Duas décadas após o fim da União Soviética, região possui conflitos

Tensão entre Azerbaijão e Armênia e conflitos separatistas em solo russo perduram após o colapso do regime soviético

iG São Paulo |

O fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), há duas décadas, não foi suficiente para pôr fim a uma série de conflitos que até hoje afligem os países que nasceram das cinzas do antigo regime comunista. "A desintegração pode causar confrontos e até mesmo guerras entre nações e repúblicas", alertou o então presidente Mikhail Gorbachev (1990 - 1991) nos últimos dias da União Soviética, cujo fim oficial ocorreu em 8 de dezembro de 1991.

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'A desintegração pode causar confrontos e até mesmo guerras entre nações e repúblicas', disse Mikhail Gorbachev nos últimos dias de URSS (14/06/2010)

O mais antigo dos conflitos, de 1987, entre Azerbaijão e Armênia, perdura até hoje. Após uma violenta guerra de quase quatro anos (1991-1994) e que deixou 25 mil mortos, os dois países assinaram um cessar-fogo. Mas a tensão na fronteira não indica que o problema esteja perto de seu fim.

O Azerbaijão tem um terço de seu território ocupado e exige a retirada das tropas armênias e sua substituição por forças de pacificação. O desejo é conceder autonomia à região de Nagorno Karabakh. Por sua vez, a Armênia afirma que tem direito sobre o território e diz que sua autonomia deveria ser decidida num plebiscito que não incluiria os azerbaijanos.

Um milhão de moradores foram obrigadas a deixar suas casas em Nagorno Karabakh por causa da ocupação das tropas armênias. O Azerbaijão já declarou que o insucesso nas negociações obrigará o país a recorrer à força. As despesas militares da antiga república soviética já são iguais a todo o orçamento da Armênia.

As importações de armamentos desse país também vêm aumentando ultimamente. A grande esperança de Erevan, a capital da Armênia, é o exemplo da Geórgia. Em agosto de 2008, o país tentou restabelecer sua soberania na região separatista da Ossétia do Sul, mas a Rússia, sob comando do presidente Dmitri Medvedev, interveio no conflito e reconheceu não só sua independência, como também da Abkházia.

Depois disso, apenas Nicarágua, Venezuela e dois pequenos países do Pacífico - Nauru e Tuvalu - repetiram Moscou e reconheceram a autonomia dessas regiões. Esses dois conflitos também remontam aos tempos soviéticos. A lógica era simples: se a Geórgia se separasse da URSS, Abkházia e Ossétia do Sul reivindicariam sua independência.

Os primeiros confrontos começaram ainda na época do regime soviético. Após o fim do regime comunista, a tensão reprimida se tornou uma guerra declarada. A Rússia apoiou os separatistas com armas, dinheiro, apoio logístico e soldados, e exerceu um papel decisivo na derrota das forças georgianas.

Algo parecido ocorreu entre a Moldávia e uma região do país, a Transnístria. Foi lá que, entre 1992 e 1993, houve um conflito armado que só terminou quando o exército russo se juntou aos separatistas sob o pretexto de evitar um banho de sangue.

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Homem busca pertences entre os escombros de sua casa, destruída durante a guerra entre a Rússia e a Geórgia (30/6/2010)

Não menos violentos foram os conflitos em próprio solo russo, nas províncias do Cáucaso do Norte, como a Ossétia do Norte e a Inguchétia, que antes mesmo do ocaso soviético já brigavam por territórios.

Em 1994, explodiu a violenta guerra da Chechênia, que durou até 1996. Até hoje, separatistas dessa província realizam atentados terroristas, que também são praticados por militantes de regiões vizinhas.

Esses conflitos são apenas a ponta do iceberg. Praticamente todos os Estados surgidos das ruínas da URSS têm problemas parecidos. Uma das disputas por território mais conhecida aconteceu entre a Rússia e a Ucrânia, na península da Crimeia.

Na Ásia Central, as fronteiras traçadas nos tempos de Stálin não respeitaram as realidades ancestrais dos povos que lá viviam. No vale de Fernaga, por exemplo, convivem mais de cem etnias diferentes. A região foi um foco de violência nos tempos soviéticos.

