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Comerciantes de Pacaraima dependem do consumo dos moradores do país vizinho; eles também enfrentam problemas para abastecer os carros

Venezuela bloqueou fronteira em Pacaraima para evitar entrada de ajuda humanitária
MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL
Venezuela bloqueou fronteira em Pacaraima para evitar entrada de ajuda humanitária

O fechamento da fronteira entre a Venezuela e o Brasil, que já dura mais de duas semanas, está impactando a economia da cidade de Pacaraima (RR), do lado brasileiro da divisa. Além dos nativos, o comércio de Pacaraima também atende a população do sudeste do país vizinho, especialmente os moradores de Santa Elena de Uairén, que fica a apenas 17 quilômetros de distância.

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Os comerciantes e a população de Pacaraima também perderam acesso aos postos de combustíveis na Venezuela. Como não há postos na cidade fronteiriça brasileira, eles precisam ir até a capital do Estado, Boa Vista, a 215 quilômetros, para conseguir abastecer diretamente o carro. O preço do combustível vendido em toneis em Pacaraima chega a R$ 8 o litro, cinco vezes mais caro do que o valor pago na Venezuela (R$ 1,5).

O empresário Fabiano Coelho de Moraes, dono de um laboratório clínico e de uma farmácia na cidade fronteiriça relatou à Agência Brasil que já demitiu duas pessoas por causa da baixa procura no comércio. “A situação é a mais crítica. Do nada, cortaram tudo. Há muito estoque de mercadoria e o pagamento dos boletos dos fornecedores estão em atraso. Não temos como pagar”, contou. Ele também apontou que a situação de supermercados e vendas com produtos perecíveis é ainda mais crítica.

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Apesar do fechamento da fronteira , alguns venezuelanos conseguem atravessar a fronteira por dois caminhos menos fiscalizados pela polícia venezuelana para comprar mantimentos que estão em falta na Venezuela e retornar ao país. Há, no entanto, um contingente que não tem meios de voltar e acaba sendo atendido pela Operação Acolhida, do Exército brasileiro e pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur).

Na cidade, cerca de 700 venezuelanos dormem em dois abrigos da Acnur e há mais de mil pessoas nas ruas. A presidente da Associação Cultural Canarinhos da Amazônia, que atende a 238 famílias (80 crianças) reconhece o trabalho do Exército e da Acnur, mas assinala que a distância da cidade, no extremo norte do Brasil, e a proximidade com a Venezuela em conflito político e em situação social precária é muito preocupante. “Estamos ilhados aqui. O Brasil precisa nos ver com outro olhar”.

De acordo com o IBGE, 95% da renda do município depende das transferências federais e do estado de Roraima. A população, estimada em 15 mil habitantes, tem renda per capita de R$ 13,5 mil ao ano - e salário médio mensal de 1,8 salário mínimo.

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O Ministério das Relações Exteriores informou à Agência Brasil que mesmo com a fronteira fechada com a Venezuela, o consulado em Santa Elena tem conseguido trazer brasileiros que procuram o serviço diplomático. Nos últimos dois dias, mais de 90 brasileiros conseguiram deixar a Venezuela e regressar pela divisa de Pacaraima graças ao Itamaraty.