
Uma menina chinesa de 6 anos morreu após ser submetida a uma terapia experimental de edição genética, e o caso passou a ser investigado por autoridades e pela comunidade científica. As informações foram publicadas pela revista Galileu, com base em uma investigação da revista científica Science, que aponta possíveis falhas éticas e omissões em estudos relacionados ao experimento.
A morte da criança, identificada pelo pseudônimo Mei para preservar a privacidade da família, também levantou questionamentos sobre a condução da pesquisa e a transparência na divulgação de seus resultados.
Segundo a Galileu, a investigação da Science indica que um estudo da equipe responsável, publicado na revista científica Nature, não mencionou o óbito da paciente nem outros detalhes considerados relevantes sobre o ensaio clínico.
Tratamento buscava corrigir mutação genética
De acordo com a reportagem da Galileu, Mei sofria de uma mutação genética que comprometia seu desenvolvimento neurológico. Na tentativa de tratar a doença, os pais autorizaram que ela participasse de uma terapia experimental conduzida no Hospital Xinhua, ligado à Faculdade de Medicina da Universidade Jiao Tong de Xangai, na China.
O procedimento consistia em utilizar vírus modificados para transportar uma ferramenta capaz de reescrever um trecho do DNA afetado pela mutação, restaurando bases genéticas necessárias para a produção de uma proteína importante para o organismo.
Os vírus foram aplicados diretamente no líquido cefalorraquidiano, substância que envolve e protege o cérebro e a medula espinhal. Segundo os pais, sete dias após o procedimento, a menina sofreu uma reação imunológica grave e morreu, em março de 2025.
Especialistas apontam falhas
Ainda segundo a Galileu, a investigação da Science, realizada em parceria com o projeto Retraction Watch, ouviu especialistas das áreas de genética, virologia e bioética, que levantaram preocupações sobre a condução do estudo.
Entre os principais questionamentos estão a suposta minimização dos riscos apresentados aos pais, a continuidade da pesquisa apesar de sinais de alerta observados em testes com animais e a avaliação de que as chances de sucesso do tratamento eram consideradas reduzidas.
Os especialistas também criticaram o fato de o artigo publicado na Nature, no início de 2026, não informar a morte da criança nem mencionar que os pais contribuíram financeiramente para o desenvolvimento da pesquisa.
Investigação pede revisão de estudo
O principal responsável pelo estudo é o médico e neurocientista Qiu Zilong, da Universidade Jiao Tong de Xangai, que passou a ser investigado após a divulgação do caso.
Pesquisadores ouvidos pela Science pedem que a revista Nature reavalie o artigo científico e publique informações adicionais relacionadas ao ensaio clínico, incluindo detalhes sobre o financiamento da pesquisa.
A própria Nature informou, segundo a Galileu, que desconhecia as questões envolvendo o estudo clínico quando aprovou a publicação do trabalho.
A reportagem também informa que o hospital chegou a pagar uma multa administrativa equivalente a cerca de US$ 3,5 mil após a morte da menina, mas não houve divulgação de punições públicas ao pesquisador.
O que é edição genética
A edição genética reúne técnicas capazes de modificar trechos específicos do DNA com o objetivo de corrigir mutações associadas a doenças hereditárias. Nos últimos anos, esse tipo de terapia passou a ser estudado para tratar enfermidades raras que ainda não possuem tratamentos eficazes.
Apesar do potencial da tecnologia, especialistas ressaltam que pesquisas envolvendo edição genética precisam seguir rígidos protocolos de segurança e transparência, especialmente quando são realizadas em seres humanos.
O caso reacendeu o debate internacional sobre os limites éticos dessas pesquisas e a necessidade de divulgação completa dos resultados de ensaios clínicos, incluindo eventuais efeitos adversos e mortes de participantes.