
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro afirmou, em uma proposta de delação premiada, que o ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha (MDB) teria pedido R$ 400 milhões em propina para viabilizar a compra do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB). A informação foi revelada pelo UOL nesta quarta-feira (21), com base em mensagens recuperadas pela Polícia Federal (PF) do celular do empresário.
Segundo o relato atribuído a Vorcaro, o suposto acerto ocorreu em setembro de 2024, após um encontro na casa do banqueiro, em Brasília. O pagamento seria realizado depois da aquisição do Master pelo banco público, com parte do valor em dinheiro e outra parte por meio de um contrato fictício com um escritório de advocacia indicado pelo então governador.
A proposta de delação também menciona uma suposta participação de 5% de Ibaneis no novo banco, por meio de uma empresa de fachada. Vorcaro afirma ainda ter antecipado cerca de R$ 80 milhões em espécie, que teriam sido entregues pelo motorista dele a Leonardo Valverde, apontado como braço direito do ex-governador.
As acusações fazem parte de uma proposta de colaboração cuja homologação ainda não havia sido confirmada nas informações divulgadas. A defesa de Ibaneis rejeitou o relato e afirmou ao UOL que a delação não foi aceita e não teria provas que a sustentassem.
Como teria sido o suposto acordo de R$ 400 milhões
De acordo com a proposta de delação de Vorcaro, o pedido de propina teria sido feito logo após o primeiro encontro entre o banqueiro e Ibaneis, em setembro de 2024. A reunião ocorreu na residência de Vorcaro, em Brasília, com a participação de Leonardo Valverde.
O suposto pagamento seria dividido em duas partes: R$ 200 milhões em dinheiro vivo e outros R$ 200 milhões por meio de um contrato fictício com um escritório de advocacia indicado pelo governador, segundo o relato atribuído ao ex-banqueiro.
Vorcaro também afirmou que Ibaneis ficaria com 5% do novo banco que surgiria da operação entre o BRB e o Master, por meio de uma empresa de fachada.
O banqueiro declarou ter adiantado aproximadamente R$ 80 milhões em espécie. Mensagens extraídas pela PF mostram que, em pelo menos dez ocasiões, o motorista de Vorcaro informou ter entregado encomendas a uma pessoa identificada como “Léo” ou “Dr. Léo”, que os investigadores suspeitam ser Leonardo Valverde.
As entregas teriam ocorrido entre novembro de 2024 e agosto de 2025. Em dezembro de 2024, segundo as mensagens, o motorista avisou a Vorcaro que Léo havia ligado para buscar “todas as encomendas”.
O material também aponta que Valverde enviou ao banqueiro dados de empresas e informações bancárias em outubro de 2024. Segundo o relato de Vorcaro, o contrato com o escritório de advocacia indicado por Ibaneis não chegou a ser pago, porque o Banco Central vetou a aquisição do Master pelo BRB em setembro de 2025.
As mensagens e as declarações atribuídas a Vorcaro são elementos citados na investigação, mas não representam, por si só, uma comprovação judicial das acusações.
Mensagens indicam participação de Ibaneis nas negociações
Além da suposta cobrança de propina, as conversas recuperadas pela Polícia Federal indicam que Ibaneis acompanhou diferentes etapas das negociações entre o BRB e o Master, incluindo discussões sobre aumento de capital, compra de carteiras de crédito e aquisição do banco privado.
O primeiro encontro entre Ibaneis e Vorcaro ocorreu em 18 de setembro de 2024, durante um almoço na casa do banqueiro, em Brasília. No dia seguinte, o então governador enviou uma mensagem agradecendo pelo “excelente almoço”.
Uma semana depois, os dois voltaram a se encontrar em um jantar na residência de Vorcaro. Também participaram Leonardo Valverde e Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB, responsável por conduzir os negócios entre as duas instituições.
As conversas mostram que, naquele período, o Master buscava participar de um aumento de capital do banco público e ampliar a venda de ativos, especialmente carteiras de crédito consignado.
Em outubro de 2024, Paulo Henrique Costa informou a Vorcaro que Ibaneis havia autorizado o avanço de uma operação de R$ 750 milhões relacionada à capitalização do BRB.
As negociações avançaram nos meses seguintes. Em janeiro de 2025, Ibaneis se reuniu com Vorcaro e Paulo Henrique Costa em Zurique, na Suíça, durante um evento empresarial do grupo Lide. Em fevereiro, o BRB formalizou o chamado Projeto Vértice, nome interno da operação de compra do Master.
