USP
Hermes de Paula / Agência O Globo
Especialista da USP explica os resultados das autópsias de vítimas do novo coronavírus

Sepultados sem velório, em caixão fechado e isolados em seus momentos finais, os mortos pela Covid-19 no Brasil começam a ajudar os médicos a aprender sobre a doença e a impedir que mais pessoas morram.

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Usando uma estratégia de autópsia minimamente invasiva, para evitar o contágio, cientistas da equipe de Paulo Saldiva, professor titular do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) se defrontaram com a “enorme agressividade do Covid-19 ” e encontraram pistas de seus esconderijos.

Ele apresentou os primeiros resultados numa sessão científica virtual na Academia Nacional de Medicina (ANM), da qual é membro. O trabalho foi realizado com as médicas e pesquisadoras da USP Marisa Dolhnikoff e Renata Monteiro.

Segundo ele, a autópsia minimamente invasiva, que utiliza imagens de ultrassom para guiar na retirada de amostras dos órgãos, foi a forma encontrada para realizar a investigação dos corpos sem colocar os profissionais em risco, uma vez que se trata de doença altamente contagiosa.

"O coronavírus é mais agressivo do que o H1N1 . Ele promove uma depressão muito grande do sistema de defesa. O corpo fica entregue à própria sorte. Estamos no início, mas já observamos enorme destruição, o coronavírus ataca com enorme agressividade ", afirma.

Até o momento, foram feitas 15 autópsias e os resultados de dez delas foram apresentados. Entretanto, a meta é chega a cerca de 60. Segundo o coordenador, o objetivo é fornecer aos médicos uma "chance de ver o que acontece dentro das células dos pacientes" e entender por que alguns casos evoluem rapidamente, enquanto outros acabam se prolongando até o "desfecho fatal".

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"As autópsias nos mostram informações que de outra forma não acessaríamos. Por isso, as famílias que autorizam as autópsias fazem um gesto fundamental. É uma doença contagiosa, os órgãos não poderiam ser mais usados. Então, essas famílias doam conhecimento", afirma Saldiva.

Análise dos órgãos

"Estudamos vários órgãos , como o pulmão, o fígado, os rins e o baço. Vimos uma agressividade impressionante do coronavírus. E sinais da resposta imunológica. Mas não sabemos como o coronavírus ilude a resposta imunológica. Queremos descobrir por que o coronavírus ataca com tanta avidez o sistema respiratório. Também vimos muito comprometimento dos músculos, muita inflamação muscular. Isso pode explicar por que alguns doentes reclamam tanto de dores musculares", esclarece o professor.

Ele afirma ainda que o Covid-19 pode afetar outros órgãos pelo fato de se ligar às células que revestem o sistema respiratório e estão presente nos vasos sanguíneos, nos testículos e até no cérebro. Entretanto, ainda é preciso aprofundar as investigações sobre a ação do vírus em todo o corpo e descobrir se ele se liga a outros receptores.

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"Descobrir receptores é importante porque podemos tentar bloqueá-los e fechar a porta para o vírus . É uma forma de deter a infecção. São alvos para tratamentos. Para tudo isso precisamos de dados e as autópsias minimamente invasivas são uma forma de obter esses dados", finaliza o professor.

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