Mortes em silos de fazendas amedrontam população dos EUA

País tenta diminuir mortes de trabalhadores rurais - especialmente crianças e adolescentes - em armazenadores de grãos

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Tommy Osier, 18, um estudante popular e despreocupado, ainda tinha um ano para se formar no ensino médio e isso não era uma certeza. Um trabalho agrícola lhe rendia US$ 7,40 por hora, lhe ensinou disciplina e deu a ele novas habilidades. Ele havia começado a pensar em levar a vida na agricultura.

Mas ele não ficou nada contente com o trabalho que fez em um feriado do ano passado, quando trabalhou no silo da fazenda Pine Grove. O milho estava úmido e ficou preso nas paredes, precisando ser retirado com uma haste de aço.

Naquela manhã, logo após as 9h, o telefone tocou na casa de Osier.

"Tommy está no silo", sua irmã disse para sua mãe, Linda, sem saber o que significava.

Linda, que cresceu em uma fazenda de porcos, soube imediatamente.

"Ele está morto", disse ela, caindo no chão. "Tommy está morto."

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Tommy Osier, que morreu em silo nos EUA

Mesmo que a taxa de ferimentos graves e mortes em fazendas americanas tenha diminuído, o número de trabalhadores que morrem por aprisionamento em silos de grãos permanece alto. O número anual de acidentes aumentou ao longo da última década, atingindo um pico de pelo menos 26 mortes em 2010, antes de diminuir um pouco desde então.

Silos cheios de milho, trigo ou soja se tornam armadilhas mortais quando os grãos ficam fora de controle, asfixiando ou esmagando suas vítimas. Desde 2007, 80 trabalhadores rurais morreram em acidentes em silos, 14 deles eram adolescentes.

As mortes são terríveis e praticamente todas evitáveis.

Especialistas disseram que a taxa de mortes em silos é contínua devido em parte à enorme quantidade de milho que vem sendo produzido e armazenado nos Estados Unidos para atender a demanda mundial por alimentos, ração e combustível à base de etanol.

No ano passado, o Departamento do Trabalho propôs novas regulamentações destinadas a melhorar as proteções para crianças que realizam trabalhos agrícola. Eles teriam proibido menores de 18 anos de trabalhar em grandes silos de grãos ou espaços similares. Mas o governo de Obama, sensibilizado com as acusações republicanas de que estava sufocando a economia com seus regulamentos caros, desistiram de passar as regras propostas neste ano devido a fortes objeções por parte de comunidades rurais.

Mas até mesmo aquelas regras não teriam coberto as condições de trabalho em agricultura familiar e pequenas operações como as que Tommy Osier morreu e que respondem por 70 % dos acidentes. Especialistas em segurança disseram que a maioria dos agricultores estão conscientes dos perigos de enviar alguém para dentro de um silo cheio de grãos, mas muitas vezes não possuem o equipamento ou treinamento para proteger seus trabalhadores contra uma possível avalanche.

Dave Schwab, que administrava a fazenda onde Tommy Osier morreu, disse aos investigadores que sabia que o ar dentro de um silo pode ser tóxico e inflamável, mas que não tinha conhecimento dos perigos relacionados a uma avalanche de milho. Ele não possuía em sua fazenda controle de ar ou equipamento de resgate, mas os investigadores não encontraram nenhuma evidência de que deliberadamente tenha desrespeitado as normas estaduais.

Isenções e Propostas

Centenas de milhares de silos estão localizados em pequenas e médias empresas e nos terminais de armazenagem de grãos locais e, devido ao fato de que estas operações empregam menos de 10 trabalhadores, elas estão isentas das regras federais de segurança e saúde.

Crianças que trabalham para seus pais ou parentes próximos são isentas de todas as normas de trabalho, uma característica da lei federal desde 1938, que se baseia na teoria de que os pais irão cuidar de seus próprios filhos.

Normas trabalhistas federais aplicam-se apenas às maiores das 13 mil instalações de manuseio de grãos, embora historicamente as maioria das armadilhas de grãos relatadas ocorram em fazendas pequenas.