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Além disso, existe o problema de falta de água, uma das razões das diferenças entre Tadjiquistão e Uzbequistão, que, por enquanto, só estão sendo discutidas por seus dois presidentes

Relações entre Washington e Moscou

Apesar de a dissolução da URSS, deixando os EUA como superpotência mundial, não chegou ao fim o antagonismo entre Washington e Moscou, que ao longo desses 20 anos ressurgiu de várias formas.

Certamente, a Rússia tinha poucos recursos econômicos após a mudança de regime, e sua liderança foi interditada, mas a herdeira da URSS não aceitou em nenhum momento um monopólio americano sobre os assuntos mundiais e competiu com ele.

Já os Estados Unidos procuraram promover nessas duas décadas a transformação política e econômica da Rússia e sua incorporação às organizações multilaterais, enquanto observa com apreensão o crescimento da China.

A incorporação da Rússia nas cúpulas do G7, em forma de G8, e sua iminente adesão à Organização Mundial do Comércio (OMC) após 18 anos de negociações, fazem parte dessas medidas de incorporação.

Na recente cúpula Ásia-Pacífico, realizada em Honolulu, o presidente americano, Barack Obama, assegurou após uma reunião cordial com seu colega russo, Dmitri Medvedev, que a incorporação da Rússia à OMC será "boa para os Estados Unidos e para o mundo".

Entretanto, Washington não deixou de ser um crítico severo da Rússia por seu modelo de democracia, que considera autoritário, e por seu capitalismo oligárquico, nem deixou de vigiar as ambições militares de Moscou e as difíceis relações que mantém com alguns de seus vizinhos. Há apenas uma semana, os ecos da Guerra Fria (1947 - 1991) voltavam a soar nas duas capitais pela eterna questão da segurança na Europa.

O presidente russo acusou os EUA e seus aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) de atuar de má fé com relação ao escudo antimísseis que pretendem instalar na Europa oriental, para supostamente defender o continente de um ataque do Irã, e advertiu que a Rússia apontaria seus mísseis ao Ocidente.

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Anteriormente, os EUA tinham anunciado que deixariam de conceder informações à Rússia sobre o número e a posição de suas tropas na Europa, em outra mostra de desconfiança mútua.

De acordo com Washington, a medida é uma resposta ao descumprimento de Moscou do Tratado FACE, que limitou as forças armadas convencionais na Europa e foi assinado um ano antes da dissolução da URSS.

A instalação de um escudo antimísseis é apenas o mais recente episódio em uma longa lista de desencontros entre as duas potências sobre as condições de segurança na Europa.

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Dmitri Medvedev e Barack Obama durante encontro em novembro do ano passado
A guerra da Chechênia, a expansão da Aliança Atlântica rumo ao centro e o leste da Europa, até englobar antigas repúblicas soviéticas como a Estônia, Letônia e Lituânia, a presença russa na Moldávia e a guerra da Geórgia são outros exemplos.

A rivalidade também se manteve com relação a outras áreas do mundo. Ainda após o fim do comunismo soviético, os dois grandes continuaram discordando sobre a Coreia do Norte, o Irã e a Síria .

Entretanto, nenhum conflito causou mais tensão entre Estados Unidos e Rússia que a invasão do Iraque em 2003. A iniciativa unilateral do presidente americano George W. Bush (2001 - 2009) convenceu a Rússia de que não é a legalidade internacional o que guia Washington.

A Rússia acusa os EUA de querer romper na Europa e fora dela o "equilíbrio estratégico" e buscar um potencial militar único que garanta a invulnerabilidade absoluta, ou seja, "a absoluta impunidade", nas palavras do embaixador russo na Otan, Dmitri Rogozin.

A "libertação" da Europa oriental, o fim da Guerra Fria e o colapso da União Soviética em 1991 foram festejados nos Estados Unidos como um triunfo estratégico próprio, sob a direção do presidente Ronald Reagan (1981 - 1989), e em menor medida por George Bush pai (1989 - 1993).

Mas, como afirma o historiador George C. Herring em seu livro "From Colony to Superpower" (De Colônia à Superpotência, em tradução livre), dedicado à política externa dos EUA, "a economia soviética se afundou por seu próprio peso e não por pressões exteriores".

Além disso, ele acrescenta, é possível que o "poder brando" dos EUA na música e nos seus bens de consumo tivesse mais efeito subversivo que sua força militar.

Com EFE

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