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Onda de violência no Ceará chega à 12ª noite consecutiva e já a maior da história do estado, mesmo com Força Nacional e reforço na Polícia Militar

Criminosos explodiram ponte, metralharam delegacia e queimaram ônibus escolar em 12ª noite da onda de violência no Ceará
Reprodução/TV Verdes Mares
Criminosos explodiram ponte, metralharam delegacia e queimaram ônibus escolar em 12ª noite da onda de violência no Ceará

A onda de violência no Ceará, iniciada no dia 2 de janeiro, parece não ter fim. Mesmo com a ajuda da Força Nacional, que já enviou 406 homens , e com reforços na Polícia Militar que recebeu 143 agentes de outros estados e convocou policiais aposentados para ajudar , os criminosos voltaram a cometer ataques na noite deste domingo (13) e madrugada desta segunda-feira (14), na 12ª noite seguida de crimes no estado.

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Nesta madrugada, a violência no Ceará se manifestou novamente na forma de explosivos implantados em uma ponte em Fortaleza, capital do estado. Além disso, bandidos metralharam a sede da Guarda Municipal e incendiaram um ônibus escolar no município de Saboeiro, interior do estado.

A ponte atacada pelos bandidos nesta segunda-feira (14) liga o Bonsucesso a outros bairros da região central de Fortaleza. De acordo com testemunhas, homens passaram em um carro e jogaram explosivos no local. Um dos artefatos explodiu. Moradores do local informaram que os telhados das residências tremeram durante a explosão.

A base da Guarda Municipal de Fortaleza, localizada na Avenida Juscelino Kubitscek, no Bairro Passaré, também foi atacada durante a noite. De acordo com a Polícia Militar, os suspeitos passaram em frente ao local, atiraram e fugiram. No local funciona a inspetoria da Guarda Municipal de Fortaleza e estão guardados os veículos da Guarda e da Autarquia Municipal de Trânsito (AMC).

Além dos ataques, uma granada foi encontrada na estação de metrô do São Miguel, no município de Caucaia, Região Metropolitana de Fortaleza. Segundo a Polícia, o material foi encontrado no chão da estação e não chegou a detonar. O esquadrão antibombas foi acionado e usou um robô para recolher o explosivo.

O procedimento foi bem  parecido com o adotado na madrugada de quinta-feira (10), quando criminosos também explodiram uma bomba caseira na parede de um viaduto da estação Linha Sul do Metrô de Fortaleza, no bairro Parangaba da capital cearense.

Na ocasião, mesmo a explosão tendo ocorrido por volta das 0h40 da madrugada, a estação de metrô mais próxima chegou a ficar fechada 1h30 além do tempo normal na manhã seguinte enquanto os engenheiros da prefeitura de Fortaleza averiguavam se havia danos na estrutura do viaduto e outros funcionários faziam a limpeza e a "reconstrução" do trecho atingido.

De acordo com a Secretaria de Segurança Pública , ao todo, 347 pessoas foram capturadas por envolvimento nos 203 ataques criminosos registrados em pelo menos 44 das 184 cidades do estado desde o dia 2 de janeiro, o que torna esta a maior onda de violência no Ceará da história. Diante disso, o Ministério da Justiça confirmou que enviará mais reforços da Polícia Rodoviária Federal (PRF) para o estado.

Também para tentar conter a onda de violência no Ceará, o governo do Estado promoveu a transferência de 35 presos considerados chefes das principais facções criminosas que atuam no estado, como o Comando Vermelho (CV) e os Guardiôes do Estado (GDE), de Cadeias Públicas no interior do Ceará para a Penitenciária Federal de Mossoró, no Rio Grande do Norte.

Vintes presos foram transferidos na madrugada de quarta-feira para a Penitenciária Federal de Mossoró e mais 15 foram transferidos na madrugada de hoje
Divulgação/Sejus
Vintes presos foram transferidos na madrugada de quarta-feira para a Penitenciária Federal de Mossoró e mais 15 foram transferidos na madrugada de hoje

Vinte presos foram transferidos na madrugada de quarta-feira  (9) em ação realizada em conjunto pelo governo estadual, o Departamento Penitenciário Nacional e a Polícia Rodoviária Federal. Já na madrugada de sexta-feira (11), outros 15 presos também foram transferidos. Após chegarem a Mossoró, parte deles ainda será transferida para presídios em outras regiões do Brasil.

A transferência foi somada à revista das celas com pente-fino que gerou a apreensão pelas autoridades de 407 aparelhos celulares nas unidades prisionais do estado realizadas por ordem do novo secretário de Administração Penitenciária, Luís Mauro Albuquerque, desde o dia 6 de janeiro.

Nesses celulares, foram capturados áudios compartilhados entre membros de facções criminosas que revelaram que as ordens para as ações contra ônibus, prefeituras e prédios públicos partiram de dentro dos presídios.

Em uma das gravações, um detento diz que a sequência de crimes é uma tentativa de fazer justamente com que o secretário desista dessas medidas que tornam mais rigorosa a fiscalização no sistema penitenciário. "Vocês vão tirar esse secretário aí dos presídios. Vocês vão ver, vai piorar é pra vocês", ameaça um criminoso.

Outros aúdios compartilhados em redes sociais também revelam o secretário Mauro Albuquerque ordenando apreensões de celulares e televisores nas unidades prisionais. "Vamos intensificar as gerais dentro das unidades. É pra estar dando geral aí até a gente estar arrancando esses celulares tudinho dentro da cadeia, tá ok?", ordena Albuquerque aos agentes penitenciários.

