
A direção do portal Metrópoles enviava reportagens a Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master, antes de publicá-las, e aceitava pedidos de alteração feitos por ele.
A aproximação entre Vorcaro e Lilian Tahan, presidente-executiva do Metrópoles, começou em 2024, mesmo ano em que o Banco Master fechou um contrato de publicidade de R$ 20 milhões com o veículo.
Um levantamento do UOL identificou pelo menos 14 reportagens enviadas a Vorcaro antes da publicação. Dessas, 11 foram modificadas após pedidos do então banqueiro. As mensagens também mostram que duas reportagens foram publicadas a pedido dele.
Em abril de 2025, ao enviar um perfil sobre Vorcaro, Tahan escreveu: "Se tiver alguma incorreção, me avise!! Não publicarei sem nos falarmos".

Vorcaro pediu mudanças em reportagens e sugeriu pautas
Mensagens mostram que, em abril de 2025, Vorcaro contestou uma informação sobre uma suposta proposta de compra de ativos do Banco Master por R$ 1, e Lilian Tahan respondeu que o conteúdo seria retirado.
Naquele mesmo mês, o banqueiro também recebeu antecipadamente uma reportagem que comparava os balanços do Master e do BRB, cuja publicação foi feita somente depois dele conferir as informações. Em outro texto, o ex-banqueiro pediu a retirada de uma referência à Hapvida, e a solicitação também foi atendida.

Em agosto, Vorcaro sugeriu mudanças em reportagens sobre Renato Gomes, então diretor do Banco Central, que analisava a compra do Master pelo BRB. Entre os pedidos estavam diminuir as referências ao diretor em uma entrevista com o ex-presidente do BC, Roberto Campos Neto, retirar um trecho sobre a situação financeira do Master e incluir informações sobre supostas divergências dentro do Banco Central. Segundo as mensagens, as alterações também foram aceitas.
No mesmo mês, Vorcaro também pediu que o Metrópoles reduzisse temporariamente a cobertura sobre Ricardo Cappelli, pré-candidato da oposição ao governo do Distrito Federal, que criticava a compra do Master pelo BRB.
"Esse Cappelli, você não consegue dar uma freada essa semana? Depois ele volta!", escreveu. Tahan respondeu: "Deixa comigo".

Como tudo começou
A aproximação entre Vorcaro e o Metrópoles começou em maio de 2024, quando Guilherme Barros, que trabalhava como consultor do banqueiro, levou Tahan para um encontro com ele.
No dia seguinte, Barros enviou uma mensagem a Vorcaro comentando a reunião e mencionando Liliab como uma ponte com Luiz Estevão, dono do Metrópoles e ex-senador que já foi condenado a 31 anos de prisão por desvio de recursos públicos e passou ao regime aberto em 2021, depois de cumprir parte da pena.
Um mês após o encontro, o banco de Vorcaro pagou R$ 1 milhão ao portal. Em julho, acertou mais R$ 900 mil para financiar projetos de educação financeira da seguradora Kovr e do banco digital Will.
Em novembro de 2024, Tahan apresentou uma nova proposta comercial. Segundo Ana Matos, diretora de marketing, o valor acertado foi de R$ 20 milhões.
Em uma conversa com Vorcaro, Matos comentou que o portal estava caro. O então banqueiro respondeu: "Coisa mais importante [da] nossa vida é esse Metrópoles".
Dois dias depois, Vorcaro informou que havia aprovado a proposta. Matos perguntou se o pagamento seria feito integralmente pelo Banco Master ou dividido com a Kovr e o Will.
As mensagens indicam que, em 2025, o Banco Master pagou os R$ 20 milhões ao portal em parcelas de R$ 5 milhões.
Última mensagem aconteceu no dia da prisão
Em 17 de novembro de 2025, data em que Vorcaro foi preso, Tahan enviou a ele reportagens sobre a venda do Banco Master à Fictor antes de publicá-las.
Depois de fazer as alterações pedidas pelo então banqueiro, a CEO avisou que o texto já estava no ar. "Publicada hahahaha", escreveu Lilian.
Procurados pelo iG, o portal Metrópoles e Lilian Tahan não se manifestaram sobre as mensagens até a publicação desta reportagem.