Daniel Vorcaro, no protocolo de admissão no sistema prisional paulista, sem barba e de cabelo cortado
Divulgação/ SAP
Daniel Vorcaro, no protocolo de admissão no sistema prisional paulista, sem barba e de cabelo cortado

Um documento da Polícia Federal (PF), que teve o sigilo retirado na noite de quinta-feira (10), detalha uma série de articulações de Daniel Vorcaro  nos dias que antecederam a Operação Compliance Zero e aponta que o banqueiro teria conhecimento prévio da ação policial. Segundo a PF, a viagem planejada para o exterior na véspera da operação reforça a suspeita de que ele pretendia deixar o Brasil. As informações são do g1.

O documento reúne registros de conversas, anotações e contatos mantidos por Vorcaro com advogados, jornalistas, servidores e integrantes do Banco Central (BC) antes da deflagração da operação. Para os investigadores, o conjunto dos fatos indica que o então dono do Banco Master tinha informações sobre uma possível atuação policial contra ele.

A PF afirma que seria "improvável" que a viagem ao exterior marcada para a noite anterior ao cumprimento dos mandados fosse uma coincidência. Vorcaro acabou sendo interceptado pelas autoridades no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, quando se preparava para embarcar em um jato particular com destino final aos Emirados Árabes.

O que Vorcaro fez antes da operação

Segundo o relatório da PF, as movimentações começaram a chamar atenção semanas antes da prisão. Em 21 de outubro de 2025, Vorcaro registrou no aplicativo de notas do celular os nomes de representantes da Polícia Federal que haviam participado de uma reunião reservada com o Banco Central.

Para os investigadores, o registro pode indicar que ele teve acesso antecipado a informações que deveriam ser restritas.

Em 16 de novembro, dois dias antes da operação, o banqueiro fez uma nova anotação questionando se uma terceira pessoa teria proximidade com o juiz federal Ricardo Soares Leite, responsável por autorizar medidas contra ele.

Como o inquérito tramitava sob sigilo, a PF considera que a anotação reforça a suspeita de que informações sobre a investigação tenham chegado ao banqueiro antes da ação policial.

Advogado manda mensagem e Vorcaro muda planos

Na manhã de 17 de novembro de 2025, um dia antes da deflagração da operação, Vorcaro recebeu, às 7h28, mensagens urgentes de seu advogado, Walfrido Warde.

Pouco depois, às 8h48, ele informou que iria agendar um voo saindo do aeroporto de Congonhas, na capital paulista.

Ainda naquela manhã, Vorcaro manteve conversas com o jornalista Diego Escosteguy sobre uma reportagem que seria publicada. Depois das 11h, recebeu o link da matéria e o encaminhou imediatamente ao advogado.

O conteúdo jornalístico mencionava a existência de um inquérito que tramitava na 10ª Vara Federal de Brasília. Na sequência, Warde protocolou uma petição para ter acesso à investigação, citando a reportagem como fonte da informação.

Segundo a PF, banqueiro e advogado continuaram tratando do assunto ao longo daquele dia, inclusive com contatos relacionados ao juiz responsável pelo caso.

Reunião com o Banco Central

Também em 17 de novembro, Vorcaro manteve contatos com servidores do Banco Central. De acordo com o documento, as conversas começaram ainda pela manhã e envolveram Paulo Sérgio e Belline.

Os servidores consideraram importante que o banqueiro conversasse com o diretor do Banco Central, Ailton Aquino.

A reunião foi então articulada para aquela tarde. Vorcaro sugeriu 13h, Paulo Sérgio confirmou o encontro para 13h15 e Belline encaminhou o link às 13h35.

Depois da reunião, começou a circular uma reportagem sobre uma possível venda do Banco Master ao Grupo Fictor. Para a PF, a movimentação indica que havia um alinhamento prévio envolvendo o assunto.

A corporação também afirma que Vorcaro teria usado servidores do Banco Central para viabilizar a reunião em um momento em que já estaria ciente da iminência da operação.

Vorcaro é preso no aeroporto

Na noite de 17 de novembro de 2025, policiais interceptaram Vorcaro no aeroporto de Guarulhos. Ele estava prestes a embarcar em um avião particular com destino final aos Emirados Árabes.

A Operação Compliance Zero foi oficialmente deflagrada no dia seguinte, 18 de novembro.

Para a Polícia Federal, a sequência dos acontecimentos indica que Vorcaro tinha conhecimento antecipado da ação e adotou medidas para deixar o país antes do cumprimento dos mandados.

Cerca de dez dias depois, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região determinou a soltura de Vorcaro e de outros quatro executivos ligados ao Banco Master.

PF voltou a pedir prisão preventiva

As informações reunidas no relatório também foram utilizadas pela PF para fundamentar um novo pedido de prisão preventiva de Daniel Vorcaro, assinado em 27 de fevereiro de 2026.

No documento, os investigadores afirmam haver indícios de que o banqueiro teria atuado para proteger integrantes da organização investigada, além de buscar informações antecipadas sobre medidas judiciais e manter contatos com pessoas ligadas a órgãos de controle.

A PF também apontou um possível planejamento para a saída do país em período próximo à deflagração da operação.

Em março de 2026, Vorcaro foi preso novamente.

Mensagens com Alexandre de Moraes

O documento divulgado agora se soma a outro conjunto de informações que já havia vindo a público sobre as movimentações do banqueiro.

Uma troca de mensagens entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), também integra um relatório da Polícia Federal.

Em uma conversa ocorrida em 15 de novembro de 2025, dois dias antes da prisão, Vorcaro perguntou ao ministro se deveria deixar o país.

A mensagem enviada pelo banqueiro foi: "Acha que segunda já tenho que estar fora?"

Na noite de 17 de novembro, cerca de 48 horas depois da conversa, ele foi preso pela Polícia Federal no aeroporto de Guarulhos.


O conteúdo das mensagens e outros documentos relacionados ao caso Master tiveram o sigilo retirado por determinação do ministro A ndré Mendonça. Na quinta-feira (10), Mendonça também levantou o sigilo de investigações relacionadas ao Banco Master que tramitam no STF.

A decisão ocorreu após solicitação do presidente da Corte, Edson Fachin, permitindo o acesso a um conjunto de inquéritos, reclamações e petições ligados ao caso.

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