
Uma decisão da Justiça Federal obtida pela coluna de Mirelle Pinheiro, do Metrópoles, revela detalhes de uma reunião interna realizada poucos dias antes de a Americanas informar ao mercado as inconsistências contábeis que deram origem ao escândalo envolvendo um rombo estimado em R$ 54 bilhões.
Segundo o documento, reproduzido pela investigação da Polícia Federal (PF), o então diretor financeiro André Covre teria classificado as irregularidades como uma fraude e alertado os participantes de que eles poderiam ser responsabilizados criminalmente.
De acordo com a decisão, o episódio ocorreu no início de janeiro de 2023, cerca de uma semana antes de a varejista divulgar a existência das chamadas "inconsistências contábeis". André Covre havia assumido recentemente a diretoria financeira da empresa e, segundo a investigação, desconhecia as práticas que estavam sendo adotadas.
A representação da Polícia Federal afirma que, durante uma reunião com integrantes da antiga diretoria, Covre recebeu uma apresentação sobre operações contábeis investigadas. Ao tomar conhecimento do conteúdo, ele teria interrompido o encontro, afirmado que se tratava de uma fraude e advertido os presentes de que poderiam ser processados e presos.
Segundo os investigadores, a reação marcou uma mudança na condução interna do caso. A partir daquele momento, as operações deixaram de ser tratadas apenas como inconsistências ou ajustes contábeis e passaram a ser analisadas como possíveis ilícitos.
Ainda conforme o documento judicial, o então presidente da Americanas, Sérgio Rial, pediu cautela ao novo diretor financeiro e recomendou que ele evitasse conclusões precipitadas. Mesmo assim, Covre teria solicitado um levantamento detalhado das operações da companhia, incluindo contratos de risco sacado, dívidas com fornecedores, obrigações bancárias e outros passivos.
A decisão também registra que, no dia seguinte à reunião, a empresa contratou o escritório de advocacia Barbosa, Müssnich, Aragão (BMA), medida interpretada pela Polícia Federal como uma resposta à necessidade de apoio jurídico especializado diante da gravidade da situação.
Documento integra nova fase das investigações
Os detalhes fazem parte de um novo braço da Operação Disclosure, investigação conduzida pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal (MPF), que apura a possível participação de acionistas de referência e representantes de instituições financeiras nas fraudes contábeis.
Segundo a PF, o esquema teria utilizado diferentes mecanismos para ocultar o verdadeiro endividamento da empresa e apresentar ao mercado indicadores financeiros mais favoráveis do que a situação real, influenciando investidores e a negociação das ações da companhia.
A investigação sustenta que essas práticas teriam sido mantidas por mais de uma década.
Operação também apura participação de acionistas e bancos
Em junho deste ano, a Polícia Federal deflagrou a segunda fase da Operação Disclosure, cumprindo mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Na ocasião, a Justiça Federal também autorizou o bloqueio de bens dos investigados em valores que podem chegar a R$ 54 bilhões.
Entre os alvos estavam os acionistas de referência Carlos Alberto Sicupira e Paulo Alberto Lemann, além de executivos ligados aos bancos Itaú Unibanco, Bradesco e Santander. A investigação busca esclarecer se eles tiveram participação ou conhecimento das irregularidades contábeis.
A Americanas informou, na ocasião, que não foi alvo das buscas e reiterou que continua colaborando com as autoridades.
Escândalo veio à tona em 2023
A crise da Americanas começou em 11 de janeiro de 2023, quando a empresa comunicou ao mercado inconsistências contábeis inicialmente estimadas em cerca de R$ 20 bilhões. Posteriormente, as investigações apontaram que o rombo poderia alcançar aproximadamente R$ 54 bilhões.
Desde então, a companhia entrou em recuperação judicial, enquanto a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) passaram a investigar a atuação de ex-executivos da varejista.
Em março de 2025, o MPF denunciou 13 ex-dirigentes da empresa, acusados de integrar uma estrutura voltada à manipulação de resultados financeiros e à ocultação da real situação patrimonial da companhia.
Já em março de 2026, a Americanas protocolou na 4ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro o pedido de encerramento da recuperação judicial, alegando ter cumprido as obrigações previstas no plano de reestruturação.
Na mesma semana, a Justiça homologou a BandUP! (Fan Store Entretenimento) como vencedora do leilão da UPI Uni.Co, unidade que reúne as marcas Puket e Imaginarium, por R$ 152 milhões. A venda faz parte do plano de recuperação aprovado pelos credores para reduzir o endividamento da companhia.
Defesa nega conhecimento da fraude
Em nota divulgada após a divulgação da decisão, a defesa de Carlos Alberto Sicupira, Paulo Alberto Lemann e Eduardo Saggioro Garcia afirmou para o Metrópoles que as investigações realizadas até o momento demonstram que os acionistas de referência e o conselho de administração eram sistematicamente enganados pela antiga diretoria da Americanas.
Segundo os advogados, os acionistas afirmam que só tiveram conhecimento das irregularidades em janeiro de 2023 e destacam que aportaram bilhões de reais na companhia após a descoberta da fraude para viabilizar sua recuperação judicial. A defesa também informou que continuará colaborando com as investigações e pretende recorrer da decisão.