Secretário publica notas pessoais de João Paulo 2º contra a vontade do pontífice

Por AP | - Atualizada às

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Polonês ordenou queima de escritos, mas conselheiro os transformou em livro por 'não ter coragem' de destruí-los

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Papa João Paulo 2º (D) é ajudado por seu secretário pessoal, Stanislaw Dziwisz, ao chegar em Como, norte da Itália (4/5/1996)

Os poloneses estão divididos entre os elogios e as críticas em relação a um secretário de João Paulo 2º que publicou as anotações pessoais do papa - contra sua última vontade e seu testamento.

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João Paulo ordenou que as anotações fossem queimadas depois de sua morte e pôs seu fiel confidente, o reverendo Stanislaw Dziwisz, como encarregado da tarefa. Para a surpresa de todos, Dziwisz, agora um cardeal, disse recentemente que "não teve a coragem" de destruir as anotações e as publicará como uma preciosa mostra da vida privada do amado pontífice, que será declarado um santo em abril.

O livro — "Bem nas Mãos de Deus. Anotações Pessoais 1962-2003" — será lançado na Polônia na quarta-feira. Até agora, as críticas superam os elogios. "Que tipo de traidor desconsideraria o último desejo de um morto?", escreveu Maksymilian Przybylo na internet.

O livro contém meditações religiosas que Karol Wojtyla recordou entre julho de 1962 e março de 2003 — abrangendo um período em que era um bispo na Polônia até se tornar um superastro global.

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A decisão de publicar não vai contra a infalibilidade papal que, ao contrário da crença popular, refere-se apenas a questões da doutrina da igreja. Ainda assim, muitos expressam choque com o fato de um assessor que tinha a confiança de João Paulo 2º ter desobedecido suas ordens, especialmente em uma questão tão sagrada como uma vontade expressa.

"Um bispo que tinha de nos dar um bom exemplo em vez disso mostra insubordinação em relação a seu superior", disse Anna Romejko, uma estudante na Universidade Católica de Lublin, em um post online.

Já houve outros casos na história em que os administradores de testamentos desafiaram instruções de pessoas famosas de destruir seu trabalho.

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Papa João Paulo 2º (foto de arquivo). Foto: APPapa João Paulo 2º (D) é ajudado por seu secretário pessoal, Stanislaw Dziwisz, ao chegar em Como, norte da Itália (4/5/1996). Foto: APAinda cardeal, Karol Józef Wojtyla é fotografado no Vaticano (3/10/1978). Foto: APJoão Paulo 2º saúda os fiéis reunidos na praça São Pedro depois de ser eleito papa (16/10/1978). Foto: APAngelina Tsukas-Spiers recebe visita de João Paulo 2º no hospital São José em Phoenix, EUA (14/9/1987). Foto: APPapa João Paulo 2º acena ao chegar na praça Youido, em Seul, para uma missa (8/10/1989). Foto: APPapa João Paulo 2º ajoelha e beija o chão ao chegar no aeroporto de Cartum, no Sudão (10/2/1993). Foto: APPapa João Paulo 2º cumprimenta fiéis em uma igreja de Paris, na França (19/11/1995). Foto: APFiéis se reúnem em luto em estrada que leva à Praça São Pedro, no Vaticano (6/4/2005). Foto: AP

O filho Dmitri do novelista russo Vladimir Nabokov publicou seu trabalho inacabado "The Original of Laura" — que Nabokov deixou instruções para ser queimado — e justificou o ato dizendo que não queria ficar na história um "incendiário literário".

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Dziwisz estava preparado para acusações de traição. Ele foi o secretário pessoal de João Paulo 2º e assessor mais próximo por quase 40 anos na Polônia e no Vaticano, onde há rumores de que deteve o real poder nos anos finais do papa. Depois da morte de João Paulo 2º em 2005 aos 84 anos, ele se tornou arcebispo da Cracóvia, no sul da Polônia, onde constrói um museu em memória do papa polonês. A renda arrecadada com o livro será revertida para o memorial.

"Não tenho dúvidas", disse recentemente. "Essas anotações são tão importantes, dizem tanto sobre a parte espiritual, sobre a pessoa, o grande papa, que teria sido um crime destruí-las", disse. Ele notou o desespero dos historiadores depois que as cartas do papa Pio 12 foram queimadas.

O respeitado comentarista religioso Adam Boniecki escreveu em um semanário da Igreja Católica da Polônia que primeiramente ficou "desagradavelmente surpreso" com a decisão de Dziwisz, mas depois de ler o livro "fiquei grato a ele por assumir o risco de seguir sua própria consciência e não ser um formalista meticuloso".

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Alguns fiéis comuns também declararam apoio. "Agradeço ao cardeal Dziwisz por manter um tesouro tão grande para todos os católicos no mundo", disse Angela Neik, posicionando-se no vívido debate online. "Estou encomendando o livro hoje."

Advogados na Polônia não têm certeza se Dziwisz desrespeitou a lei ao desobedecer o testamento, que dizia explicitamente: "Queime minhas anotações pessoais." Como há pouca tradição na Polônia de ter executores de testamentos, as regras não são muito incisivas.

O livro inteiro de capa dura com cerca de 640 páginas, com fotos do papa e das páginas das anotações, contém ideias ou linhas de pensamento profundamente religiosas, compactas e às vezes enigmáticas que florescem de citações da Bíblia. Ele se tornará uma leitura inspiradora para padres, teólogos e filósofos, mas deve se provar hermético para o leitor comum.

O reverendo Jan Machniak, que escreveu o prefácio, disse à Associated Press que o livro como alvo leitores que precisam ordenar suas vidas ou necessitam de direcionamento em seu próprio crescimento espiritual.

O livro pode ser mais surpreendente pelo que não contém: referência aos eventos mundiais e ao colapso do comunismo na Polônia nativa de João Paulo, onde o papa desempenhou um papel crítico em fazê-lo chegar ao fim. 

Duas breves declarações sobre padres pecadores registradas em março de 1981 talvez ganhem novo significado sob a onda de casos de pedofilia contra os clérigos da Igreja Católica. O papa anotou que, se um pecado é um ato contra Deus e a fé, então o "pecado de um capelão é especialmente assim".

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