 2,7 mil alunos
Adriana Corrêa/Agência Senado
Pesquisa sobre bullying foi feita com 2,7 mil alunos

A maioria dos brasileiros acredita que os atos repetitivos de humilhação, intimidação e ameaças, que caracterizam o bullying, e essas mesmas agressões no ambiente digital, o chamado cyberbullying, têm aumentado no país. E a preocupação entre famílias de que seus filhos sofram essa violência também é alta.

Apesar disso, a percepção é que ainda faltam ações efetivas de combate do problema. Os dados são de uma pesquisa inédita, obtida com exclusividade pelo GLOBO, que alerta para a gravidade dos efeitos dessas condutas em crianças e adolescentes se não forem tratadas com a devida importância.

Segundo o levantamento do Observatório Febraban - Pesquisa Febraban Ipespe "Bullying e Cancelamento: Impacto na vida dos brasileiros", 79% dos entrevistados acham que os casos de bullying cresceram muito no Brasil. A impressão sobe para 85% em relação a essas práticas através de redes sociais, celulares, plataformas de mensagens e jogos. E a preocupação com o tema cresce na mesma medida.

Entre os pais com filhos em idade escolar, 81% expressam o receio de que seus filhos sejam vítimas dessas práticas. Os que apontam maior preocupação são as mulheres (85%) e os mais jovens de 18 a 24 anos (90%). Para 75% dos entrevistados, atitudes que discriminam, humilham ou ridicularizam alguém não podem ser consideradas uma "brincadeira".

Apesar do impacto, quase metade dos entrevistados (49%) considera que o tema tem sido tratado de forma insuficiente. Entre os mais jovens, de 18 a 24 anos, 57% acham que o assunto é tratado com descaso. A pesquisa foi realizada entre os dias 21 de maio e 2 de junho deste ano, com três mil pessoas nas cinco regiões do país.

"O que emerge do estudo é que os problemas de bullying e cyberbullying assumem um quadro dramático para crianças e jovens. E ameaçam o equilíbrio psicológico e a saúde mental deles, com indicativos de que também comprometem o desempenho escolar e as relações sociais. Lembrando que o estresse provocado por essas práticas ainda encontra esses seres em uma fase frágil de desenvolvimento", afirma o sociólogo e cientista político Antonio Lavareda, presidente do Conselho Científico do Ipespe.

Cor e etnia foram citadas pelos entrevistados como os principais fatores alvo de bullying, seguidas da orientação sexual. Há menções também ao aspecto físico ou a padrões de beleza. Já entre as possíveis motivações para o comportamento impróprio, os entrevistados citaram busca de popularidade, afirmação de poder e brincadeira inconsequente.

Entre os mais jovens, 42% disseram já ter sido alvo de bullying ou conhecem alguém vítima desse assédio. A escola foi apontada como o principal local de ocorrência por 63% dos entrevistados, seguida do ambiente digital (25%).

"Os dados reforçam o que vemos. As pessoas hoje caminham para uma compreensão do que é o bullying, e a preocupação dos pais, das crianças e dos adolescentes com a escola tem razão de ser. Mesmo os fenômenos que são virtuais costumam envolver pessoas com as quais esses jovens convivem na escola, com seus pares" , afirma a professora e pesquisadora do Departamento de Psicologia da Educação da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Luciene Tognetta.

Por outro lado, diz, as escolas ainda não sabem lidar com essa questão e só "apagam o fogo".

"Mas o bullying muitas vezes não dá tempo de apagar, porque pega fogo e destrói, só sobram cinzas. Aí não tem mais o que fazer. É uma preocupação de que as escolas estão se dando conta agora, porque estão sendo forçadas a lidar com situações de ansiedade, depressão, automutilação, ideação suicida, relacionadas a posturas intrapessoais e interpessoais muito próximas, que caracterizam o bullying", afirma a pesquisadora.

Nos casos em que as vítimas fazem as denúncias, elas costumam recorrer mais a familiares e amigos (32%), depois a autoridades policiais (28%) e às próprias redes sociais, de acordo com a pesquisa. Para os entrevistados, a solução passa mais por ações de conscientização e apoio psicológico e judicial do que por medidas punitivas.

"As campanhas e ações preventivas devem ser um trabalho contínuo e permanente para mudar um comportamento social que existe já há muito tempo. É necessário ter o investimento em políticas públicas de saúde para o combate dessas ações", diz Antônio Geraldo, da ABP, que promoveu recentemente uma campanha de combate ao bullying e ao cyberbullying com o tema "Delete essa ideia".

O desconhecimento na sociedade ainda é frequente, inclusive sobre a existência de um aparato legal sobre o tema. Segundo o estudo Febraban/Ipespe, a maioria dos entrevistados (67%) não sabia da sanção da Lei do Crime de Stalking, no ano passado, que tipifica o crime de perseguição.
Luciene, da Unesp, lembra que não basta a existência da lei. E cita ainda a lei de combate ao bullying, de 2015, que não alcançou os efeitos esperados:

"Não adianta termos lei sem aplicabilidade. Precisamos que as escolas a incorporem nos seus currículos. É preciso inseri-la na grade, de verdade, sem que seja apenas uma justaposição de matérias. A mudança tem que ser no cotidiano. E com políticas públicas educacionais organizadas para a convivência."

'Cancelamento' é menos conhecido

O estudo também levantou informações sobre o entendimento dos brasileiros sobre a chamada "cultura do cancelamento". O termo ainda é bem menos conhecido do que bullying ou cyberbullying, principalmente entre os mais velhos - quase metade dos entrevistados (46%) afirma não saber o que é, e 23% afirmam já ter ouvido falar, mas não conhecem bem, contra 22% que desconhecem o significado de bullying ou cyberbullying.

A maioria acredita que se trata de uma forma de chamar as pessoas à responsabilidade sobre como elas se comportam e o que publicam nas redes sociais (74%). E 73% consideram que as situações do tipo aumentaram nos últimos anos. Por outro lado, também é alto o percentual dos que veem como uma forma de censura, ou um termo equivalente à perseguição e intolerância, o que reforça a falta de familiaridade com o tema.

Pessoas famosas foram citadas como o principal alvo de cancelamento (39%) - o maior recall espontâneo foi o da cantora e ex-BBB Karol Conká, com 30% das menções. Mas as pessoas comuns que estão nas redes sociais não ficaram muito atrás (36%).

Para coibir esse comportamento, a maioria acredita que a solução passa por responsabilizar as próprias redes sociais, através de seus canais de denúncia, e pelo trabalho de associações e serviços especializados.

"Esses temas provavelmente ainda vão crescer muito nos próximos anos", opina Lavareda.  "No futuro, em outra pesquisa, será interessante ver o quanto as pessoas estão mais ou menos seguras em relação aos caminhos de prevenção tanto em relação ao bullying quando ao cancelamento. E se a lei contra o crime de stalking pegou ou não pegou."

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