Thamires (centro) ao lado da irmã e da mãe
O Globo/Reprodução
Thamires (centro) ao lado da irmã e da mãe

"Fiquem em casa, se preservem e cuidem dos seus ao máximo. Não espere perder um ente querido para esta doença e pensar que essa perda poderia ter sido evitada. E sempre que puderem, falem o quanto amam cada pessoa da sua família. Nunca se sabe quando será a última vez". O desabafo, quase que como uma súplica, é de alguém que conhece a dor e a tristeza causadas pela Covid-19. Em menos de dois meses, a assistente social Thamires da Silva Netto, de 29 anos, viu a mãe, a irmã e três tios serem vítimas da doença que já matou 180 mil pessoas em todo o país , sendo 23.740 no Rio de Janeiro.

As mortes da mãe e da irmã ocorreram num intervalo de 14 dias.

— Primeiro foram os meus tios, depois minha mãe e minha irmã. É um sentimento devastador, me sinto destruída por dentro. A sensação é que perdi tudo de uma só vez. Éramos muito próximos. Perdi minhas referências, quem eu tinha de mais valor desde que me entendo por gente — lamenta Thamires, que mora em Duque de Caxias, Baixada Fluminense, e também teve Covid-19, mas com sintomas leves.

Em 23 de outubro, Rosangela Maria da Silva Ferreira, de 62 anos, morreu após uma semana no Hospital municipal São José, em Caxias. No início do mês seguinte, o marido de Rosangela, Milton Bastos Ferreira, de 66, também faleceu, na mesma unidade de saúde e sem saber da mulher. Thamires acredita que a mãe, a professora Rosalita da Silva Netto, de 60 anos, tenha sido infectada durante os trâmites de internação e de sepultamento da irmã e do cunhado, tios da jovem.

— Minha mãe, cinco dias depois do enterro, começou a sentir um cansaço extremo. Ela chegou a ficar internada no Hospital Pasteur, no Méier, mas teve uma piora no quadro dias após e precisou ser intubada. Dois dias depois, ela veio a óbito. Era minha melhor amiga, tudo que tinha. Pensei: como seria a minha vida dali para frente, sem ela? — lembra Thamires, que perdeu a mãe no dia 27 de novembro.

Naquela mesma semana, o pai de Thamires, o comerciário Jorge de Paula Netto, de 65 anos, também apresentou os primeiros sintomas da doença e precisou ser hospitalizado no dia 30 do mesmo mês. Ele ficou internado no Hospital Icaraí, em Niterói, até o dia 9 de dezembro. Jorge teve alta médica e se recupera bem em casa após a doença.

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Mas apesar da alegria pela liberação do pai, era a irmã de Thamires quem agora preocupava a família. No mesmo dia do sepultamento da mãe, a advogada Tatiane Netto, de 34 anos, teve febre alta. Começava ali mais um caso na família. Tatiane foi internada no Hospital Santa Bárbara, em Botafogo, em 6 de dezembro, também com Covid-19. Após cinco dias, a advogada perdeu a luta contra a doença.

— Acreditamos que ela tenho pego diretamente da minha mãe, porque ela que acompanhou sozinha todo o processo de internação. Ela quis me proteger, poupar a mim e ao meu filho, afilhado dela. No sábado (12), ela foi intubada por volta das 20h e, às 23h, ela veio a óbito. E ontem (domingo), eu enterrei também a minha irmã — diz Thamires, muito emocionada. — Minha mãe e minha irmã tinham sobrepeso. Os médico enfatizaram os riscos por isso, mas acreditavam que a Tatiane, por ser nova, conseguiria sair. Infelizmente ela não conseguiu.

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Neste domingo (13), dia do sepultamento de Tatiane, quem também morreu vítima da Covid-19 foi o tio paterno de Thamires, José Paulo Netto. O sepultamento foi realizado na tarde desta segunda-feira.

Hoje, ficaram as lembranças boas das "duas melhores amigas".

— Minha mãe tinha o sorriso fácil no rosto, muito amorosa. Era muito altruísta e generosa, ajudava até quem ela não conhecia. Uma mãe fenomenal, do bem., fora de série. Ela tinha 11 afilhados, que ela chamava de filhos do coração. O amor era tanto que não se restingia só a nós duas. Minha irmã era outra parceira de vida. Adorava cantar, era cantora. E trabalhava como empresária. Ela era extremamente talentosa, inteligente e muito amiga. Sempre fez tudo por nós.

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Na última sexta-feira (11), Thamires e o filho fizeram uma chamada de vídeo com Tatiane. O marido da advogada também participou. Foi a última vez que eles se falaram. Na rápida conversa, ela chegou a dizer "Tatiane já conseguiu", uma frase que sempre era dita pela mãe das irmãs em momentos difíceis. Dessa vez, a motivação não funcionou.

— Ela disse que queria voltar, ficou feliz de ver o sobrinho e reforçou que amava muito a gente. Ela falou que queria voltar logo para casa. Eu disse que ela voltaria, que era um questão de dias. Dei a noitícia da alta médica do nosso pai, pedimos muito para ela se manter forte.

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Enquanto a tão necessária vacina contra a Covid-19 não chega ao Brasil, os números de infectados e de mortos seguem crescendo e as aglomerações nas ruas também. Esse cenário revolta Thamires.

— A sensação de ver as pessoas ignorando a pandemia é de revolta, pois penso que tanta mortes e contágio poderiam ter sido evitados se as pessoas tivessem mais bom senso e fizessem o mínimo, como usar máscaras e álcool. Mas é uma revolta misturada com preocupação pelo risco que essas pessoas, inconsequentes, levam para suas famílias. São tantas vidas já perdidas, como as da minha família. Quando essas pessoas se vão, não tem mais volta — diz Thamires.

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Tatiane era assessora jurídica da Secretaria Municipal de Educação de Duque de Caxias. A prefeitura divulgou uma nota onde, "com imenso pesar e tristeza", lamenta "profundamente a irreparável perda desta profissional, vítima do novo coronavírus. Rogamos a Deus para que familiares e amigos encontrem Nele a força necessária para lidar com este momento, com sabedoria e coragem para seguir em frente".

A pasta também publicou uma homenagem: "Ela exercia a função de assessora especial de gabinete, onde desempenhou um trabalho de relevância e destaque em prol do desenvolvimento educacional. Tatiane também era membro da Comissão de Direito Administrativo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Duque de Caxias. Dona de uma sorriso único e de um nobre coração, Tati cumpriu a sua missão de maneira exemplar. A ela rendemos nosso agradecimento e reconhecimento", descreve a nota publicada nas redes da secretaria.

— Ela era uma pessoa muito importante para todos nós, sem dúvidas. Extremamente cooperativa com todos os colegas, fará muita falta. Era muito divertida, companheira, sempre disposta a ajudar. Uma pessoa maravilhosa. Será difícil, mas precisamos seguir em frente — afirma a secretária municipal de Educação de Caxias, Cláudia Viana.

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