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Nove dos doze militares acusados foram soltos na sexta-feira por 11 votos contra 1; laudo pericial constatou que foram disparados mais de 200 tiros

carro
Fábio Teixeira / Parceiro / Agencia O Globo
Carro onde estava o músico Evaldo dos Santos Rosa e sua família foi atingido por 80 disparados por militares do Exército

A ministra do Superior Tribunal Militar (STM) Elizabeth Guimarães Teixeira Rocha afirmou que houve "uma tentativa visível de manipulação de provas" por parte dos militares que atiraram 257 vezes em um carro e mataram o músico Evaldo dos Santos Rosa  em Guadalupe, no Rio de Janeiro. 

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O caso aconteceu no dia 7 de abril. Evaldo estava indo a um chá de bebê com a família quando seu carro foi atingido por 80 tiros do Exército. O músico morreu no local. A perícia constatou, mais tarde, que foram mais de 200 tiros ao todo, sendo que 63 acertaram. Alguns dias depois, o catador Luciano Macedo, que também havia sido atingido pelos tiros, faleceu.

Os 12 militares foram presos em flagrante, mas  nove deles foram liberados pelo STM após julgamento realizado na última quinta-feira (23). No total, 11 ministros votaram a favor da soltura, enquanto apenas Elizabeth Guimarães votou contra. 

Durante a sessão, Elizabeth afirmou que os militares apresentaram fotos de veículos alvejados no auto da prisão em flagrante, mas ocupavam veículos blindados no momento da morte de Evaldo. A ministra disse ainda que a suposta manipulação das provas era "mais um motivo hábil a indicar que a soltura dos pacientes possa perturbar e impedir a produção correta de provas". 

Elizabeth argumentou que os automóveis das fotos apresentadas são completamente diferentes dos utilizados pelo Exército durante a ação. "Os militares não trafegavam nesses blindados. Eles trafegavam numa viatura em que não se constatou tiro algum. Os militares forjaram em três fotografias inidôneas que haviam sido alvejados durante a ação quando, na verdade, o veículo que dirigiam era outro e que a perícia não constatou nenhum disparo ou nenhum tiro", disse. 

Na época, o Comando Militar alegou que a tropa havia sido alvo de "agressão" por parte de Evaldo e que confundiu o carro do músico com o de criminosos que praticaram um roubo perto do local. A ministra, no entanto, afirma que não houve troca de tiros “Como pontuaram as testemunhas, os pacientes já chegaram ao local atirando, sendo que ninguém viu ou ouviu qualquer tiro ser disparado em direção à tropa, ao contrário do que alegaram", defendeu. 

A defesa dos militares negou a acusação e disse ao jornal O Estado de São Paulo que não houve manipulação de provas. "Essas fotos estavam no APF, provavelmente, inseridas pelo delegado da Polícia Judiciária Militar que é o condutor do procedimento. Provavelmente, eles avaliaram todo o uso do equipamento do dia inteiro desses militares. Jamais manipulação dos meus clientes", afirmou o advogado Paulo Henrique Pinto de Mello.

Elizabeth disse ainda que houve racismo na ação e que os militares teriam julgado a vítima com base "em suas características étnicas-sociais". "Lamentavelmente, as minorias ainda são estigmatizadas em um país feito o nosso. Quando um negro, pobre, no subúrbio do Rio de Janeiro é confundido com um assaltante, eu tenho dúvida se isso ocorreria com um loiro de olho azul em Ipanema, vestindo uma camisa Hugo Boss”.