No mês seguinte, após novas tratativas, o banco público anunciou a aquisição de 58% do capital do Master, em 28 de março de 2025.
Em mensagens citadas pelo UOL, Vorcaro afirmou que havia formado uma “aliança” com Paulo Henrique Costa e que, caso a operação fracassasse, os dois cairiam juntos. O conteúdo reforça a importância das conversas para a investigação, mas as responsabilidades individuais dependem da apuração dos fatos.
BRB comprou carteiras de crédito que levantaram suspeitas
A tentativa de aquisição do Master ocorreu em meio a operações financeiras que passaram a ser investigadas pela Polícia Federal.
O BRB comprou carteiras de crédito do banco privado e de empresas relacionadas. Segundo as informações apresentadas na reportagem do UOL, as aquisições chegaram a R$ 9,5 bilhões até fevereiro de 2025. O volume total de operações atribuídas ao BRB com ativos do Master foi posteriormente estimado em R$ 16,7 bilhões.
Parte das carteiras teria sido negociada por meio da Tirreno, uma promotora de crédito. De acordo com a investigação, alguns empréstimos não existiam, porque os supostos clientes não haviam contratado as operações correspondentes.
Em abril de 2025, uma equipe do BRB foi à sede do Master para verificar carteiras de crédito consignado adquiridas pelo banco público, mas não conseguiu acessar determinados dados das operações. Segundo Paulo Henrique Costa, o Master alegou restrições relacionadas à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
No mês seguinte, o então presidente do BRB avisou a Vorcaro que não faria novas compras sem comprovantes de que os empréstimos estavam registrados na folha de pagamento dos clientes.
Em uma mensagem de 30 de junho de 2025, Paulo Henrique escreveu: “Precisamos demonstrar que essas carteiras existem, Daniel”. Vorcaro respondeu que nada do que fosse feito ou entregue conseguiria tirá-los daquela situação, segundo o conteúdo divulgado.
O BRB passou a substituir as carteiras questionadas por outros ativos do Master. Em setembro de 2025, ainda restavam R$ 2,1 bilhões nessa operação de substituição, de acordo com as mensagens citadas.
O Banco Central vetou a compra do Master pelo BRB em setembro de 2025. Em novembro daquele ano, o regulador decretou a liquidação extrajudicial do banco privado.
Escritório de Ibaneis teve contrato de R$ 38,1 milhões
Outro ponto mencionado na reportagem envolve o escritório de advocacia de Ibaneis. Em maio de 2024, a banca firmou um contrato de R$ 38,1 milhões relacionado à venda de honorários de precatórios a um fundo ligado à Reag, gestora que também passou a ser investigada pela Polícia Federal.
A Reag foi liquidada pelo Banco Central em janeiro de 2026, segundo as informações divulgadas. A gestora também é alvo de outra frente de investigação da PF, a Operação Carbono Oculto, que apura suspeitas de lavagem de dinheiro no mercado de combustíveis e em instituições financeiras.
O contrato do escritório com o fundo é um episódio distinto da suposta cobrança de propina descrita por Vorcaro e, isoladamente, não comprova irregularidade na relação comercial.
O que diz a defesa de Ibaneis Rocha
A defesa do ex-governador contestou as acusações atribuídas a Vorcaro. Ao UOL, o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, conhecido como Kakay, afirmou que não comentaria uma delação que, segundo ele, não foi aceita e não apresenta provas suficientes.
O advogado também declarou que os fatos demonstrariam que Ibaneis sempre sustentou ter dado liberdade ao presidente do BRB para conduzir as operações que considerasse necessárias.
A defesa negou, assim, que o ex-governador tivesse participação nas decisões do banco público nos termos descritos pelo ex-banqueiro.
Ibaneis deixou o governo do Distrito Federal em março de 2026 para disputar uma vaga no Senado, mas desistiu da candidatura posteriormente, alegando razões pessoais para desistir, mas sem apresentar publicamente uma justificativa específica. Sua vice, Celina Leão (PP), assumiu o comando do governo local.
As acusações contra Ibaneis integram o desdobramento das investigações sobre as operações do Banco Master e as negociações com o BRB. A apuração deverá esclarecer a origem dos recursos, a existência dos supostos pagamentos e a eventual responsabilidade dos envolvidos.