Em comissão estadual, ex-militar dá outra versão sobre execução de casal em 1968

Por Vasconcelo Quadros - iG São Paulo | - Atualizada às

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Segundo o ex-soldado do Exército, Valdemar Martins de Oliveira, cena de acidente em estrada foi montada para encobrir assassinato de estudantes

O depoimento do ex-soldado do Exército Valdemar Martins de Oliveira, nesta quinta-feira (16), na Comissão da Verdade de São Paulo, desmontou a versão oficial sobre a morte do casal de estudantes de filosofia da USP, João Antônio e Catarina Abi-Eçab, ocorrida em maio de 1968. Segundo a versão divulgada à época, eles morreram no choque do automóvel que conduziam com explosivos na traseira de um caminhão, na altura do quilômetro 69, da Via Dutra, em Vassouras (RJ). Oliveira revelou que foi execução e apontou o coronel Fred Perdigão Pereira, nome forte da repressão, como o autor dos disparos.

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Divulgação
Valdemar Martins de Oliveira, Ivan Seixas, Adriano Diogo e Belisário Santos Jr.

“Vi ele (Perdigão) atirar. Os dois estavam desacordados, já não reagiam. Ele disse que os dois não serviam mais para nada. Abaixou-se e deu um tiro na cabeça de cada um”, contou o ex-militar cujo depoimento tem o peso de testemunha ocular.

Integrante da equipe de Perdigão, Oliveira havia participado da prisão do casal, numa residência em Vila Isabel, no Rio, e depois acompanhou a equipe de agentes até o local do assassinato, um sítio em São João do Meriti, provável centro de torturas e execução que, segundo ele, pertencia a um coronel do Exército.

Segundo o ex-soldado, embora outros agentes circulassem pelas cercanias da casa, no local da execução estavam o coronel Perdigão, um policial civil chamado Miro e o sargento Guilherme Pereira do Rosário, que 13 anos depois morreria no frustrado atentado a bomba no Riocentro. Morto em 1997, Perdigão teria feito os disparos à queima roupa, com um Colt 45, depois de várias sessões de tortura. Ele citou outro ativista que também passou pelo sítio, de quem lembra apenas do apelido, “Professor”, e que também chegou desacordado ao sítio no mesmo dia.

Durante décadas o regime militar insistiu na falsa versão de acidente com explosivos, mas em 2001, depois de reportagem da TV Globo, médicos legistas exumaram o casal e concluíram, em laudo pericial, que havia sinais de tiros nos crânios do casal.

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O relato de Oliveira esclarece o caso. Ele diz que João Antônio e Catarina, que eram militantes da Ação Libertadora Nacional (ALN), foram presos equivocadamente sob suspeita de que teriam participado da morte do capitão americano Charles Rodney Chandler, executado por um comando da ALN e Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) um mês antes, em São Paulo.

Durante o depoimento, o ex-militar levantou a suspeita de que o atentado ao Riocentro faria parte de um plano para eliminar Rosário e o sargento Wilson Dias Machado, que integravam a mesma equipe - o Grupo Secreto, liderado pela ultradireita militar - e haviam participado de outras ações ilegais comprometendo diretamente Perdigão. Ele não tem provas, mas diz que os dois militares que estavam no Puma eram especialistas em explosivos e não cometeriam erro primário que implicasse em acidente de trabalho. Na época, lembra, também era possível fazer as explosões por controle remoto. O ponto forte de sua suspeita se baseia na onda de atentados que envolvia a mesma equipe, até hoje não esclarecidos.

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Valdemar Martins de Oliveira diz que foi recrutado para a equipe de Fred Perdigão em 1968, no Rio, por ter se destacado em todos os cursos militares. Passou então a ajudar nos serviços de espionagem, fotografando e “campanando” ativistas de esquerda. Ao presenciar a tortura e execução do casal, garante, tentou se desligar, mas foi perseguido e espancado por companheiros de caserna para não dizer o que sabia.

Numa das invasões à sua casa, diz ele, presenciou o espancamento da própria mãe. “Fui enganado”, afirma. Seu objetivo agora é limpar a ficha militar - na qual ainda consta como desertor - e passar para reserva remunerada do Exército. Ele já havia dado detalhes sobre a morte do casal em sessão secreta da Comissão Nacional da Verdade. Nesta quinta, falou em audiências pública presidida pelo deputado estadual Adriano Diogo (PT).

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