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Mas as mortes e os ferimentos em silos continuaram. No dia 4 de agosto do ano passado, Bryce Gannon e Tyler Zander, de 17 anos, alunos do ensino médio, estavam dentro de um silo comercial em Kremlin, Oklahoma, operando uma broca de varredura de 25 centímetros no chão. A perna de Gannon ficou presa na broca, e quando Zander tentou ajudá-lo, também ficou preso no maquinário. Ambos os adolescentes perderam uma perna.

Três semanas mais tarde, o governo federal propôs novas regras de trabalho para crianças e adolescentes que trabalham com agricultura, a primeira grande revisão em quase meio século.

"As crianças que trabalham na agricultura são parte dos trabalhadores mais vulneráveis dos Estados Unidos", disse a secretária do Trabalho Hilda Solis, ao anunciar as regras propostas.

O projeto observou que os riscos do trabalho agrícola haviam mudado drasticamente e que, embora os trabalhadores rurais adolescentes representassem apenas 4% dos jovens que trabalham no país, eles foram responsáveis por mais de 40% das mortes no local de trabalho em geral.

Os regulamentos propostos teriam proibido a entrada de jovens trabalhadores em silos e outros espaços fechados. Mas foram além em outras áreas, proibindo que adolescentes executem uma ampla gama de tarefas agrícolas, incluindo pastoreio de gado e a condução de veículos agrícolas de grande porte. Eles também teriam imposto novos limites para a altura das escadas em que poderiam subir e o tamanho das árvores que poderiam cortar.

A Universidade Purdue disse que o governo desperdiçou uma oportunidade ao criar regras demasiado abrangentes.

Embora os regulamentos não fossem a favor da isenção de longa data para as crianças que trabalham em pequenas fazendas familiares, a reação foi intensa. Milhares de agricultores se manifestaram. Até mesmo os pais de crianças mortas em acidentes de fazenda – inclusive os pais de Osier - se opuseram às medidas.

Membros do Congresso de ambos os partidos exigiram que as regras fossem aprovadas em sua totalidade - em grande parte com base na leitura distorcida pelos adversários que teriam proibido as crianças de realizar tarefas nas fazendas de suas próprias famílias. Senadores democratas enfrentaram disputas acirradas nos Estados agrícolas - incluindo Jon Tester, de Montana, Debbie Stabenow de Michigan e Claire McCaskill, do Missouri – e queixaram-se diretamente com a Casa Branca. Grupos bipartidários do Congresso introduziram uma legislação que derrubariam os regulamentos caso fossem finalizados.

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Corpo de Tommy Osier é retirado de silo nos EUA

De acordo com oficiais do governo de Obama e do Departamento do Trabalho, a Casa Branca não fez nenhum esforço para defender as regras criadas por seu próprio Departamento de Trabalho, orientando Solis a acabar com elas.

A Casa Branca não quis comentar conversas confidenciais entre membros de sua equipe e um oficial de gabinete. Mas um porta-voz, Matthew Lehrich, disse em uma declaração por escrito: "O presidente Obama acredita que a agricultura familiar e as tradições rurais são fundamentais para a economia americana e seu modo de vida. Ele também disse para que seu governo fosse sensível a entrada do público no processo de regulamentação. Ele acrescentou que o ato de retirar permanentemente a proposta esteve "muito de acordo com ambos princípios".

Em abril, o Departamento do Trabalho retirou abruptamente as regras com uma breve declaração expressando seu compromisso em respeitar o papel dos pais e familiares nas tradições rurais.

"Para ser claro", continuou, em um comentário altamente incomum, "este regulamento não irá ter continuidade durante o governo de Obama."

Trabalhadores da Saúde pública e defensores dos trabalhadores agrícolas ficaram chocados. Um chamou o ato de um soco vindo do Ministério do Trabalho aos grupos que passaram mais de uma década tentando modernizar as regras de exploração de segurança para as crianças que trabalham em fazendas agrícolas.

