EUA absolvem última 'bruxa' condenada em Salem no século XVII
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EUA absolvem última 'bruxa' condenada em Salem no século XVII

Até semana passada, Elizabeth Johnson Jr. era uma bruxa. Ela havia confessado a prática de bruxaria durante os julgamentos de Salem, e era a única pessoa condenada naquela ocasião cujo nome ainda não havia sido limpo.

Apesar de ter sido condenada à morte em 1693 — ela e mais de 20 parentes enfrentaram acusações similares — teve sua pena comutada e evitou ser morta pelo Estado. A absolvição veio na quinta, 329 anos após sua condenação, escondida no Orçamento do estado de Massachusetts, assinado pelo governador Charlie Baker após três anos de lobby de uma professora de ensino cívico e sua turma de oitava série, apoiados por uma parlamentar do estado.

"Estou animada e aliviada", disse Carrie LaPierre, professora da Escola North Andover, de Ensino Fundamental, em uma entrevista no sábado.

A educadora, contudo, disse estar chateada que não pôde "falar com as crianças" sobre o assunto, já que a classe está em férias de verão.

"Tem sido um projeto tão grande. Nós a chamamos de E.J.J., eu e todas as crianças. Ela virou alguém no nosso mundo, de uma certa maneira", completou.

Apenas os fatos mais gerais da vida de Johnson são conhecidos. Ela tinha 22 anos quando acusada, possivelmente tinha uma deficiência mental e nunca se casou ou teve filhos — todos fatores que poderiam levar uma mulher a ser alvo dos julgamentos, disse LaPierre.

Na época, o governador de Massachusetts concedeu a Johnson uma comutação de pena, e ela morreu em 1747 aos 77 anos. Ao contrário de outras condenadas, contudo, não tinha descendentes conhecidos que pudessem lutar para limpar seu nome.

Esforços anteriores para absolver pessoas condenadas por bruxaria talvez negligenciaram Johnson devido a confusões administrativas, dizem os historiadores: sua mãe, que tinha o mesmo nome, também foi condenada, mas fora absolvida antes.
O esforço para limpar o nome de Johnson foi um projeto dos sonhos para a classe cívica da oitava série, disse LaPierre.

O projeto permitiu que ela ensinasse aos alunos sobre métodos de pesquisa, incluindo o uso de fontes primárias, e o processo pelo qual um projeto de lei se torna uma lei, além de formas de entrar em contato com parlamentares estaduais.

O projeto também ensinou aos alunos o valor da persistência: após uma intensa campanha para a redação de cartas, o projeto de lei para absolver Johnson estava praticamente morto. Enquanto os estudantes pressionavam o governador por um perdão, a senadora estadual Diana DiZoglio acrescentou uma emenda ao projeto de lei orçamentária, impulsionando os esforços.

"Esses estudantes deram um exemplo incrível do poder do ativismo e da defesa de outros que não têm voz", disse DiZoglio, democrata cujo distrito inclui North Andover, em entrevista.

Pelo menos 172 pessoas de Salem e cidades vizinhas, que incluem o que hoje é North Andover, foram acusadas de bruxaria em 1692 como parte de uma inquisição dos puritanos que, segundo historiadores, era baseada em paranóia.

Emerson Baker, professor de história da Universidade Estadual de Salem e autor de "A Storm of Witchcraft: The Salem Trials and the American Experience" ("Uma tempestade de bruxaria: os julgamentos de Salem e a experiência americana", em tradução livre), disse que houve muitas razões pelas quais pessoas inocentes admitiriam ter cometido crimes de bruxaria.

Muitas queriam evitar a tortura ou acreditavam que, de fato, poderiam ser bruxas e apenas sabiam — resultado de uma campanha de pressão de religiosos e até mesmo parentes.

"Chega um ponto em que ela diz: "pelo bem da comunidade, eu deveria confessar? Eu não acho que seja uma bruxa, mas talvez tenha tido alguns pensamentos ruins", afirmou Baker, dizendo que este é um raciocínio lógico para uma sociedade que acreditava na existência de bruxas.

Outra razão comum para confissões, disse o professor, era a sobrevivência. Ficou claro no verão de 1692 que aqueles que se declararam inocentes foram rapidamente julgados, condenados e enforcados, enquanto aqueles que se declararam culpados pareciam escapar desse destino.

Todas as 19 pessoas que foram executadas em Salem se declararam inocentes enquanto nenhum dos 55 que confessou foi executado, disse ele.

Baker disse estar feliz em ver o nome de Johnson limpo. As acusações contra ela e sua família devem ter arruinado suas vidas e reputações, afirmou ele. Segundo o professor, "por tudo o governo e o povo da baía de Massachusetts fez Elizabeth e sua família passarem", inocentá-la é "o mínimo que podemos fazer".

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