
A identificação de um dicinodonte desconhecido na Tanzânia mudou a comparação usada para datar rochas onde aparecem alguns dos possíveis primeiros dinossauros. A nova espécie, nomeada de Dinodontosaurus isiyavamanda, viveu há cerca de 240 milhões de anos na África Oriental. O animal não era um dinosauriforme, mas sim um grande herbívoro sinapsídeo, grupo evolutivamente mais próximo da linhagem dos mamíferos.

A descoberta foi formalizada na última quarta-feira (16) no Journal of Vertebrate Palaeontology, em estudo liderado pelo pesquisador Hady George, da Universidade de Bristol. Os fósseis tem origens diversas, remetendo a um esqueleto coletado por uma expedição britânica em 1963, que permaneceu no Museu de História Natural de Londres sem descrição completa. Posteriormente, um crânio fragmentário apareceu na Tanzânia e, quando os pesquisadores colocaram os dois conjuntos lado a lado, perceberam que pertenciam ao mesmo gênero.
Este espécime fóssil da Tanzânia está sob nossos cuidados há mais de 60 anos, e é maravilhoso que sua identidade finalmente tenha sido revelada. Ao mostrar que Dinodontosaurus viveu tanto na América do Sul quanto no leste da África, ele oferece um vislumbre do nosso planeta há 240 milhões de anos. Mike Day, curador de tetrápodes não mamíferos do Museu de História Natural de Londres

Até aquele momento, o gênero dos Dinodontosaurus era pertencente apenas e somente à América do Sul, sem nenhum registro do animal em outros continentes. Os novos fósseis africanos até conservaram características que sustentam a classificação, mas também evidenciaram diferenças suficientes para a criação de uma espécie própria de dinossauro.
Nossa descoberta representa o primeiro registro confirmado do gênero Dinodontosaurus fora da América do Sul. O achado conecta as rochas fossilíferas da Tanzânia e da América do Sul, mostrando que elas têm idade equivalente. Hady George, autor principal do estudo

O nome Isiyavamanda faz referência à terra do povo Wamanda, grupo étnico que vive na Tanzânia, na região do lago Nyasa e do rio Ruhuhu. O estudo que descobriu a espécie ainda sugere que particularidades do palato do animal podem refletir numa adaptação diferente para o processamento de alimento, revelando singularidades subespecíficas.
Fóssil do Dinodontosaurus isiyavamanda ajuda a datar outros fósseis

Os fósseis foram encontrados nas chamadas Manda Beds, uma importante formação geológica do período Triássico. No local, já foram encontrados restos de espécies como o Nyasasaurus e o Asilisaurus. Tais fósseis aparecem entre os registros usados para discutir as hipóteses de surgimento dos primeiros dinossauros.

A idade desse material, no entanto, nunca dependeu apenas dos próprios dinossauros. Os paleontólogos do estudo também compararam os demais animais preservados em diferentes formações, chegando à conclusão de que o Dinodontosaurus agora fornece uma ligação clara entre a Tanzânia e a América do Sul. O artigo correlaciona o Membro Lifua tanzaniano com a Zona de Associação de Dinodontosaurus brasileira e com a Formação Chañares, localizada na Argentina.
Isso ajuda a confirmar que os candidatos a dinossauros mais antigos da Tanzânia provavelmente não são mais antigos que os da América do Sul, refinando a cronologia das origens dos dinossauros. Os próximos projetos de pesquisa vão examinar o material fóssil restante e explorar a biomecânica e a ecologia dos dicinodontes do Triássico. Hady George, autor principal do estudo

Dessa forma, novas datações radiométricas sul-americanas apontam idades até 10 milhões de anos mais recentes que as de depósitos da África do Sul anteriormente usados como referência. Apesar dos avanços, os pesquisadores ainda precisam examinar grande parte do esqueleto pós-craniano e comparar esse material com exemplares da América do Sul, analisando a biomecânica e a ecologia dos dicinodontes.
Estudei esse esqueleto de dicinodonte na minha dissertação de mestrado na University College London, em 1994, e concluí que se tratava de uma espécie nova para a ciência, mas levei quase 30 anos para iniciar o processo de publicação. Fico feliz por ter esperado, porque a equipe internacional que reunimos, liderada por Hady George, fez um trabalho incrível ao desenvolver essa história com muito mais detalhes e profundidade do que eu poderia ter conseguido sozinho. Nigel Larkin, paleontólogo e pesquisador visitante da Universidade de Reading