"Estou muito frustrado e revoltado com a Casa Branca", disse Rena Steinzor, um professor da Faculdade de Direito Carey da Universidade de Maryland e especialista em saúde federal e regulamento de segurança. "Normalmente uma agência propõe um regulamento e, se houver problemas, a agência o reanalisa. Mas vivemos em uma era de ganância e insanidade, e as pessoas que estão no poder enlouqueceram. Ao invés de defendê-la, o governo de Obama só tem cedido."

Redução dos perigos

No dia em que morreu, Tommy Osier subiu uma escada de 15 metros e entrou no silo de cimento. O milho estava endurecido ao longo dos lados da caixa e também formou uma crosta sólida, ou ponte, acima de sua cabeça. Ele começou a cutucar o milho com uma barra de ferro, enquanto seu colega de trabalho, Patrick Pickvet, 23, tirava o milho com uma pá através de um pequeno orifício na base do lado de fora da caixa.

De repente, o milho acima e abaixo de Tommy cedeu, e em segundos ele foi soterrado pela avalanche, jogado contra o lado áspero do silo, ele deslizou para baixo, raspando seu rosto contra fiapos de madeira que entraram em seu nariz, ouvidos e garganta.

Pickvet disse que os dois tinham entrado no silo durante quase uma semana pois as brocas estavam quebradas e precisavam ajudar o milho a fluir manualmente.

"Sabia que era um pouco arriscado", disse ele, "mas não sabia que isso ia acabar sendo tão ruim."

Tommy morreu sufocado em questão de minutos - foram precisos 35 homens e mais de quatro horas para tirar seu corpo ferido de dentro do silo. O legista encontrou fiapos grudados em seus pulmões.

Equipes de resgate o colocaram na parte de trás de uma caminhonete no celeiro com uma tela para bloquear as câmeras de televisão locais. Sua mãe estava lá esperando por ele.

Linda Osier disse que não ficou surpresa com a extensão de seus ferimentos, mas ficou chocada que o impacto havia deslocado sua mandíbula.

"Sei que pode soar um pouco mórbido, mas gostaria de ter fotos dele para poder dar aos socorristas, pois seu estado chocou muitos dos socorristas", disse ela.

O que mais confunde especialistas em segurança e defensores é o quão simples e barato é evitar tais tragédias. Um sistema de polias, um cinto de segurança e um conjunto de placas para cercar um trabalhador preso custa menos de US$ 1.000 por elevador, disse Wayne Bauer, diretor de segurança da empresa de grãos localizada no Michigan, Star of the West Milling Co, e seguir as exigências federais, como ter um observador e desligar qualquer equipamento mecânico, não custa nada.

O Departamento do Trabalho aumentou a aplicação nos últimos anos. Depois de emitir 663 citações para lidar com violações pelo mal manuseio de grãos em 2008, o número aumentou para 1.532 em 2011.

Mas os reguladores federais não tinham jurisdição sobre a pequena fazenda de Schwab. Ao invés disso, os funcionários de segurança do trabalhador do Estado de Michigan lhe deram uma multa de US$ 7 mil por violações de segurança geral, uma quantidade que foi diminuída pela metade, uma vez que ele consertou as brocas quebradas e colocou placas de advertência.

Em março, Linda Osier participou de uma conferência de segurança em Grand Rapids, Michigan, onde técnicas de resgate de trabalhadores presos em silos de grãos estavam sendo ensinadas aos agricultores e bombeiros utilizando uma seção transversal de um silo de metal cheio de bolinhas de plástico.

Ninguém ali sabia que ela tinha perdido um filho em um acidente de silo nove meses antes, e ela foi chamada na frente da multidão para participar.

"Eu disse que participaria, mas não quis ser a vítima", lembrou. "Então, tirei meus sapatos e subi no silo e ajudei a colocar os painéis metálicos de contenção ao redor da vítima."

Ela fez uma pausa, revivendo a experiência. "Meus pés estavam afundando nas bolinhas", ela disse, e então ficou em silêncio. Ela não conseguiu continuar.

Por John M. Broder

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