
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou na quinta-feira (30) que o Conselho de Paz chegou a um acordo para o desarmamento do Hamas e dos demais grupos armados da Faixa de Gaza. O anúncio abre uma possível saída para o principal impasse da trégua, mas ainda não representa o fim do conflito: Israel não confirmou a adesão ao texto e as partes discordam sobre quem deverá cumprir sua obrigação primeiro.
Se for executado, o acordo ligará a entrega das armas à retirada gradual das tropas israelenses. Uma força internacional e uma nova polícia palestina assumiriam a segurança, enquanto Gaza passaria a ser administrada por um comitê palestino sem integrantes do Hamas. O plano também permitiria ampliar a ajuda humanitária e iniciar uma reconstrução hoje travada pela insegurança e pela permanência militar israelense em grande parte do território.
Trump classificou o acerto como um marco do plano dele de 20 pontos para Gaza. Segundo ele, o desarmamento será dividido em etapas e o Exército de Israel recuará à medida que cada fase for concluída. Egito, Catar e Turquia participaram das negociações realizadas no Cairo.
O ponto decisivo, porém, continua aberto.
Hamas exige retirada antes de entregar armas
O dirigente do Hamas Ghazi Hamad, que participou das negociações, confirmou nesta sexta-feira (31) a existência de um “marco abrangente”. Ele afirmou, no entanto, que o grupo só entregará suas armas depois que Israel cumprir compromissos assumidos na primeira etapa da trégua.

O Hamas cobra o fim dos ataques israelenses, o recuo das tropas às posições ocupadas em outubro de 2025 e o aumento da entrada de alimentos, medicamentos e outros produtos em Gaza. Depois disso, as armas seriam transferidas ao Comitê Nacional para a Administração de Gaza, conhecido pela sigla NCAG.
Israel sustenta a ordem inversa. Um representante israelense afirmou que o país não recuará para além da chamada Linha Amarela antes do desarmamento do Hamas e da desmilitarização completa de Gaza. O governo israelense também considerou insuficiente o documento de 15 pontos discutido pelos mediadores.
A diferença não é apenas de calendário. Ela define quem assumirá primeiro o risco de cumprir o acordo: o Hamas teme entregar as armas enquanto tropas israelenses permanecem no território; Israel rejeita reduzir a presença militar sem a garantia de que o grupo perdeu sua capacidade de ataque.
Por isso, o anúncio de Trump deve ser tratado como um acordo sobre uma estrutura de negociação, e não como um tratado pronto para ser executado. O próprio Hamas descreveu o documento inicialmente como um rascunho. Israel, até a manhã desta sexta, não havia dado aprovação pública à versão anunciada pelo presidente dos Estados Unidos.
Desarmamento pode levar quase um ano
Autoridades dos Estados Unidos e do Conselho de Paz disseram que a entrega das armas ocorrerá de forma gradual. Uma etapa inicial envolveria forças policiais atualmente presentes em Gaza. Armas pesadas, depósitos, instalações de produção e a rede de túneis ficariam para uma fase posterior.
Uma estimativa apresentada durante as conversas aponta um prazo de 200 a 350 dias para concluir o processo. Não há, porém, um calendário público aprovado pelas partes. Também permanece indefinido o tratamento das armas individuais mantidas por integrantes do Hamas e de outros grupos.
Outro ponto sensível é a fiscalização. O plano prevê que uma Força Internacional de Estabilização trabalhe com policiais palestinos para controlar o território depois do recuo israelense. Essa força também deverá verificar o desarmamento, proteger a nova administração e permitir a circulação de ajuda e materiais de construção.
A implantação ainda é limitada. Israel autorizou a entrada de um primeiro contingente internacional em áreas que não estão sob controle direto de suas tropas, mas cada grupo estrangeiro precisa receber aprovação israelense. Não está claro quantos agentes serão enviados nem quando a força terá capacidade para assumir a segurança de Gaza.
Os mediadores terão de transformar o texto negociado no Cairo em um calendário aceito por Hamas e Israel. Isso inclui definir datas para a retirada das tropas, regras de fiscalização, destino das armas, entrada da força internacional e transferência do poder civil.
A aprovação israelense será o primeiro teste. Sem ela, o Hamas afirma que não começará o desarmamento. Sem a entrega das armas, Israel diz que não recuará.