Há fatores mais importantes em jogo nesta eleição no Brasil do que a Copa. Mundiais anteriores não influenciaram resultado

Reuters

A goleada histórica sofrida pelo Brasil contra a Alemanha chocou os brasileiros e jogou um balde de água fria numa nação que estava começando a se sentir bem por sediar a Copa do Mundo, mas a derrota humilhante na semifinal não deve mudar o rumo da eleição presidencial de outubro.

Cenário: Candidatos à Presidência pegam carona em derrota contra Alemanha

Presidente Dilma Rousseff fala durante convenção do PROS no dia 24
Alan Sampaio / iG Brasília
Presidente Dilma Rousseff fala durante convenção do PROS no dia 24

Dia 6: Campanha eleitoral começa em todo o país

Antes do massacre por 7 x 1 na terça-feira, a presidente Dilma Rousseff viu os índices de aprovação de seu governo subirem, com brasileiros animados com o avanço da seleção brasileira no torneio e, principalmente, porque os temores de fracasso do evento do ponto de vista organizacional deram lugar a elogios ao país no exterior.

A maior derrota do futebol do Brasil jogando em casa pôs a população em depressão, tirando de Dilma o que poderia ser um ponto favorável na campanha presidencial em que tenta reeleição. Se a seleção brasileira conquistasse o hexacampeonato, Dilma se apropriaria da vitória no futebol durante a campanha.

Em vez disso, ela está de volta à realidade de inflação elevada e com a economia enfrentando o quarto ano seguido de baixo crescimento e descontentamento generalizado sobre os serviços públicos e os gastos para realização do Mundial, que resultaram em protestos de rua em junho e julho do ano passado.

"Acreditamos que a nossa visão - de que a oposição tem chance de vencer - foi reforçada pelo que pode legitimamente ser considerado, do ponto de vista brasileiro, como uma derrota esportiva trágica", disse o economista Tony Volpon, da Nomura Securities, em nota a clientes.

Valores: Até agora campanha presidencial já prevê gastos de R$ 568,4 milhões

Mas, ainda que alguns analistas do mercado financeiro avaliem que a derrota para a Alemanha prejudique a presidente até outubro, cientistas políticos entendem que as vitórias ou derrotas esportivas têm efeito curto nas campanhas eleitorais, mesmo uma derrota histórica como a de terça-feira.

"(A derrota para a Alemanha) não tem nada a ver com a organização da Copa. O que podia cair no colo do governo é a organização da Copa, mas nesse sentido tudo ocorreu dentro do razoável... Até onde compete à organização, a Copa está ocorrendo satisfatoriamente e acho que é isso que o atual governo vai apresentar depois", afirmou à Reuters o professor de Ciência Política da FGV-SP, Cláudio Couto.

"Mesmo que haja um mau humor momentâneo, isso não afeta a eleição. Se fizermos uma pesquisa esta semana, é capaz de a pesquisa revelar uma piora na avaliação do governo, uma queda da Dilma porque as pessoas estão de mau humor. Se fizer daqui a um mês, duvido que isso (a eliminação do Brasil) tenha algum efeito", acrescentou Couto.

Há fatores mais importantes em jogo nesta eleição no Brasil do que a Copa e o principal deles é o custo crescente de uma desaceleração da economia, avalia o consultor João Augusto Castro Neves, da consultoria de risco político Eurasia, em Washington. "Qualquer impacto da derrota terá um efeito marginal sobre as eleições daqui a quase três meses", disse, no mesmo tom do professor da FGV-SP.

"Se Dilma perder a eleição em outubro, será certamente por causa da economia, e não da Copa do Mundo", disse Castro Neves em entrevista por telefone.

As pesquisas mostram que Dilma continua favorita para vencer as eleições de outubro, embora seus adversários venham reduzindo a distância nos últimos meses. Mesmo antes da derrota humilhante de terça-feira, as pesquisas mostravam que a eleição provavelmente será decidida no segundo turno entre Dilma e o tucano Aécio Neves, visto com bons olhos no mercado financeiro.

Economia é crucial para a eleição, e não futebol

O histórico recente mostra pouca correlação entre os resultados de esportes e eleições no Brasil.

Em 2002, a seleção brasileira ganhou a Copa do Mundo pela quinta vez, mas o PSDB do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso perdeu o poder. Quatro anos depois, o Brasil perdeu o Mundial, mas o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito.

Pesquisas indicam que candidato do PSDB, Aécio Neves, deve ir ao segundo turno com Dilma
Reuters
Pesquisas indicam que candidato do PSDB, Aécio Neves, deve ir ao segundo turno com Dilma

Para Dilma, o maior risco de sediar a Copa nunca foi o desempenho da seleção brasileira dentro de campo, mas a capacidade do país de organizar um torneio de grande magnitude com sucesso.

Apesar dos atrasos na construção dos estádios e de falhas na infraestrutura, o torneio que recebeu seleções de 32 países tem transcorrido muito melhor do que o esperado e o futebol empolgante visto nos gramados fez com que este Mundial já seja considerado um dos melhores de todos os tempos.

A Copa levantou o humor do Brasil e melhorou as expectativas econômicas dos brasileiros em julho, dando uma impulso à popularidade de Dilma entre os eleitores, de acordo com uma pesquisa da semana passada.

O estado de espírito azedou após a goleada sofrida pela seleção e pode acabar machucando os números da presidente nas pesquisas no curto prazo, embora seja pouco provável que altere o panorama eleitoral.

O consultor Castro Neves, da Eurasia, mantém sua estimativa de chance de 70% de reeleição de Dilma em outubro, mesmo após o vexame da seleção brasileira.

Torcedores no estádio Mineirão na terça-feira vaiaram a equipe brasileira e alguns xingaram Dilma, o que levou alguns a se preocuparem com a chance de a depressão nacional reacender as manifestações nas ruas.

Mas a ameaça antes da Copa de que o torneio pudesse ser interrompido por protestos nunca se materializou, os pequenos atos contra o evento fracassaram na abertura do Mundial e as tentativas esporádicas de manifestações perderam fôlego à medida que os jogos aconteciam.

Os brasileiros não foram às ruas após a derrota de terça-feira, o que torna improvável que protestos contra o governo voltem com força, agora que a Copa está terminando.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.