Thaynná, de 24 anos, perdeu a mãe, Rosiléa Maria Cordeiro, de 44, vítima de Covid-19
Hermes de Paula / Extra
Thaynná, de 24 anos, perdeu a mãe, Rosiléa Maria Cordeiro, de 44, vítima de Covid-19

Nos poucos dias em que dividiram o mesmo Centro de Terapia Intensiva, Rosiléa Maria Cordeiro, de 44 anos, e a filha Thaynná Cordeiro da Silva, de 24, traçavam planos para quando as duas se recuperassem da Covid-19 .

Falavam sobre a pequena Maria Cecília, filha de Thaynná, que tinha acabado de nascer, e a mãe compartilhava com a filha o desejo de comer melancia assim que chegasse em casa. Mas uma semana após Thaynná deixar o Hospital Darcy Vargas, em Rio Bonito, Rosiléa perdeu a luta contra o novo coronavírus (Sars-coV-2), após seu quadro se agravar e ela passar uma semana entubada.

"Ela falava que queria sair dali, falava das meninas. Estava com muita saudade da minha mais velha, era muito agarrada com ela. Falou que ia fugir comigo, quando eu tivesse alta e que estava com muita vontade de comer melancia. Pediu que a gente comprasse. Eu sabia que era a despedida dela", recorda Thaynná.

A saga da família começou no fim de julho. Thaynná deu entrada na unidade de saúde no dia 21 para dar à luz Maria Cecília. Três dias após o nascimento da menina, já em casa, começou a sentir os primeiros sintomas.

"Tinha uma mulher perto de mim que estava infectada, mas ninguém sabia. Fomos descobrir só no outro dia. Ouvi uma médica e uma enfermeira falando que ela estava doente. Era pequena a distância entre as camas e a gente usava o mesmo banheiro. Confesso que fiquei com medo. Na hora entrei em desespero", lembra a jovem.

Um dia após ter retornado para casa, o médico que primeiro atendeu Thaynná não desconfiou de Covid-19 , mas os sintomas pioraram. Após várias idas ao hospital e diferentes testes rápidos com resultados negativos, a jovem foi internada no último dia 2, quando um exame detectou anticorpos para a doença. No Darcy Vargas , ficou internada por 16 dias. Na maior parte do tempo, entubada. A bebê ficou sob os cuidados da avó, que uma semana após a internação da filha, também apresentou sintomas.

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Com Thaynná e Rosiléa doentes, toda a família foi testada. A recém-nascida testou positivo, assim como os outros dois filhos de Rosiléa, Késsia e Patrick. Já o marido de Thaynná, Felipe de Souza Lima, e a filha mais velha do casal, Maria Luiza, testaram negativo para a doença.

Para a família, a jovem ficou doente no Hospital Darcy Vargas, quando aguardava o parto. "Minha mãe tinha muito medo. Não me acompanhou nem no pré-natal e ainda assim a perdemos. Não tinha como eu ficar doente de outra forma. A gente se guardava muito e mesmo assim essa fatalidade custou a vida da minha mãe".

Isolamento seguido à risca

Desde o início da pandemia, os cuidados com a limpeza foram reforçados na casa de Rosiléa - proporcionais ao medo que sentia de ela ou alguém da família adoecer. Cada um passou a ter seus próprios talheres, copos e pratos. As roupas eram separadas na hora de lavar, e quando Felipe, marido de Thaynná, chegava do trabalho, trocava de roupa na varanda e seguia direto para o banho.

O isolamento social era seguido à risca. Desde março, Rosiléa saía de casa só uma vez ao mês, ia ao banco para receber a pensão, e de lá para o mercado.

Rosiléa foi sepultada ontem. Pelos dados da Secretaria Estadual de Saúde, até ontem contabilizava 1.525 casos da doença, com 48 mortes.

Resposta

O presidente do Hospital Darcy Vargas, Fábio Fernando de Azevedo Pereira, disse que pelas normas da unidade não há internação de paciente infectado em alas “limpas” e que Thaynná pode ter se confundido quando ouviu que outra gestante estava doente.

"Qualquer pessoa com Covid-19 é automaticamente encaminhada a uma enfermaria específica. Acho muito difícil ter alguém em outro local que estivesse infectado, a não ser que fosse assintomático. Possivelmente foi um mal-entendido".

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