
A dependência de fornecedores estrangeiros de borracha levou o bilionário Henry Ford à Floresta Amazônica brasileira na década de 1920. A fabricação de pneus, mangueiras, juntas e correias consumia grandes quantidades da matéria-prima da montadora Ford, enquanto boa parte da produção mundial estava concentrada em plantações do Sudeste Asiático.

O cenário era bem diferente daquele registrado décadas antes, quando o Brasil chegou a concentrar cerca de 95% da produção global de borracha. No entanto, sementes da seringueira foram retiradas do país e cultivadas em territórios britânicos, levando à expansão do mercado borracheiro. Em 1928, quando a iniciativa brasileira da Ford começou a ganhar forma, o produto nacional representava apenas 2,3% do mercado.

O empresário criador da Ford decidiu produzir o próprio látex em uma área às margens do Rio Tapajós, no Pará, batizando a nova comunidade de Fordlândia. Para viabilizar a ideia, o bilionário trouxe navios vindos dos Estados Unidos com máquinas industriais, casas pré-fabricadas, equipamentos para um hospital, uma serraria e uma usina geradora de energia.

A infraestrutura tinha dimensões e elementos incomuns naquela parte da Amazônia, já que grande parte da área ainda era inexplorada. Com o intuito de atrair novos empregados, a Ford Motor Company ofereceu benefícios trabalhistas e ainda construiu um hospital, escolas, uma piscina, um cinema, um salão de dança e um campo de golfe ao lado das instalações industriais. Além disso, a chamada Vila Americana concentrava as casas destinadas aos funcionários estrangeiros e dispunha de água encanada, algo raro à época.

No início, a cidade de Fordlândia foi um sucesso, mas as regras da empresa causaram atritos com parte dos colaboradores. O álcool e o tabaco eram proibidos, enquanto a dieta seguia orientações impostas pela administração. Ademais, o expediente pouco considerava os horários tradicionalmente usados por trabalhadores adaptados ao calor da região, gerando reclamações dos funcionários.

Motim e plantações doentes marcaram o projeto de Henry Ford

A tensão crescente estourou em dezembro de 1930, após uma discussão no refeitório de Fordlândia. Alguns funcionários destruíram máquinas e outros equipamentos, levando os administradores da Ford a fugirem da cidade usando o Rio Tapajós. O controle só foi restabelecido pela empresa depois da intervenção de forças policiais brasileiras.

Para além da relação entre empresa e empregado, a Ford também cometeu um erro crasso no cultivo da borracha. Na contramão do plantio tradicional da árvore, as seringueiras foram reunidas em grandes áreas, favorecendo o mal-das-folhas e outras pragas capazes de avançar rapidamente entre as plantas próximas. Como resposta, a empresa contratou especialistas e abriu uma segunda cidade, batizada de Belterra.

Mesmo com as mudanças, o volume de borracha ficou muito aquém do volume necessário para abastecer a montadora americana. Cerca de 750 toneladas de látex foram produzidas comercialmente no Pará em 1942, enquanto a Ford utilizava aproximadamente 38 mil toneladas por ano. Por razões industriais, a companhia encerrou o projeto em 1945, quando a borracha sintética ganhou espaço e o fim da Segunda Guerra Mundial trouxe os fornecedores asiáticos ao mercado.

Atualmente, Fordlândia possui cerca de 1.500 habitantes e perdeu quase toda a infraestrutura construída pela Ford Motors, que se encontra em estado avançado de degradação. O hospital está completamente destruído, enquanto espaços como o cinema e o salão de baile estão abandonados. Em maio deste ano, a Justiça Federal determinou a recuperação do conjunto arquitetônico, incluindo a elaboração de um plano para recuperar o hospital, os galpões industriais, a Vila Americana, o cinema e outras construções históricas.