Origem da onda de violência no Ceará

Onda de violência no Ceará já registrou 204 ataques; criminosos querem saída de secretário
Reprodução
Onda de violência no Ceará já registrou 204 ataques; criminosos querem saída de secretário

A onda de violência começou no dia 2 de janeiro, após declarações do novo secretário de Administração Penitenciária, Luís Mauro Albuquerque, nomeado pelo novo governador do Ceará, Camilo Santana (PT), de que o estado não reconheceria mais facções criminosas e os presos poderiam ser misturados nas mesmas alas dentro do presídio. Além disso, o novo secretário conduziu uma série de ações para comabter o crime dentro dos presídios e coordenou a apreensão de celulares, drogas e armas em celas.

O baixo número de mortes nos mais de 200 ataques reforçam a hipótese de que os ataques são um protesto contra o poder público, hipótese já confirmado também porque os ataques começaram focados em prédios públicos.

Enquanto isso, o governador do Ceará, Camilo Santana (PT), fez um pronunciamento oficial na tarde de sábado (5), após o terceiro dia consecutivo da onda de ataques no estado em que subiu o tom contra os criminosos e afirmou que não pretende recuar no combate ao crime organizado.

Em vídeo divulgado nas suas redes sociais, o governador afirmou ter "absoluta confiança nos mais de 29 mil profissionais cearenses que formam as forças de segurança do nosso estado, que têm se doado noite e dia para combater o crime, especialmente neste momento em que o Estado do Ceará toma medidas duras e necessárias de combate ao crime organizado, fora e dentro de unidades prisionais", disse o político.

"Criamos uma secretaria especialmente para a atuação rigorosa em todos os presídios, agindo com firmeza, dentro da lei e mostrando que o comando é do Estado", continuou o governador. "Endureceremos cada vez mais contra o crime", desafiou. Santana também disse ter total confiança nas forças de segurança de estado e fez questão de mencionar o apoio federal que o estado está recebendo.

"Aproveito para dar as boas-vindas aos agentes da Força Nacional de Segurança e tropas federais que começaram a chegar ao Ceará ontem para contribuir com nossa Polícia nesse enfrentamento", disse o governador.

Na sequência das medidas do poder público para tentar frear a onda de violência no Ceará, os deputados estaduais aprovaram, o governador já sancionou e o Diário Oficial do Estado (DOE) já publicou um pacote de medidas para aumentar a capacidade operacional da segurança pública do estado. A sessão extraordinária, inédita na história da Casa, realizada na tarde de sábado (12) foi convocada por Camilo Santana (PT) e prosseguiu no domingo (13).

Nela, os parlamentares aprovaram ações propostas como o pagamento de recompensa à população para incentivar o repasse de informações que auxiliem os órgãos de segurança estaduais nas investigações criminais. O dinheiro teria como fonte o Fundo de Segurança Pública e Defesa Social, a ser votado na sessão como lei complementar.

Além disso, também foi aprovado o projeto de lei para aumentar a disponibilidade de contingente das forças de segurança. Esse é o caso da proposta de convocação ao serviço ativo de militares aposentados (reserva) e da alteração nas leis que ampliam o limite de horas extras que o governo é autorizado a pagar aos policiais civis e militares, além dos bombeiros e agentes. Com a medida, o teto máximo de prorrogação de jornada dos trabalhadores da segurança pública passa de 48h para 84h mensais.

Por fim, o pacote de medidas aprovado inclui ainda restrições ao uso de áreas no entorno dos presídios do Ceará. Os deputados apreciaram a proposta que cria o Banco de Dados Estadual de Informações de Veículos Desmontados; e o PL que fixa Área de Segurança Penitenciária (ASP) no entorno dos 12 presídios do estado do Ceará, prevendo a restrição de uso dessas áreas.

Moradores e comerciantes sofrem com a violência no Ceará

Onda de violência no Ceará faz poucas vítimas fatais, mas provoca grandes transtornos à população e gera grande sensação de medo, sobretudo entre moradores da região metropolitana de Fortaleza
Reprodução/Twitter
Onda de violência no Ceará faz poucas vítimas fatais, mas provoca grandes transtornos à população e gera grande sensação de medo, sobretudo entre moradores da região metropolitana de Fortaleza

Apesar do número reduzido de vítimas, os moradores do estado têm enfrentado uma série de transtornos. Isso porque, com o avanço dos ataques, os cidadãos estão tendo dificuldades para se locomover de casa para o trabalho. Segundo relatos, desde que policiais militares passaram a andar dentro dos coletivos, o transporte começou a se normalizar durante o dia, mas no retorno para casa à noite, o medo ainda toma conta já que é ao anoitecer que a maioria dos ataques tem sido realizados. 

Há problemas também com o transporte escolar e a coleta seletiva de lixo. As empresas que atuam na limpeza do estado tiveram que reduzir a circulação de caminhões que recolhem os resíduos nas cidade e o lixo já se acumula nas ruas e principais avenidas de Fortaleza.

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Diante da violência no Ceará , o turismo também teve uma queda por conta da insegurança em plena alta temporada. A rede hoteleira que contava com 85% da capacidade ocupada, já contabiliza uma redução para 65% com o cancelamento de reservas. Os prejuízos, no entanto, só poderão ser contabilizados ao final da série de ataques, a princípio, ainda sem hora para acabar.

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